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SuperVarejo

“Ser” empreendedor, uma identidade em xeque

Publicado em 12 novembro 2012

Levantamento recentemente divulgado pelo Sebrae coloca o Brasil como o terceiro país com maior número de empreendedores no mundo. Mas o que é ser empreendedor? O Brasil tem mesmo o que comemorar nessa área? Estamos falando de empreendedores de necessidade ou de oportunidade? O brasileiro tem feito o seu melhor ao arriscar um negócio? Ouais os reflexos de tanto empreendedorismo? SUPERVAREJO foi ouvir o professor Martinho Isnard Ribeiro de Almeida, um dos maiores especialistas no assunto, para falar dessas e de outras questões que permeiam o dia a dia de nossos “empreendedores”.

Em um descontraído bate-papo, o doutor em administração e professor associado da Universidade de São Paulo (USP) fala das dificuldades das organizações brasileiras em inovar. “São muitas empresas abrindo, mas a maioria está fazendo coisas que qualquer um faz e cujo valor agregado é muito pequeno. O que vemos é um bando de cordeirinhos, um copiando o outro. Isso não é ser empreendedor. Empreendedor é aquele que faz acontecer, é aquele que não é conduzido, mas conduz. Mas é muito mais fácil ser conduzido do que conduzir”, diz o professor, que também faz parte do corpo de avaliadores da incubadora de empresas da USP, o Cietec, Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia.

Estudos do SEBRAE apontam que 27 milhões de pessoas possuem um negócio ou estão envolvidas na criação de um. Como o senhor vê esses números?

Em primeiro lugar não chamaria essas as pessoas de empreendedoras, mas de empresárias, pelo simples fato de que a maioria segue o que os outros fazem e geralmente faz sempre igual. Isso o não é ser empreendedor. Qualquer um que tenha uma sempre empresa é empresário. Costumo definir empreendedor usando a frase símbolo da cidade de São Paulo: Non ducor, duco – Não sou conduzido, conduzo. A maioria não é empreendedora, é conduzida. É muito mais fácil ser conduzido do que conduzir.

Conduzir em que sentido?

Conduzir tudo, não apenas um negócio, conduzir a vida. E isso exige que você pense no futuro, que realmente tenha firmeza de propósito, que saiba o que quer. Minha linha de estudos cobre planejamento estratégico e empreendedorismo, duas coisas muito ligadas. Quando penso no futuro, a primeira coisa é planejar. Mas não o dia de amanhã. Tenho que entender qual é minha vocação, planejar a longo prazo e só assim tornar-me um empreendedor. Ser empreendedor é uma postura, mais do que ter uma empresa. Como jornalista, você pode ser uma empreendedora em uma empresa que não é sua. Aliás, é esse o desafio de nosso trabalho na USP, que as pessoa sejam empreendedoras da própria vida. A música Roda Viva, do Chico Buarque, fala exatamente de alguém que não foi empreendedor da própria vida, que se deixou levar por ela. “Roda vida, roda pião, o tempo rodou num instante …”, quer dizer, você vai levando, a vida passa e você não vê acontecer. A maioria é assim, levada pela vida.

Pensar o futuro … O que mais?

Defendo um olhar diferente sobre empreendedorismo. Técnica é importante, mas, antes, vamos olhar o indivíduo. Se planeja começar algum negócio ou já tem um, faça uma reflexão para saber se o que está fazendo ou pretende fazer é o que quer da vida. Se for, terá uma motivação extra, planeje e caminhe firme. Se não, mude o rumo. O filho de um rico empresário foi tocar a empresa depois que o pai morreu. Um dia alguém lhe perguntou se era o que queria da vida, se aquela empresa tinha um significado para ele. O rapaz teve um acesso de choro. Estava infeliz, fazendo o que não queria, mas achava que tinha de continuar o negócio. Depois disso, profissionalizou a empresa e foi fazer o que gostava. Ser empreendedor é muito mais um estado de espírito. Exige disciplina para conduzir a vida, seja a pessoal, seja profissional. Nem todos enxergam vida pessoal, vida profissional e empreendedorismo como uma coisa só. Confúcio dizia que, se você fizer o que gosta, não precisa trabalhar a vida inteira, pois o trabalho será uma diversão. É esse o ponto do ‘ ser empreendedor”.

Intuição é palavra mágica no empreendedorismo?

