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GVces - Centro de Estudos em Sustentabilidade

Setor privado pode dar novo ritmo às pesquisas

Publicado em 19 agosto 2009

Por Edson Pinto de Almeida

O setor privado brasileiro precisa triplicar os investimentos em inovação nos próximos cinco anos. Essa meta, definida pelos próprios empresários no âmbito de suas entidades representativas, começa a ser perseguida com mais vigor tendo em vista a perspectiva de retomada do crescimento econômico e do novo cenário de competição que se desenha após a superação da crise internacional.

Os números mostram que o Brasil deve acelerar o passo se quiser recuperar o atraso provocado por décadas de instabilidade econômica e reserva de mercado - principais inibidores da inovação. Embora participe com 2% do PIB mundial, o país é responsável por apenas 0,2% de patentes registradas.

Uma das principais mudanças na forma pela qual a inovação passou a ser tratada dentro da agenda da política industrial do país é o direcionamento do foco para uma ação mais efetiva das empresas. A busca por consolidar esse protagonismo é um dos objetivos do 3º Congresso Brasileiro de Inovação na Indústria, que será realizado hoje, em São Paulo, pela Confederação Nacional da Indústria (CNI).

"A ideia de que as universidades são responsáveis por criar inovação fez mal para a política industrial brasileira. Quem cria inovação são as empresas", diz Carlos Henrique Brito Cruz, diretor Científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Para ele, o papel das universidades é formar pessoas e manter contato com a fronteira do conhecimento, reduzindo distâncias entre inovação e criação. O papel da empresa é o de estar em contato com o mercado de onde surge a inovação. A Fapesp investiu R$ 638 milhões em pesquisa no ano passado. Desse total, 35% foram destinados ao pagamento de bolsas em diversas modalidades.

A participação mais expressiva do setor privado nos investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento está prevista também no plano de ação conjunta do governo, capitaneado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia. A meta para 2010 é aumentar para 1,5% do PIB o investimento total, elevando a participação das empresas de 0,5% para 0,65%. Hoje, há uma divisão igual entre governo e setor privado na parcela de 1% do PIB que é destinada à ciência e tecnologia. Nos Estados Unidos, a proporção dos recursos privados chega a 70%, segundo a Associação Nacional de P&D das Empresas Inovadoras (Anpei).

A expectativa do presidente da CNI, Armando Monteiro Neto, é de que seja possível criar uma mobilização semelhante à que ocorreu nos anos 1990 com os programas de qualidade. Para ele, são históricas as razões que justificam a baixa capacidade de inovar das empresas brasileiras. "A universidade, que concentra os maiores esforços de pesquisa, nasceu do setor público, ao contrário de outros países onde a pesquisa teve origem nas empresas ou foi impulsionada pela sobra da riqueza privada, como é o caso das fundações nos Estados Unidos", diz.

Além da pouca ligação entre o ambiente acadêmico e empresarial, Monteiro Neto também observa que o empresário brasileiro enfrenta os desafios de uma "velha agenda ainda não resolvida", na qual ele inclui o alto custo do capital, distorções do sistema tributário e falta de infraestrutura. Com a mudança para um quadro de equilíbrio macroeconômico, taxas de juros mais civilizadas e a manutenção de um ambiente de estabilidade no país, ele espera que haja motivação para o empresário assumir maiores riscos nos investimentos em inovação.

Fonte: Valor Online