Notícia

Gazeta Mercantil

Sinal Aberto - O custo do avanço

Publicado em 22 fevereiro 1998

Por Gabriel Priolli
A TV Gazeta de São Paulo, a menor das emissoras abertas da metrópole paulista, anunciou recentemente um experimento importante. Afiliada à rede CNT, da qual se apartará em 2000, no final do contrato que a prende aos paranaenses, ela já se prepara para retomar o vôo solo, retornando à condição de canal estritamente local, que manteve por décadas. E, para lograr um sonhado enraizamento com as aspirações da massa telespectadora paulistana, consolidando-se como "a emissora da cidade", a Gazeta acaba de criar um "Laboratório da TV do Futuro", que terá a missão de testar fórmulas e opções de programação, até o dia em que o divórcio da CNT se consumar. O laboratório da Gazeta está sob o comando do diretor de jornalismo da casa, Marco Antônio Coelho. Ele selecionou uma equipe de 15 profissionais, que serão afastados da lide diária para cuidar estritamente da programação do futuro. São repórteres, editores, câmeras, produtores, roteiristas e técnicos, todos eles empenhados em estudar os gêneros de programas mais adequados ao perfil da emissora, analisar os custos de sua implantação e gerenciamento, examinar faixas horárias para a sua melhor adequação e rentabilidade, e testá-los com públicos-piloto. Além disso, vão experimentar idéias e formatos inéditos, considerando os projetos inovadores que usualmente são apresentados às emissoras de TV por artistas ou produtores independentes, e que são, em geral, descartados, menos por impropriedade do que por falta de tempo para apreciá-los adequadamente. No final do processo, a expectativa é de que a Gazela lance com segurança a sua nova programação, confiante em seu êxito, abstendo-se de testar programas no ar, o que é tão comum no errático vaivém da TV comercial. É claro que, em se tratando de uma emissora pequena, sempre espremida entre os altos custos de produção e a modesta receita publicitária, nada garante que o laboratório da Gazeta leve a sua missão a termo com êxito. A qualquer momento, seus profissionais poderão ser requisitados para a TV do presente, reforçando as equipes do dia-a-dia na cobertura de uma eleição, uma enchente, um pacote econômico, um desastre. A qualquer momento, igualmente, podem faltar os recursos necessários para financiar dois anos de estudos e testes. Mas o que realmente importa, pelo ineditismo e o alcance, é a decisão da Gazeta de pesquisar e testar uma nova programação, antes de lançá-la ao ar. É uma medida que se torna ainda mais significativa quando se considera, precisamente, o pequeno porte da estação que a adota e os sacrifícios que terá de fazer para suportá-la. Entre todos os ramos da indústria, a televisão é daqueles que menos investem em pesquisa e desenvolvimento. Enquanto laboratórios farmacêuticos, indústrias químicas, tecelagens e mesmo empresas da área eletroeletrônica investem pesadamente, em centros de pesquisa, buscando o aprimoramento tecnológico de produtos e processos, a TV ignora o que seja isso. Só se permite testar alguma coisa quando o programa já está na linha de montagem, com posição definida na grade e data de estréia marcada. Faz alguns "pilotos" - quando não um único - para ajustar cenografia, iluminação, enquadramentos, movimentação em cena e outros detalhes de mecânica, submetendo-os exclusivamente à crítica interna. Só em raríssimos casos são exibidos a grupos de telespectadores, para os pré-testes tão comuns na'publicidade ou no marketing político. Resulta daí que os produtos vão ao ar adequados apenas ao que os produtores consideram eficiente e não ao julgamento efetivo do público, que é quem, em última instância, decide sobre a sua eficácia. Podem dar certo, podem não dar, e no entra-e-sai que isso implica milhões de reais escorrem pelo ralo do desperdício. As televisões acostumaram-se a um esquema cômodo, em que as novidades são testadas sempre na razão inversa de seu poder econômico. As grandes, líderes