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Correio Popular

Setor aéreo gera desenvolvimento

Publicado em 14 julho 2006

Campinas chega a 232 anos com o plano diretor do Aeroporto Internacional de Viracopos em fase de revisão e a certeza de que o desenvolvimento socioeconômico sustentável da região passa pelo terminal aéreo, que hoje é o segundo maior do Brasil em movimentação de cargas e o primeiro no transporte de produtos de alto valor agregado.
Uma cidade aeroportuária está se desenvolvendo com as obras em andamento e os projetos previstos para os próximos anos, que incluem a construção da segunda pista de pousos e decolagens. Viracopos entrou definitivamente na agenda nacional com a constatação irremediável de que os dois grandes aeroportos da capital paulista e principais do País na movimentação de passageiros — Congonhas e Cumbica — estão operando muito próximos dos limites de suas capacidades e, em breve, não terão mais possibilidade de expansão.
O primeiro semestre de 2006 deverá ser lembrado no futuro como um período de aceleração nas definições sobre a expansão de Viracopos. Depois de quase 30 anos de debates e estudos, o poder público sinalizou mudanças importantes e profundas no projeto de construção da segunda pista de pousos e decolagens. A área anteriormente cogitada para receber essa obra será definitivamente urbanizada. A Prefeitura anunciou investimentos da ordem de R$ 74,4 milhões para bairros que integram o chamado complexo VIP Viracopos. O nome, com sigla em inglês para very important people (pessoa muito importante), é uma tentativa da Prefeitura de expressar a decisão política de priorizar o interesse social. Com isso, cerca de 40 mil pessoas permanecerão vivendo onde estão sob a promessa de melhorias na infra-estrutura urbana de 13 bairros. O projeto de ampliação do aeroporto volta-se agora para uma região de adensamento populacional bem menor, a zona rural, mas nem por isso menos complexa para fins de desapropriações.
A construção da segunda pista demandará a solução de complexas equações socioambientais. Famílias de produtores rurais estabelecidas há mais de um século na região resistem à idéia de sair do local onde implantaram riqueza e profundas raízes culturais. Além disso é necessário que sejam criadas condições compensatórias ao meio ambiente. O aeroporto ampliado tomaria uma das últimas reservas de cerrado do município, dizem especialistas, e ainda poderia afetar mananciais. Mas são conseqüências que ainda permanecem no campo das especulações. Uma idéia mais clara do que poderá acontecer e as medidas compensatórias necessárias devem ser conhecidas depois do Estudo de Impacto Ambiental - Relatório de Impacto ao Meio Ambiente (EIA-Rima) que está em fase de licitacão.

Comércio exterior
Para o economista da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), Josmar Cappa, as obras projetadas para aeroporto campineiro permitem pensar a cidade como porta de conexão com o comércio exterior ao longo do século 21. Cappa conduz um estudo acadêmico financiado pela Fundacão de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) sobre os impactos socieconômicos da ampliação de Viracopos. No entanto, ele faz ressalvas sobre os métodos de condução do projeto, afirmando que é necessário mais "transparência" e envolvimento de toda a sociedade, sob o risco de o crescimento do aeroporto acentuar ainda mais as desigualdades sociais na região. "Acho que Campinas ainda não percebeu a grande chance histórica de desenvolvimento que Viracopos significa", adverte.
Cappa cita que a localização geográfica de Campinas marcou toda a história de seu desenvolvimento e de sua influência sobre os demais municípios da região, especialmente porque constituiu posição de entroncamento viário e possibilitou vantagens competitivas para o desenvolvimento de distintas atividades econômicas, sendo, por isso, considerada estratégica. No século 18, Campinas foi a porta do sertão. Por aqui, se estabeleceram rotas de conexão entre a sede da colônia e Goiás, possibilitando a conquista territorial e o comércio de mercadorias. No século 19, a cidade foi importante centro de armazenamento de café e entrocamento ferroviário que possibilitou o escoamento da riqueza produzida do Interior para o Porto de Santos e, há cerca de 50 anos, o município começou a ganhar novo surto de desenvolvimento com o estímulo ao transporte rodoviário. Hoje, o entroncamento formado pelas rodovias Anhangüera, Bandeirantes, Santos Dumont, D. Pedro I e Adhemar de Barros, permite a conexão de Campinas com qualquer ponto do País via rota rodoviária.
Motivo pelo qual, segundo Cappa, a ampliação do Aeroporto de Viracopos representa variável importante no debate sobre a configuração econômica da região ao longo do século 21. Primeiro, porque no mundo contemporâneo os aeroportos deixaram de ser apenas infra-estrutura para pouso e decolagem de aeronaves, embarque e desembarque de pessoas e mercadorias, ou apenas um terminal para troca entre diferentes modais de transporte. Permitem maiores vantagens competitivas nas relações com os mercados regional, nacional e internacional, ao fazerem parte do processo produtivo de grandes empresas e constituírem-se como verdadeiras cidades aeroportuárias onde são instaladas industrias exportadoras, novas empresas e centros de negócios e serviços que geram emprego, renda e tributos tanto para o município onde se localiza o aeroporto, quanto para cidades localizadas no seu entorno.

Aeroporto será o maior do continente sul-americano
Viracopos está projetado para tornar-se o maior centro cargueiro da América do Sul ocupando uma área de 17km² e com capacidade para receber anualmente de 470 a 510 mil aeronaves, 720 mil toneladas de carga, atender a uma demanda prevista de 45 a 50 milhões de passageiros e empregar cerca de 7 mil trabalhadores diretos, devendo formar um verdadeiro complexo aeroportuário paulista por meio de conexões, especialmente, com os aeroportos de Cumbica e Congonhas.
A projeção vem se confirmando, segundo Cappa. A comparação entre os aeroportos de Viracopos e Cumbica, por onde passaram 82% das exportações e 67% das importações do Brasil em 2004, permite projetar Campinas como porta de conexão para o comércio exterior no país ao longo do século 21, especialmente devido à importância do aeroporto campineiro como infra-estrutura de apoio logístico para complementar a produção de distintos segmentos econômicos. De acordo com a Infraero, Viracopos atende a uma demanda gerada por empresas espalhadas em 430 municípios do Brasil, sendo 61,9% no Sudeste; 30,2% no Sul; 5,6% no Nordeste; 1,4% no Centro-Oeste e 0,9% no Norte. Conta com rotas aéreas para os principais centros distribuidores de mercadorias no mundo como Chicago, Memphis e Miami na América do Norte; Bogotá, Santiago e Buenos Aires na América do Sul; e Luxemburgo e Frankfurt na Europa.
A partir de estatísticas do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior referentes ao ano de 2003 sobre exportações por meio aéreo de empresas com sede em Campinas, observa-se que Cumbica respondeu por 31% da movimentação de cargas que ficaram concentradas, especialmente, em produtos farmacêuticos, químicos e instrumentação. A movimentação de cargas em Viracopos, além de ter sido maior (69%), envolveu segmentos de valor agregado elevado como, por exemplo, telecomunicações, motores e peças, informática, autopeças e material elétrico.
A maior geração de valores obtida com importações sublinha Viracopos como parte integrante da produção, especialmente, dos segmentos de telecomunicações e informática que, por vezes, utilizam o sistema just-in-time.