Notícia

O Papel

Setor em tecnologia avançada

Publicado em 01 novembro 2007

De um lado, as empresas; de outro, as universidades e os institutos de pesquisas. As barreiras que afastam os cientistas dos pesquisadores da área de celulose e papel, bem como quem compra de quem produz tecnologia, são atenuadas todo ano, durante o congresso e exposição internacional de celulose e papel realizado pela ABTCP há 40 anos no Brasil.

Em entrevista concedida recentemente ao jornal O Estado de S. Paulo, Carlos Henrique Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), afirmou que "o Brasil trabalhou por muitos anos com a idéia errada de que a pesquisa conduzida na universidade poderia substituir aquela realizada nas em presas". Cruz acrescenta ainda que, hoje, uma das principais restrições à inovação e ao desenvolvimento tecnológico reside no fato de existir nas empresas um nível muito reduzido de cientistas.

Prova disso é o resultado da pesquisa realizada por Brito Cruz sobre o percentual de cientistas brasileiros que atuam em empresas. "Apenas 16% dessa categoria profissional trabalha em empresas privadas, enquanto em outros países esse índice chega a até 80%." Nesse sentido, o evento da ABTCP representa uma ação de integração da tecnologia setorial, em que criadores e desenvolvedores, vendedores e interessa dos no assunto de celulose e papel se reúnem para falar de atualização tecnológica e de inovações e também refletir sobre tudo o que se relaciona a desenvolvimento, pesquisa e pro cesso de uma indústria que investe e aposta na competitividade, com qualidade, da celulose nacional.

Neste ano o ABTCP-ZELL CHEMING — 40° Congresso e Exposição Internacional de Celulose e Papel, realizado pela ABTCP em parceria com sua congênere alemã, a ZELLCHEMING, contou com a participação de cerca de 800 congressistas e recebeu mais de 18 mil visitas durante seus quatro dias de duração. "Um evento como esse é oportunidade de avaliar o futuro da tecnologia e lançar as tendências e as demandas do mercado consumidor de celulose e papel — algo estratégico à evolução desse setor", comenta Clayton Campanhola, diretor da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI).

Na linha da evolução tecnológica setorial brasileira, apoiada e estimulada pela ABTCP, muitos marcos importantes foram registrados ao longo do século. É um processo contínuo, pelo qual o setor consolida sua posição no mercado e melhora sua competitividade. "Trata-se de urna indústria centenária, capaz de se renovar continuamente — tanto que há dez anos uma fábrica de celulose não teria capacidade superior a 750 mil toneladas por ano. Hoje, já se fala em 1,4 milhão de toneladas anuais, com toda a naturalidade, ou seja, em dez anos, essa indústria praticamente dobrou seu tamanho", considera Otávio Pontes, vice-presidente da Stora Enso para a América Latina.

Para Augusto Milanez, especialista em Pesquisa da Suzano Papel e Celulose, o mercado apresenta atualmente uma contínua necessidade de avanços tecnológicos. "Quando a competitividade exige isso das em presas, os saltos de tecnologia têm de acontecer", acredita o executivo da Suzano. Érico Ebeling, coordenador da Comissão Técnica de Papel da ABTCP, compartilha dessa visão mercadológica: "Por exemplo, se a perspectiva das pesquisas aponta para a produção de papel sem água, os paradigmas precisam ser quebra dos sobre os conceitos de produção, e isso se trata realmente de um grande salto tecnológico a ser dado".

Sob o ponto de vista estratégico, o consultor técnico de Pesquisa da VCP, Shinji Sato, comenta que o foco dos pesquisadores pode ser dividido em três grandes áreas: florestal, industrial/celulose e industrial/papel. "Considerando-se os investimentos e os resultados alcançados, o Brasil está entre os líderes na área de desenvolvimento tecnológico e industrial quando o assunto é o eucalipto e a celulose dessa espécie, respectivamente", diz.

