Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Serviço público remunera 36% melhor

Publicado em 24 janeiro 2008

Por Adilson Camargo

Segundo estudo, funcionários públicos ganham mais do que os do setor privado para executar o mesmo tipo de serviço


O serviço público tem uma série de atrativos. A estabilidade no emprego está entre os mais cobiçados. Entretanto, as vantagens podem ir além disso. Estudo realizado no Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) mostra que a questão financeira também pode ser um diferencial para quem prefere seguir a carreira pública. De acordo com a pesquisa, funcionários públicos ganham, em média, 36% a mais do que os funcionários do setor privado para realizar o mesmo tipo de trabalho na área de serviços.

Uma das razões para isso é o perfil dos empregados. Segundo a pesquisa, tanto o nível de escolaridade quanto a experiência são, em média, mais elevados entre os servidores públicos. Por isso, a remuneração seria melhor. "Os empregados do setor privado com carteira assinada ganham menos, principalmente, porque são, em média, mais jovens e menos qualificados", justifica Daniela Verzola Vaz, uma das autoras da pesquisa, em entrevista à Agência Fapesp.

Em 2005, quando foi concluída a pesquisa, que durou 13 anos, a idade média dos funcionários públicos era de 41 anos, contra 32 para os empregados do setor privado. Enquanto os funcionários públicos trabalham, em média, 39,7 horas por semana, os do setor privado têm jornada de 45,5 horas semanais.

No que diz respeito à escolaridade, o estudo mostra que os funcionários públicos possuem média de 12 anos de estudos, dois a mais do que a média dos empregados do setor privado. Segundo a pesquisadora, os funcionários públicos têm maior facilidade em transformar anos de estudos em aumento salarial.

Além disso, na avaliação dela, para ingressar na carreira pública, o candidato precisa atender a alguns requisitos mínimos de formação escolar, o que restringe o ingresso de jovens pouco qualificados.

Sobre a cor dos trabalhadores, o estudo aponta semelhanças nos dois setores. A proporção de brancos, pardos, negros, indígenas e amarelos é muito parecida nas carreiras pública e privada. Os brancos predominam, com cerca de 59% dos contratados. Eles são seguidos pelos pardos (em torno de 34%) e negros (cerca de 7%).


Tempo de serviço

Os pesquisadores observam que na carreira pública o salário é reajustado à medida em que o indivíduo acumula anos de serviço, mesmo que seus atributos pessoais permaneçam os mesmos e ele continue desempenhando a mesma função, da mesma forma como sempre o fez, ou seja, com a mesma produtividade. A estabilidade de emprego oferecida pelo setor público assegura, dessa forma, certa progressão salarial a todos os funcionários.

No setor privado, onde a rotatividade dos trabalhadores é muito maior, a progressão salarial depende necessariamente de uma melhora na qualificação pessoal ou do acúmulo de experiência profissional no desempenho da profissão, que se traduz em melhora na produtividade.

Para os autores da pesquisa, esse é um aspecto que também pode justificar a diferença salarial. Enquanto na carreira pública, os anos de trabalho são sinônimo de progressão salarial, o mesmo não ocorre no setor privado.

Os pesquisadores utilizaram dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) entre 1992 e 2005. O estudo foi feito com funcionários públicos estatutários e empregados do setor privado com carteira assinada.


Discriminação

A discriminação contra a mulher puxa para baixo a média salarial dos servidores públicos. De acordo com a pesquisa feita na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), há um predomínio de mulheres na carreira pública. Em 2005, elas representavam cerca de 61% dos empregados do setor. No entanto, elas são minoria nos altos cargos da administração pública.

Para os pesquisadores, isso mostra que ainda há discriminação contra as mulheres porque parte dos cargos de chefia é preenchido por indicação. E essas indicações estariam favorecendo a ala masculina do serviço público.

Edmundo Albuquerque dos Santos Neto trabalhou três anos como vereador e três como secretário de Finanças de Bauru. Com base em sua larga experiência na vida pública, ele confirma a constatação dos pesquisadores da Unicamp. "Sempre temos mais homens do que mulheres nos cargos de secretários de Estado, município e ministros."

Entretanto, ele não concorda com a parte da pesquisa que diz que o trabalhador do setor público é melhor qualificado do que os da iniciativa privada. "Não concordo porque a iniciativa privada também exige qualificação, selecionando cada vez mais os seus funcionários", afirma. Segundo ele, a exigência de formação no setor público restringe o ingresso a determinados cargos, enquanto para outras funções, a exigência é de formação básica.

Sobre a questão salarial, Albuquerque entende que existem cargos que são melhor remunerados pelo setor público e outros, pela iniciativa privada. Na opinião dele, que trabalha hoje na iniciativa privada, essa é uma questão que varia muito.

Para a gerente de desenvolvimento humano Márcia Palomares, o salário pago pelas empresas privadas, em alguns casos, é bem superior ao que se paga na administração pública. Segundo ela, raramente um trabalhador experiente deixa a iniciativa privada para trabalhar no setor público.

É mais comum ocorrer o contrário. "A oportunidade de ganhos por participação nos resultados, benefícios e oportunidade de desenvolvimento são atrativos do setor privado", argumenta.