Notícia

Agência C&T (MCTI)

Setor privado abriga só 16% dos cientistas

Publicado em 10 dezembro 2007

As empresas brasileiras têm poucos cientistas e não sabem utilizar o potencial de pesquisa e inovação proporcionado pela interação com as universidades e institutos de pesquisa. Esse é um importante fator para explicar por que as atividades de pesquisa e desenvolvimento no Brasil ainda são fortemente dominadas pelo setor público. A negligência das empresas em construir pontes com a ciência também está na raiz do baixo nível de inovação do setor produtivo nacional, apesar do razoável desempenho científico do País - em 2005, o Brasil foi o 17 maior produtor de ciência no mundo, medindo-se pela publicação de trabalhos em publicações especializadas. Segundo estudo recente de Carlos Henrique Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), apenas 16% dos cientistas brasileiros trabalham em empresas. Nos Estados Unidos e Coréia do Sul, o percentual é próximo a 80%.

Apesar da visão tradicional de que a universidade brasileira não está preparada para ir além da pesquisa pura e para dar suporte à inovação no mundo dos negócios, Brita Cruz aponta que as empresas também têm a sua responsabilidade pelas falhas de comunicação. "O Brasil trabalhou muitos anos com a idéia errada de que a pesquisa feita na universidade poderia substituir a pesquisa feita na empresa. E hoje uma das principais restrições que nós temos à inovação e ao desenvolvimento tecnológico é o fato de que, nas empresas, há um nível muito reduzido de cientistas", ele diz.

O presidente da Fapesp, porém, já vê alguns sinais de mudança nessa mentalidade, em empresas que se organizaram para acessar o potencial de cooperação com a universidade, criando comitês científicos ou até mesmo o cargo de diretor-científico. Ele também atribui essa melhora à evolução da legislação de incentivo à pesquisa, como a Lei de Inovação, apesar de ainda ver diversos problemas nelas e uma certa falta de confiança das empresas na estabilidade das regras do jogo.

Os números do trabalho de Brita Cruz mostram que a atividade científica no Brasil ainda é basicamente exercida pelo setor público. O País investe anualmente cerca de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento (P&D),o que o coloca longe da média de 2,24% dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na América Latina, porém, o Brasil é o líder em P&D, com Cuba em um distante segundo lugar, investindo 0,6%.

Do total investido pelo Brasil, 60% pro vêm de financiamento público. A presença dominante do setor fica evidente quando se leva em conta que, apesar de o total gasto na atividade ser um terço ou menos do que é despendido pelos países lideres (como a Finlândia, com 3,5% do PIB, ou a Suécia, com quase 4%), a diferença cai muito quando se compara apenas a despe sa publica na atividade. Enquanto o setor público brasileiro gasta pouco menos de 0,6% do PIB em P&D, nos dois países lideres, aquele indicador fica entre 0,8% e 1%. No setor privado, em compensação,

a distância é enorme. O Brasil gasta me nos de 0,4% do PIB, enquanto a Suécia e o Japão, respectivamente líder e vice, gastam entre 2,4% e 2,6%.