Notícia

Brasil Econômico

Sete anos para ensinar as empresas a inovar

Publicado em 02 dezembro 2009

Por Sílvio Ribas

Boa parte das empresas brasileiras já tem pelo menos a percepção de que é importante inovar, mas pouquíssimas dessas investem efetivamente na inovação. Retirar todas as barreiras culturais de determinada organização empresarial que a impedem de adotar métodos favoráveis à criatividade leva sete anos, dizem os especialistas. É preciso, segundo eles, persistir por longo tempo em palestras e treinamentos corporativos que estimulam a criatividade e a motivação de funcionários e parceiros. "Nem toda empresa precisa desse período para implantar processos visando à inovação. A velocidade da mudança cresce com o empenho da diretoria", afirma Eduardo Zugaib, consultor especializado no tema.

Mesmo com a possibilidade de haver momentos de inovação nos escalões inferiores, o "pacto pela inovação é algo que acaba vindo de cima", explica. Esse compromisso só vai repercutir se a direção também der mostras cotidianas de que acredita na nova postura, "criando ambiente interno favorável para que criatividade e inovação comecem a fazer parte do espírito da empresa". Outra condicionante do sucesso está na baixa qualidade média do ensino no país. "O conhecimento é fator importante para inovar. Não é o único, mas quanto maior e mais multidisciplinar, melhor para processos de criatividade que visam à inovação", disse.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo (Fapesp), também ressalta a importância do engajamento dos líderes empresariais. E vê um grande desafio com a busca de redução nas emissões de carbono, apesar de a indústria brasileira já ter avanços históricos desde a implementação dos processos de qualidade nas linhas de produção. "As empresas podem aprender com os desafios de cada época", diz.

Para Brito, a agenda da inovação pode e deve conviver com a velha agenda da economia brasileira, com busca de maior eficiência geral, redução dos gargalos burocráticos e das falhas de infraestrutura. "À medida que a economia cresce, sua complexidade e suas necessidades de inovação ficam mais claras. Por isso, é preciso aperfeiçoar os mecanismos de interação entre universidade, governo e empresas", acrescenta.

Segundo o consultor Zugaib, o baixo nível de ensino acaba por preparar as pessoas apenas para sobreviver "criativamente", mas não para "viver" criativamente. "Um barraco numa favela construído com materiais descartados é um produto criativo, mas de fruto da necessidade. Ninguém patenteou ainda um barraco de favela porque não é um produto transformador

de realidades", exemplifica. Como a maior parte do capital humano usa sua criatividade só para sobreviver, as empresas brasileiras acabam apenas reagindo ao mercado, ao invés de agir. É aí, acrescenta ele, que deve entrar em campo a inovação sustentada.

Para Zugaib, gargalos para a inovação, além do educacional, surgem na mentalidade de líderes empresariais que, apesar do discurso de contemporaneidade, ainda mantém modelos de gestão da inovação que funcionaram na velha economia".

"Num recente treinamento, me surpreendi com um trainee - jovem gabaritado e de boa formação, vivência no exterior e tudo o mais -, que definia cliente apenas como alguém que assina o cheque. O pensamento criativo ajudaria a flexibilizar essa visão", conta.

Dificuldades como esta contrastam com a perspectiva de que investir em criatividade vai dar mais lucro nos próximos anos do que atualmente.

"Em função da comoditização das tecnologias e de termos produtos cada vez mais parecidos, o conceitual vai ganhar força", conclui.