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USP - Universidade de São Paulo

Simpósio na FCF debate doenças negligenciadas

Publicado em 19 novembro 2015

Por Valéria Dias

Chagas, malária, dengue, leishmanioses, tuberculose. Mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo são afetadas por essas e outras doenças negligenciadas, sendo que, apenas no Brasil, a estimativa é de 144 milhões de doentes.

Na próxima semana, entre os dias 23 a 25 de novembro, representantes da indústria farmacêutica, universidades nacionais e internacionais e laboratórios oficiais, estarão reunidos na Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP para o quarto Simpósio de Planejamento e Desenvolvimento de Fármacos para Doenças Negligenciadas.

Já entre os dias 25 e 27, haverá o 120º Encontro Nacional de Professores de Química Farmacêutica, evento complementar ao simpósio e que vai abordar metodologias inovadoras na pesquisa de moléculas com potencial para se tornarem, no futuro, novos medicamentos.

“Chamamos de doenças negligenciadas pois a indústria farmacêutica precisa investir mais de 1 bilhão de dólares para produzir um novo medicamento e, nas populações atingidas, geralmente os fármacos são doados pelo governo, mas a maioria desses países ou não são bons pagadores ou não têm dinheiro para bancar o investimento”, explica a coordenadora geral do evento, a professora Elizabeth Igne Ferreira, FCF.

Para a professora Elizabeth, o principal problema é a ausência de força política dessas populações. “Elas convivem com pobreza, conflitos e violações de direitos humanos. Já a hipertensão ou o HIV atingem pessoas de todas as classes sociais”, compara.

Tríplice hélice

Entretanto, esse quadro tem mudado. Segundo a docente, cada vez mais as indústrias farmacêuticas investem em pesquisas no setor. “É a chamada tríplice hélice, como descreveu a pesquisadora Nubia Boechat, da FioCruz: muitas multinacionais já estão se unindo com universidades, instituições oficiais e organismos como o Drugs for Neglected Diseases initiative [DNDI], uma rede internacional que realiza pesquisas sobre o tema, na busca por alternativas farmacológicas. “É a open inovation: as indústrias estão se abrindo para as universidades, em busca de inovação”, diz. Um dos objetivos do encontro é exatamente reunir esses diversos atores em busca de soluções efetivas envolvendo essas doenças.

Entre os laboratórios oficiais que irão fazer apresentações no simpósio estão a FioCruz, o Adolpho Lutz, e o Lafepe (Laboratório Farmacêutico de Pernambuco, responsável pela produção do benznidazol, medicamento para doença de Chagas utilizado no Brasil), entre outros.

A palestra de abertura será do pesquisador Alain Fairlamb, do Drug Discovery Unit , ligado à Universidade de Dundee, na Escócia, um centro de pesquisas que é um exemplo de como integrar forças entre a academia, as instituições de pesquisa e a indústria com o objetivo de chegar às soluções medicamentosas. Além do DNDI, haverá também pesquisadores da Medicines for Malaria Venture (MMV), consórcio formado por várias instituições internacionais do setor. Da indústria farmacêutica, participa a representante  da GSK, da Espanha.

Entre as universidades, haverá a presença de pesquisadores da USP, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), além de representante da Universidade da Califórnia em San Diego, e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp).

Vale da morte

Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), existem atualmente em todo o mundo 17 doenças negligenciadas. O Brasil é atingido por nove delas: leishmanioses, Chagas, malária, tuberculose, filariose (elefantíase), esquistossomose, dengue, hanseníase, entre outras. A maior incidência está localizada nos estados no norte e nordeste. “No Sul e Sudeste a incidência é menor, entretanto é onde mais se concentram as pesquisas pois há maior investimento”, comenta a pesquisadora. Esse quadro de incidência reflete o que ocorre no mundo: os casos estão concentrados em países mais pobres como os da região central do continente africano, na China e na Índia.

A professora Elizabeth lembra que, devido às migrações, muitos países desenvolvidos já apresentam casos de doenças negligenciadas. Canadá, sul dos Estados Unidos, alguns países da Europa, e também, alguns da região do Pacífico Ocidental apresentam alguns casos.

Outro problema é que um novo medicamento pode demorar de 10 a 15 anos para chegar ao mercado. De 1975 a 2004, foram desenvolvidos 1535 medicamentos para outras doenças e apenas 18 são para doenças tropicais (3 para tuberculose). Já de 2000 a 2011, surgiram 756 novos medicamentos, sendo 29 para doenças negligenciadas e apenas 4 para tuberculose ou malária. “Estimativas apontam que, de 10 mil moléculas com potencial, apenas uma vai dar origem a um novo fármaco, pois ao longo dos ensaios pré-clinicos, muitas delas apresentam alta toxicidade ou baixa absorção e são descartadas. É o que chamamos de “vale da morte” “, informa.

Nobel

Entretanto, há um ponto bastante positivo: o último Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina contemplou cientistas envolvidos em pesquisas ligadas às doenças negligenciadas: a chinesa Tu Youyou, da Academia Chinesa de Medicina Tropical, realizou estudos com a artemisinina, um dos fármacos mais modernos contra a malária. E os pesquisadores William C. Campbell, da Drew University in Madison, nos Estados Unidos, e Satoshi Omura, da Kitasato University, no Japão, pesquisaram a avermectina, fármaco que apresentou bons resultados para tratar a elefantíase e a oncocercose (cegueira do rio).

As palestras ocorrerão no auditório “Profa. Maria Aparecida Pourchet Campos” (Auditório Verde) da Faculdade de Ciências Farmacêutica, na Av. Prof. Lineu Prestes, 580 – Bloco 13A, piso superior, Cidade Universitária, São Paulo.

A programação completa está disponível nos sites: http://event-ndmc.wix.com/simpdn e http://event-ndmc.wix.com/enpqf.

Agência USP de Notícias

Mais informações: email hajudan@usp.br