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Jornal da USP online

Sessenta anos dedicados à biologia marinha

Publicado em 23 março 2015

Por Alvaro Esteves Migotto e Antonio Carlos Marques

No início da década de 1950, um grupo de cientistas empreendedores e visionários ousou concretizar um sonho antigo: criar um laboratório de biologia marinha. Os modelos eram as centenárias e bem-sucedidas instituições congêneres europeias e estadunidenses, como a Stazione Zoologica di Napoli, na Itália, e o Marine Biological Laboratory, nos Estados Unidos, locais que a maioria deles visitara ou trabalhara anteriormente.

Cansados de fazer ciência em barracas de campanha ou em laboratórios precários, improvisados em hospedarias e pousadas da Baixada Santista e do litoral norte, esse grupo, liderado por Paulo Sawaya e vários professores da USP, buscou um local ideal para materializar seu sonho. Foi numa pequena praia aninhada na encosta da Serra do Mar e na entrecortada margem continental do Canal de São Sebastião que o grupo encontrou um recanto perfeito sob os mais variados aspectos – a praia do Segredo. Por volta de 1954, antes mesmo da fundação oficial do instituto, em fevereiro de 1955, laboratório e alojamento já estavam erguidos em um terreno adquirido com recursos de várias origens, incluindo fundações estrangeiras, da própria Universidade de São Paulo – cujo reitor era presidente da Fundação Instituto de Biologia Marinha – e contribuições de seus fundadores e colaboradores.

Nos primeiros anos do Laboratório de Biologia Marinha (LBM) – posteriormente denominado Instituto de Biologia Marinha (IBM) e finalmente Centro de Biologia Marinha (Cebimar) –, foram também construídos refeitório, biblioteca, casa de barcos e oficina, permitindo então estadas de longa duração para realizar experimentos, cursos e estudos completos. Sobretudo, perseguia-se independência administrativa e acadêmica que garantisse liberdade para os pesquisadores abraçarem seus projetos e ideias.

A internacionalidade do LBM veio também do berço, quando seus fundadores atraíram muitos colaboradores estrangeiros e outros cientistas de renome na época, como Jean-Marie Pérès (França) e Carl Pantin (Inglaterra), para pesquisar e ensinar em São Sebastião. O IBM ganhou projeção rapidamente, atraindo professores e estudantes do Brasil e do exterior, muitos dos quais vislumbravam a chance de desbravar um “território” científico quase virgem. Na bagagem trouxeram ideias, experiência e equipamentos, deixando um pouco de cada ao retornarem. Privilegiando o mérito, independentemente de suas instituições de origem, o IBM assumiu outro ideal das instituições congêneres nas quais se espelhara.

O instituto foi incorporado à USP em 1962, graças ao senso de oportunidade e lucidez dos seus dirigentes. A USP tornava-se assim a única universidade paulista com um laboratório costeiro de biologia marinha – uma vantagem de poucas instituições universitárias brasileiras e estrangeiras. Seu quadro funcional incorporou pesquisadores e docentes próprios, que sempre mantiveram o foco na pesquisa e ensino especializado, independência acadêmica, internacionalidade e apoio a pesquisadores da USP e de outras instituições.

A infraestrutura disponível – laboratórios bem equipados à beira-mar, rede de água do mar em suas principais instalações de pesquisa, embarcações e infraestrutura para mergulho autônomo, entre outras facilidades –, localização geográfica privilegiada, com fácil acesso a uma grande diversidade de ambientes, e mesmo a proximidade a grandes centros urbanos e universidades são características que atraem um grande número de cientistas para a realização de pesquisas, de cursos e disciplinas.

Assim, gerou-se um ambiente naturalmente propício para a pesquisa multidisciplinar de alta qualidade, com temas que vão desde levantamentos da biota até a prospecção de bioativos. Em comum, a investigação para o uso racional e a conservação da biota marinha. Ampliaram-se os temas de pesquisa, sem nunca deixar de fortalecer as áreas básicas, várias estabelecidas nos primórdios do Cebimar, como ecologia, evolução, fisiologia e história natural.

Em seus 60 anos, o Cebimar renova seu compromisso com as questões ambientais. O litoral norte do Estado, e o município de São Sebastião em particular, mudaram muito nas últimas décadas devido aos problemas decorrentes de um crescimento urbano mal planejado, agravado pela expansão do turismo e de instalações portuárias e petrolíferas em que conflitos de uso se acentuam. As praias próximas ao Cebimar estão igualmente sob ameaça, mas é também nesse momento que o Cebimar tem assumido seu protagonismo em catalisar estudos e análises ambientais, tomando para si o desafio de usar o conhecimento científico para o bem da sociedade.

Nesse sentido, a ação contemporânea mais emblemática dos cientistas ligados ao Cebimar na área ambiental diz respeito à baía do Araçá. Localizada na região central da margem continental do Canal de São Sebastião, a existência dessa baía lodosa foi decisiva para a escolha do local de implantação do Cebimar. Não é por acaso que ambos distam apenas poucos quilômetros um do outro, tampouco que o Cebimar tenha feito várias gestões a fim de tornar a área protegida.

Contendo remanescentes de manguezal e abrigando alta diversidade biológica, a baía do Araçá é em um verdadeiro laboratório a céu aberto, além de prover subsistência para populações locais, através da coleta artesanal de moluscos, crustáceos e peixes. Considerada como opção para a expansão do porto, a baía do Araçá por pouco não desapareceu da paisagem do canal. Em 1987, o aterro completo da baía, previsto no plano diretor do porto, foi evitado por pressão de ambientalistas e da comunidade científica. Pouco mais de duas décadas depois, há novos planos, igualmente impactantes, de expansão do porto de São Sebastião. Embora longe da condição pristina que motivou a criação do Cebimar na década de 1950, o Araçá continua um ambiente importante no equilíbrio do Canal de São Sebastião.

Em 2012, o Cebimar tornou-se a instituição sede do Projeto Temático Fapesp “Biodiversidade e funcionamento de um ecossistema costeiro subtropical: subsídios para gestão integrada”, ou “Projeto Biota-Araçá”, com uma equipe de mais de 160 pesquisadores, integrando estudos físico-químicos, biológicos e socioeconômicos, com o objetivo de caracterizar e quantificar os serviços ambientais prestados pela baía, buscando propor ações que permitam a sustentabilidade da região sob uma ótica integrada.

O Cebimar, amadurecido em sua história e desenvolvimento, assume e renova seu papel científico, educacional, acadêmico e social, representando a USP em uma região efervescente do Estado de São Paulo.

A programação dos eventos comemorativos dos 60 anos do Cebimar está disponível emhttp://cebimar.usp.br/60anos.

Alvaro Esteves Migotto é professor do Centro de Biologia Marinha (Cebimar) da USP

Antonio Carlos Marques é professor do Departamento de Zoologia do Instituto de Biociências (IB) da USP e diretor do Cebimar