Notícia

Jornal da Tarde

SETOR PÚBLICO LIDERA PESQUISA

Publicado em 15 setembro 1996

O campo de pesquisa é fundamental para o desenvolvimento e atualização dos cursos de uma universidade. O mesmo vale para a pós-graduação de seu corpo docente. Mas enquanto essas práticas são preceitos básicos nas melhores escolas do mundo, o Brasil, salvo algumas exceções, ainda caminha vagarosa e timidamente nesta direção. As dificuldades incluem, além do desinteresse, a falta de verba e de orientação qualificada. Ainda assim, as universidades públicas detêm um índice maior de professores com mestrado e doutorado. São também as que mais incentivam e as que "podem" pagar a permanência em tempo integral do professor na escola. Por outro lado, nas instituições particulares, os contratos obedecem à hora gasta em sala de aula e a extensão desse período afetaria "diretamente" o valor das mensalidades. Segundo os últimos dados do MEC (Ministério da Educação), o número de professores com mestrado ou doutorado é muito maior no ensino superior público. Enquanto cerca de 30% do corpo docente desse sistema tem doutorado, no ensino privado esse número cai para 6,8%. Outro exemplo significativo da não-participação das universidades particulares no campo da pesquisa diz respeito ao número de projetos aprovados na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). A diferença de auxílios à pesquisa concedidos às universidades públicas e particulares é gritante. Enquanto R$ 34,9 milhões foram divididos entre o desenvolvimento de pesquisas na USP, Unicamp e Unesp em 95, as entidades particulares receberam juntas, no mesmo período, apenas R$ 600 mil. "No momento não existe nenhuma demanda qualificada que seja reprimida. Não fazemos distinção ou prévio direcionamento de verba. O sistema de pesquisa eleve ser ampliado e isso inclui nosso interesse em desenvolver a pesquisa dentro da universidade privada", garante o diretor científico da Fundação, professor José Fernando Perez. A Fapesp recebe 1% da receita tributária do Estado, o que em 95 correspondeu a R$ 140 milhões e uma projeção de R$ 170 milhões para este ano. Mas Perez conta que no ano passado a Fundação utilizou seu fundo de reservas e gastou cerca de R$ 230 milhões, o que possibilitou a criação de cinco novos programas. "Este ano devemos repetir o investimento anterior. A demanda cresceu cerca de 82% de 95 para 96", comemora. Apenas em auxílios à pesquisa o número de concessões subiu de 1.080 (até 30 de junho de 95) para 1.413, no mesmo período desse ano. O número de bolsas concedidas teve um aumento ainda maior, subiu cerca de 70% em um ano. Perez alerta para o direcionamento dessa verba (bolsas): "Enquanto 91,8% do total é destinado para o sistema estadual e federal, as instituições particulares só alcançaram um índice de 2,3%." Contradizendo essas estatísticas, a FGV/SP mantém um corpo docente que tem 100% dos professores com mestrado e 62% com doutorado. "Isso é muito importante para a Escola, procuramos incentivar a pesquisa e os cursos de extensão ao máximo", diz o diretor Alain Florent Stempfer. Essa também é a principal preocupação do ex-reitor da USP, Roberto Lobo, que aponta como principal diferença entre a universidade estadual e a particular de Mogi das Cruzes, a falta do campo de pesquisa e especialização dos professores. "Assim que for possível, tentaremos viabilizar essa área", diz. "O problema é o orçamento da universidade." (B.S.A.)