É um erro acreditar em intuição como dom de Deus. Intuição se aprende praticando. Ser empreendedor é praticar o pensamento estratégico – pensar estrategicamente o futuro é praticar a intuição. Se o empresário nunca discute o futuro, não aprende a pensar. Quando os empresários pensam a empresa? Uma vez por ano, quando muito, reúnem-se num fim de semana num hotel para discutir o futuro. Não! Deveria ser pelo menos uma hora por semana. O ambiente organizacional muda a cada instante. Se não praticar, não vai aprender a pensar estrategicamente, e quando surgir um problema, a reação vai ser esperar para ver o que os outros vão fazer e copiá-los. Tem vantagem o que consegue entender o momento, o ambiente, lidar com as ameaças e tomar decisões rápidas.

O supermercadista é um copiador?

O pequeno empresário, de modo geral, faz o que os outros fazem e sempre igual. Supermercadista, independentemente do tamanho, copia não apenas o mix de produtos da concorrência, mas a forma como os produtos são vendidos, faz o que todo mundo faz e perde a chance de ser mais eficaz. Você não faz idéia do quanto é difícil convencer as empresas de que podem atender às necessidades do ambiente de forma criativa. Não querem inovar, são inseguras. Está dando certo com o outro, por que fazer diferente? O que vemos é um bando de cordeirinhos, um copiando o outro. Poucos arriscam. Poucos se dão conta de que podem inovar na gestão, por exemplo, de capital de giro. Se um atacadista vende a 30 dias, mas está precisando de dinheiro e está emprestando do banco, por que não negociar com o cliente um desconto melhor no pagamento à vista, que com certeza vai ser menor que a taxa bancária? O varejista não olha a situação de caixa, não enxerga o todo. Se o dinheiro está sobrando e o fornecedor tal está pegando dinheiro a juros altos, vá negociar com ele um desconto que pode ser muito melhor do que o valor de aplicação. Isso é empreender.

Como um Líder no varejo pode ser um empreendedor?

O empreendedor é aquele que entende não apenas as necessidades dos clientes, mas a dos funcionários. A diretoria de uma média empresa decidiu dar uma festa de fim de ano em um sitio superestruturado, com quadras de esporte, piscinas, etc. No final, o dono da empresa avisou que tinha uma surpresa: aquele sítio acabara de ser comprado para sediar o clube de campo da empresa. Achou que todo mundo iria ficar feliz. Mas os funcionários queriam algo mais simples. Por lei, pelo número de empregados, a empresa deveria ter uma creche! No desenvolvimento de plano estratégico sempre aconselhamos às organizações que levem em conta as necessidades e aspirações dos funcionários e estudem formas de supri-las.

Com todo esse jeitinho, essa coisa de se virar, está no sangue do brasileiro ser empreendedor?

O brasileiro é bem criativo na música, nas artes, nas brincadeiras. Mas em empreendedorismo está a dever. Não planeja antes e quando planeja nem sempre cria valor. Em toda a atividade profissional é esse o desafio. Veja este grampeador. Se for para papel, tem preço x; se for para uso cirúrgico, terá características mais complexas e ter um valor muito major. Da mesma forma, o varejo. Pode ser administrado como antigamente, ou pode oferecer serviços mais sofisticados a um preço-prêmio maior. Nesse sentido, será mais eficaz,

Ser eficaz ou ser eficiente? O que é mais difícil?

Ser eficaz. O que as empresas normalmente olham, e que é muito mais fácil de administrar, é como reduzir o custo, como ser mais eficiente … E mesmo, nada mais fácil, a eficiência tem passado longe…Em levantamento não rápido com empresas de cerâmica vermelha, observamos que quase metade dos recursos disponíveis estava ociosa, fora da produção: um terreno, o galpão, a máquina velha, um estoque brutal de matéria-prima e de produtos acabados, caminhão arado … As empresas não tiram proveito de coisas que às vezes nem se dão conta que têm. Na administração de capital, mais desperdício ainda. Costumo perguntar: “Sua empresa é aplicadora ou tomadora?” …”Nem uma coisa nem outra”. E quando sobra dinheiro? Se for pouco, deixa na conta. Se sobra mais, aumenta o estoque; se sobra mais ainda, adquire máquina, galpão. E quando falta? Cai no especial, ou atrasa o salário, a fatura do fornecedor … Paga multa, juros, e assim vai. O pequeno empresário normalmente vê o sistema bancário só na hora do sufoco. Sua contabilidade não é gerencial, só fiscal. Não acompanha saldo, não investe, não administra o fluxo financeiro.