de audiência, têm por natureza menor mobilidade na programação, em razão do sucesso que obtém e dos grandes compromissos comerciais que assumem, precisamente por conta desse sucesso. Pouco têm a mudar, na verdade, e o que precisam renovar é feito com enorme cautela, porque os prejuízos podem ser gigantescos. As pequenas, ao contrário, têm uma dramática necessidade de encontrar a fórmula salvadora, o toque de Midas que venha a catapultá-las para o maravilhoso mundo das verbas vultosas. Daí que são sempre, historicamente, mais permeáveis às novas propostas, dispondo-se a experimentá-las porque têm muito menos a perder. E costumeiro então, que as grandes observem o que ocorre nas pequenas, identificando novos talentos, novos conceitos, novos formatos de programas, e cooptando-os ou adotando-os na hora oportuna, sem o custo e o risco da experimentação. Foi o que aconteceu, por exemplo, no caso já clássico do programa "Casseta & Planeta", sucesso da Rede Globo. Já no início dos anos 80, era claro que a turma de jovens humoristas cariocas reunida em torno dos jornais satíricos "Planeta Diário" e "Casseta Popular" iria explodir nacionalmente, numa área que demonstrava extrema carência de inovação. Os jornais arrebentavam na venda avulsa, ampliavam seguidamente as tiragens e tudo indicava que o seu caminho natural de expansão seria a TV. Mas não foi pela porta da Globo ou do SBT que os rapazes adentraram um estúdio pela primeira vez. Foi na instável Bandeirantes que encontraram receptividade para o seu produto de estréia, um certo "Wandergleison Show". Nas poucas edições que teve, foram esboçados a linha de humor e a maioria dos quadros que se vê hoje no "Casseta & Planeta" global. Mas precisou que a Bandeirantes investisse os seus magros recursos no novo programa para que a Globo concluísse que ele valia a pena. Foi lá, cacifou e levou, a preço de banana, um sucesso certo. Se as estações pequenas se constituem no "Centro de Pesquisa e Desenvolvimento" das grandes, a produção independente rivaliza com elas, cada vez mais, nesse mister. Grandemente estimuladas pela expansão do mercado de TV, que apresenta novas perspectivas com o avanço dos canais pagos, as produtoras abriram, nos anos 90, um espaço que lhes era vedado até então. Os canais abertos, que possuem grandes estruturas de produção, não tinham interesse em se abastecer no mercado independente, porque podiam fazer mais barato os produtos que lhes eram oferecidos. Já os canais pagos, que não têm a mesma estrutura, são compradores por definição. Isso permitiu o acesso de inúmeras produtoras à telinha, com produtos inovadores que elas mesmas se encarregam de formular e testar. Assim, convertem-se igualmente em CPDs da indústria televisiva, assumindo o ônus da pesquisa e do desenvolvimento tecnológico que beneficia, no fim da linha, os gigantes do mercado. Transferir o ônus a terceiros, quando possível, e desfrutar exclusivamente dos bônus, é um princípio básico da lógica empresarial. Não há que esperar da televisão comercial nenhuma indulgência quanto a isso. Mas a indústria televisiva brasileira, já tão poderosa e expressiva no conjunto dos negócios do país, poderia investir mais, coletivamente, em sua própria expansão. Poderia financiar, em conjunto, centros de pesquisa, no âmbito universitário ou fora dele, para o estudo de novos processos, novas técnicas, novos equipamentos e, igualmente, do impacto político, econômico, social, psicológico e moral de sua atividade, tão estratégica ao país e, ao mesmo tempo, tantas vezes questionada. Isso ocorre nos Estados Unidos'e na Europa, onde a cupidez empresarial não é maior que o senso de responsabilidade e não cega as televisões para os benefícios, privados; e públicos, de manter centros de estudos avançados. Cá no Brasil, entretanto, ficamos apenas, por ora, no exemplo da humilde Gazetinha, com a sua louvável disposição de fazer televisão com um mínimo de embasamento técnico e teórico. É pouco, mas é tudo que temos.