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Sertão do Brasil vai ganhar radiotelescópio em 2019

Publicado em 17 julho 2018

Em 2019, a radioastronomia chegará ao sertão brasileiro. Ano que vem deve iniciar suas operações o Radiotelescópio Bingo (BAO Integrated Neutral Gas Observations), que será construído em uma área na Serra do Urubu, sertão da Paraíba. O projeto será custeado, na maior parte, por recursos da Fundação de Amparo a Pesquisa de São Paulo (FAPESP), com colaboração da Universidade de Manchester, do Instituto Politécnico de Zurique, da Universidade de Yangzhou na China, e da Universidade de KwaZulu-Natal na África do Sul. A construção está sendo feita em conjunto pela Universidade São Paulo (USP), pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e pela Universidade Federal de Campina Grande. O projeto mecânico, as simulações e o projeto de construção foram todos feitos no Brasil.

O Bingo foi projetado para fazer a primeira detecção de oscilações acústicas de bárions a frequências de rádio. Por meio das oscilações acústicas, os astrofísicos podem observar as aglomerações de galáxias e medir a expansão do Universo e a quantidade de matéria escura.

No total, quatorze áreas no país foram avaliadas para sediar o radiotelescópio. A região na Serra do Urubu foi escolhida por seu isolamento e por contar com um paredão de cerca de 80 metros, capaz de evitar a contaminação por ondas de rádio. Além disso, do ponto de vista técnico e logístico, o apoio da Universidade Federal de Campina Grande foi essencial para ajudar nas negociações locais com a prefeitura, que incluíram a liberação de terreno e negociações com os departamentos de energia elétrica e de estradas.

Carlos Alexandre Wuensche, do INPE, é um dos pesquisadores principais à frente do projeto. Ele explica os oportunidades que o projeto trará. “O Brasil tem uma tradição muito forte apenas na área de astronomia óptica. Pouca coisa se faz fora dessa área", diz o cientista, "E teremos toda a experiência de montar um instrumento, o que pode estimular muita gente a se interessar por instrumentação, o que também não é uma tradição do país." . Ele também ressalta que, além das descobertas científicas, o investimento de R$ 13 milhões gerará outros benefícios, ao conferir às empresas locais oportunidade para se qualificarem para colaborar com um empreendimento deste tipo, fazendo com que elas ganhem novas competências.

“Vamos treinar professores, envolver o sistema produtivo local, usar o Senai da Paraíba, envolver toda a parte de escola de ensino fundamental e ensino médio do sertão que não tem recursos. Vamos levar internet via fibra ótica pra lá. Teremos o dinheiro federal e estadual. Haverá uma tremenda contrapartida pro sertão da Paraíba, um lugar isolado onde a pobreza é muito grande”, diz Wuensche.

O radiotelescópio pretende ser uma etapa intermediária, gerando pesquisas e dados preparatórios para a construção de um outro telescópio, o Square Kilometer Array, que será erguido na África do Sul e Austrália e deve ser concluído por volta de 2025. O grande diferencial do Bingo é que ele irá explorar a linha de hidrogênio, que é vista o ano inteiro, a partir de uma frequência de rádio que será a primeira do mundo a medir as oscilações de bárions. O objetivo final dessa empreitada é descobrir mais dados sobre a evolução da distribuição de matéria no Universo, e como essa matéria se combinou para formar galáxias.

Para o Brasil, a tarefa é um grande aprendizado. “Estamos aprendendo a operar grandes telescópios, porque sempre operamos com frequências menores e outros objetivos científicos”, diz Wuensche. “Manchester e Zurique são importantes hoje no nível de expertise. Se resolvêssemos andar sozinhos, iria demorar bem mais. A competência da instrumentação que eles têm é maior, então estamos andando mais rápido. Eles têm uma experiência grande pra entender essa taxa de frequência na qual não temos experiência.”