Notícia

Agência C&T (MCTI)

Sinfonia digital

Publicado em 01 julho 2008

O computador modificou a música de forma profunda e definitiva, seja como ferramenta para composição, para tratamento de material sonoro, para aprimoramento de técnicas instrumentais tradicionais ou simplesmente como instrumento musical.

O estudo dessa transformação foi o eixo central de um projeto de pesquisa recém-concluído que envolveu diversas instituições e gerou amplos resultados no campo da criação musical e mais de 20 teses, dissertações e trabalhos de iniciação científica, além de publicações, concertos, palestras, workshops e interação internacional.

O Projeto Temático O espaço de composição e performance musical: computador e ambiente acústico, apoiado pela Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), foi coordenado pelo professor e compositor Silvio Ferraz Mello Filho, do Departamento de Música da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

De acordo com Ferraz, desde o fim da década de 1960 se previa que o computador seria de grande utilidade para os músicos assim que fossem implementados os recursos necessários. Hoje, a relação entre máquina e música já se tornou uma realidade incontornável.

“Observando o desenvolvimento da música eletroacústica e eletrônica, depois da popularização do computador, verificamos que ele se tornou um instrumento quase que obrigatório. E não se trata apenas de fazer partituras no computador – o músico trabalha de fato com linguagem de programação”, disse à Agência Fapesp.

O projeto nasceu no fim da década de 1990, a partir de um projeto do programa Jovem Pesquisador desenvolvido na Pontifícia Universidade Católica (PUC). Ali, trabalhando com o professor Fernando Iazetta, que hoje atua na Universidade de São Paulo (USP), Mello iniciou pesquisas que relacionavam música e tecnologia usando dois laptops em diversos concertos.

“Concebemos o temático com o objetivo de atualizar os estudantes da Unicamp em relação aos novos softwares de performance musical, permitindo que eles pudessem desenvolver estudos nesse campo – tanto na criação musical como na criação de aplicativos, isto é, de instrumentos digitais”, explicou.

Uma das ferramentas básicas utilizadas foi o software Max/MSP, que permite a transformação de sons em tempo real. Nesse ambiente de programação, o usuário pode criar um instrumento musical que é tocado com a manipulação de conjuntos de operadores. “O ambiente tem um formato aberto conhecido como Pure-Data (PD) e, nele, os alunos têm programado diversos instrumentos tanto de criação musical como de performance”, disse.

Reconstrução sonora

Além de abordar o uso do computador para composição e execução, o projeto se dedicou também a estudar o que a presença da máquina teria alterado na concepção da música acústica, escrita em partitura. O estudo verificou que a alteração foi radical, porque o computador agiliza cálculos e facilita a análise de sons.

“Podemos fazer a análise do som de um sino, por exemplo, isolar suas componentes e brincar de refazer esse som com uma orquestra sinfônica ou com um quarteto de cordas. Esse tipo de possibilidade fez com que as novas tecnologias tivessem implicações muito grandes no modo contemporâneo de compor”, explicou Ferraz.

Além dessas vertentes, uma linha desenvolvida pela professora Denise Garcia, também da Unicamp, aprofundou-se em um estudo mais ligado à história da música eletrônica e eletroacústica no Brasil.

“Dentro desses campos de estudo, envolvemos pesquisadores de todos os níveis da pós-graduação de diversas áreas de graduação, e com bolsas de iniciação científica. Acabamos tendo intensa atividade de graduação dentro do projeto. Tivemos intercâmbio com outros centros de pesquisas brasileiros e internacionais”, disse Ferraz.

Um exemplo foi a visita, em 2003, de dez pesquisadores do Instituto de Pesquisa e Coordenação Acústica e Músical (Ircam, na sigla em francês), que faz parte do Centro Georges Pompidou, em Paris. “Além de um concerto, foi realizado um importante simpósio, ambos na sede da Fapesp. Um dos objetivos era formar um instituto virtual de música e tecnologia, o que, infelizmente, acabou não ocorrendo”, disse.

A iniciativa, no entanto, gerou um projeto de sonologia que envolve os departamentos de Música e de Matemática da USP, o Departamento de Música e o Laboratório de Vibroacústica da Unicamp e os departamentos de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal da Paraíba e Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.

Patentes acústicas

“No espaço estrito do temático, um dos principais resultados foi uma patente do professor José Augusto Mannis [da Unicamp], que desenvolveu um sistema de adequação acústica para ambientes de performance musical. O primeiro protótipo dessa patente foi a sala do laboratório em que instalamos o projeto”, disse Mello.

A prática de adequação acústica, segundo ele, tem sido bastante desenvolvida com foco no conforto acústico, mas, no caso do sistema de Mannis, o foco foi bem diferente: difusão e performance musical. A adequação dessa sala acabou gerando outros projetos. Atualmente Mannis trabalha no projeto de adequação do Museu da Imagem e do Som (MIS), em São Paulo, em parceria com uma equipe de arquitetura.

“No campo da criação musical também tivemos bons resultados: concertos, palestras, workshops, participação em encontros internacionais e nacionais, como o Festival de Música Nova e a Bienal Brasileira de Música Contemporânea”, disse Sílvio Ferraz. Outro resultado do projeto foi gerar o Grupo de Criação Musical, associado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Junto às atividades composicionais, o projeto resultou também em diversos concertos com o uso de computador enquanto instrumento musical. “Atualmente temos, na Unicamp, um grupo bem grande de estudantes que utiliza o computador como ferramenta de análise musical, criação musical e performance, com softwares de última geração”, disse.

As modalidades musicais são muito variadas: desde instalações sonoras desenvolvidas por Mannis, que também é compositor, até a composição escrita erudita com cálculos, feitas no computador, pelo grupo de Ferraz e pelo professor Jônatas Manzolli, que também coordena o Núcleo Interdisciplinar de Comunicação Sonora na Unicamp.

 “O resultado composicional é muito grande e continua se expandindo. Há trabalhos de estudantes ligados a uma estética mais recente, além da produção de diversas teses e publicações”, afirmou Ferraz.

Atualmente, o grupo reunido em torno do projeto recém-concluído está trabalhando em uma tentativa de desdobramento desses estudos. A proposta, segundo o pesquisador, tende a se transformar em outro projeto, com o objetivo de tentar associar o computador ao estudo de técnicas instrumentais.

 “Queremos utilizar a máquina para ampliar algumas técnicas utilizadas em instrumentos como violino, clarinete e flauta, sempre com o propósito composicional experimental. Mesmo que acabemos fazendo instalações sonoras, com um efeito mais próximo da música popular, o propósito é um resultado experimental”, destacou.

Um exemplo desse tipo de proposta experimental, segundo Ferraz, é um trabalho apresentado por ele diversas vezes, envolvendo piano, computador e um poeta lendo seus poemas.

 “A voz e o piano são transformados e interagem ampliando as possibilidades sonoras dos instrumentos, fazendo-os dialogar, a partir da análise de suas inflexões, com a voz humana ou com sons eletrônicos”, disse.

Fonte: Agência Fapesp