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Setor sucroenergético precisa de “respirador” para sobreviver à crise provocada pelo coronavírus

Publicado em 16 abril 2020

União, ações governamentais e apoio à pesquisa tecnológica, são alternativas para salvar o setor da crise do coronavírus

"Vivemos a pior crise do setor da bioenergia?". Este foi o tema do Webinar realizado pela União Nacional da Bioenergia (UDOP) na última terça-feira (14) e que reuniu: Jacyr da Costa Filho, Presidente do Cosag - Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e Membro do Comitê Executivo do Grupo Tereos; Pedro Robério de Melo Nogueira, Presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool no Estado de Alagoas (Sidaçúcar-AL); Luiz Augusto Horta Nogueira, Coordenador do BIOEN - Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia, e Luiz Carlos Corrêa Carvalho - Caio, Diretor da Canaplan e Conselheiro da UDOP e da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica).

Na abertura do webinar, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, que foi mediador do painel, falou que o setor vive hoje a chamada "tempestade perfeita". Caio ressaltou que as perspectivas neste início de ano eram de um ciclo virtuoso de crescimento para o setor, com a entrada em vigor, efetivo, do RenovaBio, além de boas perspectivas mundiais, mas que, de uma para outra, o mundo virou de cabeça pra baixo.

Inicialmente, o cenário começou a mudar com a queda abrupta do preço do petróleo, em decorrência da disputa entre Arábia Saudita e Rússia. Depois veio a queda de consumo em decorrência do isolamento como medida de contenção a propagação do Coronavírus. “O sucroenergético está entre os setores que mais sofrem os efeitos dessa pandemia", destacou Caio.

Para Jacyr da Costa Filho o que difere o atual momento de outros colapsos que atingiram o setor da bioenergia no passado, é que esta crise atinge a praticamente todos os segmentos. Por conta disso, acredita que a solução virá de um âmbito global.

Luiz Augusto Horta Nogueira também acredita que esta é uma crise de dimensões inusitadas. "Uma pancada tremenda na economia, nas nossas expectativas que eram boas. O setor [da bioenergia] estava num momento muito bom. Mas são realidades e situações que não dá para escapar".

Pedro Robério de Melo Nogueira destacou o tamanho da crise, quando comparada a outras vivenciadas pelo setor da bioenergia. "Essa crise é maior quantitativamente, mas não necessariamente é maior qualitativamente. As crises que nós vivemos em maior ou menor intensidade no setor elas eram confinadas a um problema do próprio setor. A safra 2020/21 tinha tudo para ser a melhor das últimas décadas, seja em produção, produtividade ou preço. Além disso, a Política Nacional de Biocombustíveis (RenovaBio) daria uma previsibilidade jamais vista ao setor de etanol.”

O Coronavírus (Covid-19) chegou e jogou por terra todas as expectativas. Com o isolamento social da população, a demanda de etanol combustível registrou forte retração. Já no mercado internacional, desentendimento entre Arábia Saudita e Rússia, grandes produtores de petróleo, levou à queda no preço do petróleo, que chegou a ser comercializado a US$ 20 dólares o barril.

O QUE FAZER PARA O SETOR SOBREVIVER A PANDEMIA DO CORONAVÍRUS

Na visão de Pedro Robério, o golpe está sendo muito duro para o setor sucroenergético. O Presidente do Sindaçúcar-AL disse que o setor necessita de um “respirador” para sobreviver, fazendo uma alusão ao aparelho tão necessário para o atendimento às vítimas do Coronavírus.

O coordenador do Programa FAPESP de Pesquisa em Bioenergia (BIOEN), Luiz Augusto Horta Nogueira, observou que, para chegar novamente àquele cenário positivo e estimulante que o setor estava vivendo, serão necessárias diversas ações a curto prazo, como isenção de PIS e Cofins, aumento de 10% na Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) exclusivamente na gasolina, linha de crédito para início da safra e estocagem de etanol e de financiamento a produtores de cana, além de aumento na mistura de anidro na gasolina.

Luiz Carlos Corrêa Carvalho contou que a pandemia do Coronavírus promoveu a união do setor. “Industriais do Centro-Sul, do Nordeste, produtores de cana do Centro-Sul, e do Nordeste, as indústrias de base e sindicatos dos trabalhadores do setor, se uniram e redigiram um documento que foi entregue ao governo federal, expondo a importância do setor, as dificuldades que está enfrentando e apresentou alternativas para reduzir os impactos da crise. O setor unido é forte. E, isso, nos dá esperança que tenha suas reivindicações atendidas, disse Caio.

Entre as sugestões urgentes estão: elaboração de um programa de warrantagem para permitir o financiamento de, no mínimo, 6 bilhões de litros de etanol anidro e ou hidratado; redução temporário de carga tributária federal aplicada ao etanol hidratado – Pis/Cofins sobre biocombustível totaliza cerca de R$ 0,24/litro; aumento da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (CIDE) sobre a gasolina em R$ 0,40 por litro do derivado na refinaria.

No entanto, Horta ressalta que algumas iniciativas a longo prazo também devem ser implantadas, principalmente no que tange a valorização do desenvolvimento tecnológico. “Foi a pesquisa que garantiu os ganhos de produtividade registrados ao longo dos últimos anos. Por conta disso, não podemos ter retração nos financiamentos e concessão de bolsas. Instituições como a Embrapa devem ser mantidas. Sem esse conhecimento aplicado em pesquisa de qualidade não haverá uma continuidade de sucesso do setor.”