Muitos desses novos empresários não são “egressos” de um mercado que se diz carente de mão de obra qualificada?

Infelizmente, sim. Mas prefiro responder a partir de outro ângulo. Estamos vendo uma preparação de mão de obra muito voltada para o nível superior, enquanto a carência maior é de pessoal de nível técnico. O mais incrível é que existe um número significativo de analfabetos funcionais ingressando nas universidades. Veja, a pessoa faz uma faculdade, às vezes com sacrifício enorme e, quando termina, nem sempre tem capacidade para assumir uma posição de maior relevância no mercado. A frustração é imensa. O ensino superior vem atendendo muito pouco às demandas do mercado. Enquanto isso, os cursos técnicos não são valorizados. Temos bons cursos, Sesi, Senai, Fatecs … Poucos, é verdade, mas deveriam ser mais procurados. Vale muito mais fazer um curso técnico do que um curso superior de baixa qualidade. Quem sai de um curso técnico bom tem mais chance de colocação e ganha mais do que quem sai de uma faculdade ruim. E pode sair dali um empreendedor, montar um negócio.É grande o número de pessoas sem curso superior que são exemplos de empreendedorismo.

Essa falta de qualificação não explica a alta taxa de mortalidade das empresas? Em 2010,35 mil pequenas fecharam as portas só em Minas Gerais.

Explica em parte. Os que nos procuram fazem tudo na direção oposta. A primeira coisa é instituir-se como pessoa jurídica, alugar sala, contratar secretária, mobiliar, dar uma festa de inauguração. Só depois saem atrás de clientes. E já se foi tudo ou boa parte dos recursos. As chances de dar errado aumentam e aí têm que pagar muita do aluguel, desfazer-se de móveis, demitir e encerrar a empresa. Estruturar um negócio deveria ocorrer apenas quando estivesse funcionando e, ainda assim, com algum retorno, e não o contrário. Gosto de citar o bootstrapping (calçando as próprias botas), uma metáfora para definir quem começa um negócio com recursos próprios, usando, por exemplo, a garagem de casa. Existem meios legais de começar um negócio sem entrar em altos custos fixos. Não é todo negócio que exige formalizar logo de cara. Dá para ser “informal” no bom sentido, pegar nota fiscal de outra já constituída. Veja bem, não estou dizendo com isso para não pagar imposto.

É nesse aspecto que trabalham as incubadoras de empresas.

Exato. Por um custo muito baixo, o interessado em abrir um negócio tem toda a estrutura para começar -local, telefone, cota para xerox, cursos sobre como administrar e assessoria para obter recursos públicos.

Há dinheiro público disponível?

Claro. A FAPESP, por exemplo, dispõe de orçamento enorme para quem quer desenvolver um negócio e oferece os recursos em três fases: no pré-projeto, no desenvolvimento e na implantação. Mesmo que não dê certo, a empresa não precisa devolver esse dinheiro depois. Mas não é um dinheiro jogado fora. Em estudo feito há alguns anos, a FAPESP constatou que 1% do ICM das empresas que dão certo pagam o investimento feito em todo o restante. E temos o CNPq, a própria incubadora de empresas Cietec, mas é muito pouco. Você não imagina a dificuldade que é manter uma incubadora de empresas na USP.

No início, tínhamos recursos do Sebrae para pagar os técnicos. Temos uma área de 20 mil metros quadrados para construir o que seria o núcleo do parque tecnológico. Foram gastos não sei quantos milhões em um prédio que está lá parado porque faltam recursos para tocar o dia a dia. Ou seja, ninguém apoia custeio. O político se preocupa em inaugurar prédio, pôr a placa dele, mas se esquece do depois. De que adianta um monte de escolas se não houver professores? O que é caro é manter o professor dando aula, pagar o salário dele. Muito mais do que simplesmente obras, o que falta é o custeio em ciências e tecnologia, e isso prejudica a inovação, a capacidade de agregar valor.

Essa falta de investimentos coloca o brasileiro como o que tem mais dificuldade em inovar, segundo dados do GEM 2011.

