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Será que quem tem Alzheimer corre um risco muito maior se pegar covid-19?

Publicado em 27 abril 2021

Por Lúcia Helena, colunista do UOL

Se você levar 3 minutos para ler este texto, ao chegar na última frase, aproximadamente 60 pessoas ao redor do mundo — este mundo que envelhece a galope — terão sido diagnosticadas com algum tipo de demência, um problema que se torna mais prevalente com a idade. E por sua vez toda demência, não é de hoje, vem sendo relacionada a um maior risco de covid-19. Isso vai ficando claro após quase um ano e meio de convivência forçada com o Sars-CoV 2.

Mas, quando falo em demência, isso não tem necessariamente a ver com perda de memória. A expressão é um guarda-chuva amplo que abriga doenças diferentes, as quais costumam avançar muito devagar, levando à degeneração dos neurônios cerebrais.

Quando os estragos se acumulam, o sistema nervoso vai deixando de funcionar direito. Pode ser que a pessoa então comece a perder a coordenação dos movimentos, como acontece no Parkinson. Ou pode ser, para dar outro exemplo, que a situação provoque alterações no seu comportamento e que embaralhe a sua cabeça enquanto ela tenta resgatar suas lembranças, como se observa no Alzheimer.

Aliás, provavelmente é por causa do Alzheimer que a gente faz a confusão achando que os casos sempre têm a ver com memória: ora, seis em cada dez pacientes com demência têm essa doença, mais da metade.

Para você ter ideia, temos por baixo 1,5 milhão de brasileiros sofrendo de alguma demência. Ou seja, feitas as contas devemos ter uns 900 mil portadores de Alzheimer — lembrando que, como outros males no país, é provável que os quadros de demência sejam subdiagnosticados, ao menos nas fases mais iniciais.

De todo modo, esbocei o tamanho da encrenca para explicar por que um trabalho realizado no Brasil — por cientistas da USP (Universidade de São Paulo), do Instituto Butantan e da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) — chamou tanto a atenção ao sair, na semana passada, na revista científica Alzheimer's & Dementia.

De acordo com o estudo, os riscos de alguém desenvolver quadros graves de covid-19 triplicarão se a pessoa tiver Alzheimer. E poderão até mesmo ser multiplicados por seis se o paciente com Alzheimer tiver mais de 80 anos — isso em uma comparação com pessoas da mesma idade sem diagnóstico de demência.

Na opinião do médico Álvaro Pentagna, que é coordenador do serviço de neurologia do Hospital Vila Nova Star e do Hospital e Maternidade Rede D'Or São Luiz, na capital pautalista, além de colaborador do Hospital das Clínicas da USP, há uma lógica na prevalência de infecção pelo novo coronavírus na população com demência.

Para início de conversa: a perda de autonomia

"O que todas essas doenças neurogenerativas fazem com o tempo é prejudicar a automonia", nota o neurologista. "Por isso, muitos pacientes com esses problemas moram em instituições para idosos e nem todas, especialmente nos primeiros meses da pandemia, tomaram os devidos cuidados. Em muitas delas, infelizmente, os pacientes viviam aglomerados."

No caso do Alzheimer, ele nota, até mesmo portadores com casos mais leves e iniciais podem correr mais risco de se infectar por uma razão simples: "É fácil imaginar uma pessoa com dificuldade de memória se esquecendo de lavar as mãos ou de passar álcool em gel a toda hora", exemplifica. "É provável que também se esqueça de manter a distância necessária ou de usar a máscara direito"

Faz sentido. Então, sim, os pacientes com Alzheimer, em tempos de pandemia, precisam mais do que nunca de alguém por perto para garantir as medidas de prevenção tão necessárias, Ou, por um lapso, correm maior risco de pegar a infecção. Essa é uma certeza.

A dúvida: a covid-19 sempre seria mais grave nesses pacientes?

Sempre, sempre? Será? É uma boa pergunta para a ciência responder. O trabalho brasileiro deu um primeiro passo nesse sentido. Veja, ele não avaliou se indivíduos com doenças neurogenerativas seriam mais infectados pelo novo coronavírus. O estudo fez algo diferente: focou na hipótese de pessoas com demência, uma vez carregando o vírus, desenvolverem formas mais graves da covid-19, aquelas capazes de levar à morte.

Para isso, nossos cientistas se debruçaram sobre as informações de 12.863 pacientes de fora, todos acima de 65 anos e cadastrados do UK Biobank, o fabuloso banco de dados que regista tudo o que acontece com a saúde de mais de 500 mil britânicos atendidos pelo sistema público do Reino Unido.

Desses mais de 12 mil pacientes, que os pesquisadores dividiram em três faixas etárias para descobrir se haveria diferença entre elas — gente com mais de 65 até 74 anos; entre 75 e 79 anos e, finalmente, com mais 80 — , 1.167 indivíduos acabaram contraindo a covid-19.

A vantagem de beber da fonte do UK Biobank, como pontuou à Agência FAPESP o líder do projeto, o professor Sérgio Verjovski, do Instituto de Química da USP, é a incrível possibilidade de conhecer todas as doenças preexistentes de todos esses pacientes. As demências, óbvio, entre elas.

Só assim ele e seus colegas conseguiram concluir que poderia existir um risco maior de complicações entre pessoas com demência, especialmente entre os portadores de Alzheimer. Estes não foram parar mais no hospital por causa da covid-19 do que idosos com outras comorbidades conhecidas por aumentarem esse perigo — como o diabetes.

No entanto, uma vez internados, pareciam piorar de maneira mais intensa, com um risco de três e seis vezes maior de complicações. "É um trabalho bem feito, sem dúvida", elogia o neurologista Álvaro Pentagna. "Mas não dá para a gente falar no que em ciência chamamos de causalidade", opina. Em outras palavras, fica nítida a associação entre demências e quadros severos de covid-19, mas não dá para dizer que uma coisa é que causa a outra.

O que também pode estar por trás do resultado

Um detalhe precisa ser ressaltado nessa história: entre aqueles 1.176 britânicos que foram diagnosticados com covid-19, apenas 68 tinham alguma demência e, entre estes, somente 34 sofriam de Alzheimer. Se a gente parar para pensar, é um número pequeno para se generalizar qualquer conclusão. Sim, serão necessários novos estudos.

O doutor Álvaro Pentagna menciona outra generalização que precisa ser evitada: "Não podemos comparar o paciente com Alzheimer que está com um quadro leve, convivendo com a família e experimentando um lapso ou outro no dia a dia com aquele doente já em estado grave, que não se lembra de mais nada e que demanda de cuidadores o tempo todo ao seu lado."

Isso porque, como justificou o médico, pessoas com Alzheimer em estágio avançado são mesmo mais vulneráveis a infecções e acidentes. "Elas se engasgam e aspiram o que estavam ingerindo com alguma frequência", exemplica. "Portanto, precisaríamos saber quantas pessoas no estudo tinham Alzheimer avançado. Isso, sim, pode fazer diferença."

Também que não podemos nos esquecer do fator idade. Os autores também fazem questão de mencioná-lo. Ora, as demências são mais comuns com o passar dos anos. Assim como a covid-19, até que novas cepas provem o contrário, também tende a ser mais grave quanto mais idoso é o paciente. A idade avançada, portanto, pode ser um elo perdido ligando as duas doenças. O importante, se você tem um parente com Alzheimer, é garantir de lembrar por ele de todas as medidas protetivas. Na verdade, a gente espera que todos tenham cabeça para isso.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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