Notícia

O Popular (Goiânia, GO)

Síndrome da abstinência

Publicado em 28 maio 2000

Por Patrícia Ribeiro
Irritabilidade, insônia, aumento de peso, ansiedade e cansaço. São muitos os sintomas da síndrome de abstinência que acometem aqueles que querem abandonar o cigarro. A maioria tem várias recaídas até conseguir deixar o vício definitivamente. Para as mulheres, essa tarefa é ainda mais complicada. Segundo estudo da Universidade, de Minnesota, nos Estados Unidos, deixar de fumar é mais difícil para as elas. Pela pesquisa, 48% das fumantes não se imaginam sem o cigarro, enquanto 35% dos homens fumantes têm a mesma sensação. "Algumas pessoas não conseguem ficar sem fumar numa festa, outras fumam quando estão tensas, mas é possível enfrentar uma situação dessa sem padece" explica o psiquiatra Montezuma Pimenta Ferreira, coordenador do ambulatório de Tabagismo ' do Hospital das Clínicas. Lá, é feito um trabalho de apoio psicológico ao fumante e são medicados remédios' para diminuir os sintomas da abstinência. De acordo com ele, o primeiro mês é o mais difícil, depois os sintomas vão se atenuando. "Eu resolvi parar de fumar porque tive medo de morrer e não criar os meus filhos", revela a pesquisadora Joseli Capusso, de 38 anos. Fumante há 23 anos, ela parou há 8 meses, depois que começou a sofrer de insônia e ter falta de ar. "No começo, não sabia o que fazer com as mãos que estavam acostumadas a ficar segurando o cigarro e ficava contando as bolinhas da minha pulseira até arrebentar", conta. Para a pesquisadora, o fumo era uma válvula de escape. Ela conta que conseguiu se livrar do vício sem ajuda médica, só com força de vontade. Para a manicure Maria Favaro, de 45 anos fumante desde os 15, qualquer coisa era motivo para acender um cigarro. Nas horas de prazer, quando ficava nervosa, depois do café ou para enganar a fome. A média de cigarros era de 30 por dia. A iniciativa de parar de fumar só veio depois que seu médico detectou um edema nas suas cordas vocais. Preocupada, ela foi procurar ajuda profissional. Sem fumar há sete semanas, ela freqüenta a Liga de Apoio ao Abandono do Cigarro da Santa Casa de São Paulo. "Mudei minha rotina, diminuí a quantidade de café e já estou me sentindo bem melhor", conta. Mesmo com hipertensão, a assessora de direção Leda Lúcia Favalle não pensa em deixar cigarro de vez. Ela prefere diminuir a quantidade. De acordo com a coordenadora de programas de controle de tabagismo do Inça, Luíza Goldfarb, o risco de um fumante leve (até nove cigarros por dia ) de contrair câncer é seis vezes maior que um não fumante. Se a dose for de um maço por dia, o risco passa a ser 22 vezes maior. FUMANTE TEVE DOIS INFARTOS Dois infartos e um câncer de pulmão. Estes foram os resultados conquistados pela professora Ana Maria Durante Ferrano, de 47 anos, fumante desde os 15. Ao todo, ela fumou 477-200 cigarros em 32 anos de vício. O primeiro infarto aconteceu depois de um mês em que tinha parado de fumar. Ana Maria conseguiu se livrar do vício depois do primeiro infarto, mas já era tarde. Um ano depois, ela descobriu que estava com câncer de pulmão. A revelação foi um choque. Quando soube, foi como se o mundo desabasse sobre a minha cabeça." Moradora de Poços de Caldas, em Minas Gerais, Ana Maria teve que chegar à São Paulo para começar o tratamento. A via-crucis incluía o tratamento com quimioterapia no Instituto Arnaldo Vieira de Carvalho, durante cinco meses. Hoje, ela está praticamente curada. "Tem de ter muita fé, apoio da família e amigos. E como se eu tivesse renascido." Apesar de tantos números negativos, os estudos para achar a cura do câncer estão cada vez mais avançados. Um deles é o projeto Genoma Humano do Câncer, desenvolvido pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) em parceria com o Instituto Ludwig. Funcionando desde março do ano passado, o instituto identifica e transcreve seqüências do código genético dos tumores ainda no seu estágio inicial. Depois, o centro faz uma triagem das seqüências e envia para o Genbank, um banco de genes internacional. OS NÚMEROS DA DOENÇA - A taxa de mortes por câncer de pulmão analisadas no período de 1980 e 1997 subiu de 2,57/100 mil mulheres para 4,74/100 mil, isto é, subiu 84,43%. - A estimativa para 2000 é que em cada 100 mil mulheres, sete, em média, vão morrer da doença. - Existem mais de 200 milhões mulheres fumantes no mundo. - A estimativa de mortes por tabagismo para o ano de 2.020 é o dobro do atual: 1 milhão de mortes por causa do cigarro - No Brasil, a taxa de grávidas tabagistas é de 36%. - O tabagismo na gravidez aumenta o batimento cardíaco do feto, risco de sangramento, descolamento da placenta, ruptura precoce da bolsa amniótica, probabilidade de aborto espontâneo em 70%, de prematuridade do parto em 40% e de morte após o parto em 30%. - Cigarro é a segunda droga mais consumida entre os adolescentes. Fonte: Instituto Nacional do Câncer