O Brasil é muito fraco em inovação. A inovação, que não precisa ser exatamente tecnologia, traz um valor agregado muito maior. Mesmo o Cietec, maior incubadora da América Latina, apresenta reduzido número de empresas, cerca de 130 hoje. Devíamos ter mais alternativas como essa. Há dez anos, em um congresso de incubadoras, visitei um parque tecnológico em Portugal. Fiquei surpreso. Portugal, com a metade da população da Grande São Paulo, tinha, já naquela época, um parque tecnológico com um número de empresas muito superior ao que temos no Brasil inteiro hoje. Sem inovação, vale lembrar Eliezer Batista, que disse: o Brasil “regrediu 100 anos e voltou a ser um mero exportador de commodities”?

Embora tenha exagerado nos anos, Eliezer tinha razão. Estamos de ré na industrialização. Empresas param de produzir e passam a comprar produtos de fora, colocando a marca delas aqui, deixando de gerar empregos, renda. Nossa indústria precisa de mais proteção. O mundo faz assim. Embora isso seja fator inflacionário no curto prazo, no longo vai gerar mais empregos, Ives. Temos tido sorte, os bens commodities se valorizaram pela escassez no mundo, mas isso não é sinal de progresso. Deveríamos desenvolver nossos bens naturais e exportar, e não vendê-los no estado bruto para depois comprar aço, carros e alimentos beneficiados lá fora. No Maranhão, há um navio que só faz a rota São Luís/Suécia, carregando minério de ferro. É um grande carregador de terra e volta sempre vazio da Suécia. Já a Suíça, apesar de não plantar um só pé de café, está se tornando um dos maiores exportadores e o maior produtor de café solúvel. Mandamos o grão, eles beneficiam, ganham no valor agregado … Não faz sentido.

Que outro fator impede o avanço do empreendedorismo no Brasil?

O aspecto cultural. São poucas as escolas com ensino de empreendedorismo. Há os que defendem essa disciplina já no segundo grau, para começar de criança a desenvolver a idéia de empreendedor. Nos Estados Unidos, o empreendedorismo é muito forte e se começa muito cedo a trabalhar isso. A criança começa a vender limonada na frente de casa, dali a pouco vai tomar conta do bêbedo vizinho … Infelizmente não temos iniciativas assim por aqui.

Mas aqui menores de 16 anos não podem trabalhar.

Nossa legislação é empecilho; em vez de proteger, atrapalha. Durante um período de estudos nos Estados Unidos morei com uma família em uma pequena cidade no interior do Kansas. O dono da casa trabalhava numa seguradora e tinha um filho pequeno. Uma vez, saímos para jantar e uma moça veio tomar conta da criança. Quando voltamos, tarde da noite, levamos a moça para casa. Era uma casa enorme! Até estranhei. No dia seguinte, meu hostess me disse que o dono da empresa em que trabalhava queria me conhecer, soube da bolsa de estudos e nos convidara para almoçar. Quando chegamos, era a casa em que tínhamos deixado a garota na noite anterior. Ou seja, ela ganhava uns trocados tomando conta do filho do empregado do pai. Isso não se vê por aqui. Um adolescente brasileiro dificilmente trabalharia para um funcionário do pai.

Não nos submetemos a qualquer coisa …

Aí está outro atributo fundamental no empreendedorismo: a humildade. O verdadeiro empreendedor não deve ter vergonha de usar a casa dele, a casa do amigo, para começar um negócio. Com a disposição para fazer qualquer coisa para o negócio dar certo, ele acaba passando por cima de questões culturais. Imagine, estou em meu escritório, a faxineira não apareceu, vou receber um cliente e o banheiro está sujo; não tenho vergonha alguma de ir lá e limpá-lo. Faz parte. Gosto de lembrar o psiquiatra Paulo Gaudêncio, que diz que uma mesma atividade pode ser edificante ou coisificante – edificante, se você estiver imbuído de um espírito empreendedor. Agora veja: o cara da limpeza não veio trabalhar e meu chefe me pede para limpar o banheiro. Minha reação imediata seria: “imagine, sou professor, doutor, não vou fazer essa coisa horrível!” Nesse caso, para mim, isso seria uma atividade coisificante. O que quero enfatizar é que o espírito empreendedor leva a pessoa a fazer coisas que não faria em outras circunstâncias, e ela se sente bem porque vê naquilo um sentido. Quando você dá um sentido maior para sua vida, consegue passar as noites em claro, trabalhar que nem besta, com um sorriso de lado a lado, limpar banheiro … Isso, sim, é empreendedorismo.