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Revista DBO

Silagem de soja pode ser boa opção como alimento

Publicado em 01 julho 2008

Sozinha ou em mistura com capim-elefante, leguminosa é bem aceira pelos animais

Mesmo ainda sem todos os dados computados, uma pesquisa sobre as possibilidades da silagem de soja na nutrição de ovinos para abate precoce está animando a pesquisadora do Instituto de Zootecnia (IZ), de Nova Odessa, SP, Josiane Aparecida de Lima. O tema sempre atraiu a especialista, que o escolheu, por sinal, para sua tese de mestrado na Universidade Federal de Lavras, MG. Na ocasião, Josiane pesquisou a silagem mista de capim-elefante e soja, com e sem a adição de farelo de trigo (com o objetivo de elevar o teor de matéria seca da forragem e proporcionar fermentação adequada). Estudou também a mesma silagem sem a adição de farelo de trigo, e a de soja pura. Em todos os tipos de volumoso, encontrou “valores satisfatórios” para pH, ácido lático e teor de matéria seca, além de redução nos teores de fibra à medida que se aumentava a participação da soja junto ao capim. Quanto maior essa participação, diz Josiane, melhores foram os resultados para consumo e: digestibilidade das silagens. Outra constatação: os valores mais elevados foram observados para a silagem de soja, pura ou com adição de farelo de trigo. Conclusão de Josiane: associada a uma gramínea ou pura, a silagem de soja se mostra de “excelente aceitabilidade” pelos ruminantes.

RESULTADOS - Na pesquisa de agora, financiada pela Fapesp (Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo), a pesquisadora do IZ busca ob ter resultados mais consistentes quanto à resposta de ovinos em termos de aceitabilidade e digestibilidade da silagem de soja, bem corno de ganho de peso nos animais. Para isso, durante 60 dias, avaliou o desempenho de ovinos da raça Santa Inês, criados para abate precoce, alimentados com dietas contendo a silagem da leguminosa.

No estudo, os animais foram divididos em quatro grupos, todos com peso inicial semelhante (próximo de 16 kg). Cada grupo recebeu um tipo de dieta: o primeiro teve 40% de silagem de soja e 60% de silagem de milho; no segundo, os percentuais foram invertidos, predominando a soja; o terceiro recebeu silagem de soja pura, e o quarto grupo, além da silagem de milho, teve uma suplementação de concentrado protéico (relação de volumoso: concentrado de 70:30, com base na matéria seca). Os grupos alimentados com a silagem de soja pura ou associada à silagem de milho não tiveram qualquer suplementação.

Em todos os grupos, Josiane considerou haver obtido “resultados bastante satisfatórios”. Os ganhos diários de peso para o alimentado com a silagem de soja pura foram de 210 g/animal/dia; e para os animais alimentados com silagem de milho suplementada com concentrado protéico, de 214 g/animal/dia. O grupo de animais que recebeu a dieta contendo 60% de silagem de soja-40% de silagem de milho teve ganho médio diário de 202 g.

Josiane Lima informa que, pelo fato de o trabalho ainda não estar finalizado, não dispõe de dados sobre o custo das dietas nem das quantidades consumidas, mas pode adiantar que a silagem de soja pura apresentou 21% de proteína bruta. E acentua que não houve gasto com concentrado protéico nas dietas contendo silagem de soja, fosse pura ou associada à silagem de milho, o que a leva a afirmar que “a utilização da silagem de soja na alimentação de ovinos constitui estratégia para reduzir os gastos com a aquisição de concentra dos”.

Boas dicas

Para a produção de silagem, Josiane informa que o estádio ideal de colheita é quando a soja está começando a for mar os grãos, ou seja, no início do enchimento das vagens, no chamado estádio E Nessa fase, há boa produção de forragem e de proteína bruta por hectare, o que resulta em volume de forragem com bom valor nutritivo. Uma lavoura bem conduzida, com todos os cuidados técnicos necessários, produz cerca de 30 toneladas de massa verde por hectare.

Quanto a um possível antagonismo entre a produção de soja para grão (hoje com preços elevados) e sua ensilagein, ressalta a especialista do IZ que, obviamente, está falando para o pecuarista que — tendo essa atividade como exploração exclusiva, portanto não sendo também um agricultor habitual — não possui colhedora de grãos e, assim, não pen sa em comercializá-los, mas só produzir uma silagem com excelente valor nutritivo e elevado teor protéico. E acentua que “é lógico que todo empreendimento agropecuário e todas as etapas do sistema produtivo devem ter seus custos e benefícios colocados na ponta do lápis”. Por isso, ao admitir a possibilidade de ser mais viável para uma propriedade comercializar os grãos e para outra produzir silagem, também enfatiza que, de pendendo da categoria animal e da produção esperada, o criador ficará livre de gastos com concentrados protéicos. “Além do mais, insiste, é importante ao pecuarista considerar ser possível fazer rotação de culturas para produção de silagem, por exemplo, milho-soja ou sorgo-soja, o que é muito benéfico para o solo e contribui para controle de pragas e doenças”.

Diz ainda Josiane que, para oferecer aos animais uma silagem mis ta (milho+soja ou sorgo+soja), essas forrageiras não necessariamente precisam ser cultivadas em áreas separadas. Informa ela que há pesquisas cujos resultados evidenciam várias possibilidades de consórcio, com diversos arranjos culturais, tais como plantio em faixas, plantio em linhas. alternadas, quatro linhas de gramínea e duas linhas de soja etc. Daí sugerir que o interessado consulte um agrônomo de sua região, para verificar o sistema mais indicado para o seu caso.

Dificuldades maiores não haverá, segundo a pesquisadora, pois o cultivo da soja no Brasil está dominado, e é grande o número de informações tecnológicas disponíveis relativas à fertilização, correção do solo e produtos e técnicas necessários para o controle de pragas e doenças. Segundo Josiane, uma lavoura de soja para produção de silagem deve obedecer aos mesmos princípios requeridos para a produção de grãos; o que muda é a época de que, para ensilagem, é quando está começando a ocorrer o enchimento das vagens. Ela acrescenta que, normalmente, as empresas comercializadoras de sementes de soja costumam fornecer todas as in formações necessárias para o cultivo da espécie, bem como orientam sobre cultivares adaptadas a cada região, ciclo de produção etc. E conclui que, “observados todos os cuidados com a condução da lavoura de soja e época de colheita, os demais procedimentos são os mesmos indicados para produção de silagem de boa qualidade, ou seja, fracionamento da forragem em partículas de 1 a 2 cm, enchimento contínuo do silo, campactação e vedação bem-feitas: não existe nenhum segredo especial para produzir silagem de soja de boa qualidade”.