No âmbito do papel, a história muda um pouco: "Não estamos no mesmo patamar dos demais países competidores; por isso, acredito que deveríamos voltar nossos esforços para impulsionar este desenvolvimento tecnológico, a fim de também tentar inovar na área de papel", avalia Sato. Para tanto, porém, Sato lembra a necessidade, em primeiro lugar, de o setor fazer seu dever de casa, "pois de nada adiantaria correr atrás da inovação sem preparo para a corrida".

Em 2005, dados do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) sobre os investimentos em P&D efetuados pelo setor de celulose, papel e produtos de papel como um todo, atingi ram cerca de R$ 92 milhões. Desse total, R$ 85 milhões destinaram-se a atividades internas de P&D, ficando os outros RS 6,6 milhões para aquisições externas de P&D algo ainda irrelevante se comparado aos investimentos efetivados por outros ramos da indústria e serviços. A quantia destinada, por exemplo, ao setor automobilístico chega a cerca de RS 1,7 bilhão (16,4% do total investido em P&D), e ao petrolífero, R$ 949 milhões (9,4%), para dar uma idéia de valor.

Sob uma ótica mais abrangente de resultados, entretanto, o processo de P&D no setor deverá evoluir ao passo da evolução do próprio setor como um todo. "Toda vez que se desenvolve uma melhoria de processo, do ponto de vista de novas formas de controle e exigências, é uma chance a mais para que a automação, por exemplo, se desenvolva e abra uma oportunidade de crescimento para o mercado em termos de lançamento de produtos e serviços", completa Ronaldo Ribeiro, coordenador da Comissão Técnica de Automação da ABTCP.

Entre outros fatores, faz-se importante reconhecer a estrutura sob a qual se apóia a área de P&D no setor de celulose e papel, para que seja possível, cada vez mais, trabalhar em rede integrada de colaboração mútua. Assim, a inovação poderá ser alcançada com menos riscos perante o custo da inovação. "Os riscos têm de ser calculados. Se ninguém assumi-los, a fim de tentar criar algo novo, os avanços poderiam levar muito mais tempo", pontua Carlos Renato Trecenti, diretor da Lwarcel Celulose e Papel.


Produção Científica

Como vai a produção científica do País? Essa questão foi bem oportuna como elemento de reflexão entre os participantes do congresso da ABTCP deste ano. Apesar das deficiências e falhas apontadas no sistema brasileiro de "desenvolvimento", é curioso imaginar que este mesmo país, incapaz de trazer inovação tecnológica de maneira satisfatória para dentro de sua indústria, possa destacar-se na América Latina no quesito de produção científica!

Em 2006, por exemplo, foram publicados 16.872 artigos técnicos brasileiros em periódicos científicos internacionais catalogados no Institute for Scientific Information (ISI). Esse número representa 48,83% dos 34.552 artigos publicados pela América Latina inteira! Se comparada mundialmente nossa evolução de publicações desse nível, desde 1981, o Brasil publicou quase nove vezes mais no período, enquanto a média de crescimento mundial de publicações, nas mesmas condições, apenas duplicou. (Veja a tabela com as informações,).

Daí a importância do trabalho realizado pela revista O Papel no setor de celulose e papel nessa linha de estímulo à produção científica nacional. Apesar de ainda não estar indexada pelo Institute for Scientific Information (ISI), a publicação da ABTCP tem buscado se aproximar desses órgãos e atender aos requisitos exigidos, para que, em breve, seja também destaque científico em nível mundial, valorizando os autores de artigos técnicos do setor de celulose e papel.

Uma das parcerias mais bem-sucedidas para estimular esse pro cesso tem acontecido entre técnicos de empresas e cientistas atuantes em universidades. O resultado reúne o melhor da pesquisa científica aplicada às empresas. "A universidade desenvolve um determinado processo ou produto, e a indústria realmente interessada em quebrar essas barreiras e buscar novas tecnologias certamente irá encontrar a inovação em endereço certo. Nós, da universidade, não que remos comercializar um produto, mas sim desenvolver tecnologias para o setor, um orgulho para nós", completa, Rubens Chaves de Oliveira, professor titular do curso de Celulose e Papel da Universidade Federal de Viçosa (UFV), também presente ao evento.