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Jornal da Unesp online

Sequenciamento do cancro cítrico tem grande participação da Unesp

Publicado em 22 abril 2010

Por Eliza Muto

Lesões em folhas de citros causadas pela X. citri (XAC) e pelas cepas B (XauB) e C (XauC)

Pesquisadores da Unesp, em parceria com especialistas de outras instituições do Brasil e dos EUA, concluíram o sequenciamento do genoma de dois tipos de bactéria que causam o cancro cítrico, doença que tem provocado graves prejuízos à citricultura nacional, especialmente a paulista. O resultado do trabalho foi publicado este mês pela revista científica inglesa BMC Genomics.

As equipes dos câmpus de Jaboticabal e Botucatu contribuíram com uma parte significativa no trabalho de sequenciamento e de experimentos biológicos, afirma Jesus Aparecido Ferro, professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV), em Jaboticabal, e um dos coordenadores do projeto de mapeamento do DNA das cepas B e C da bactéria Xanthomonas fuscans aurantifolii.

A equipe descobriu a ordem exata dos cerca de cinco milhões de pares de bases que formam o DNA das bactérias e identificou seus quase quatro mil genes. Foram detectadas, ainda, as funções de cerca de 2.700 genes em cada um desses microrganismos.

Os dados da pesquisa, somados aos obtidos com o mapeamento do genoma da bactéria Xanthomonas citri em 2002, devem ampliar as perspectivas de combate à doença que provoca lesões nas folhas, frutos e ramos dos citros, como explica o pesquisador. Os genomas dos tipos B e C foram comparados ao conjunto dos genes da X. citri - que causa mais de 90% dos casos do cancro cítrico e está associada a sintomas mais graves.

Embora causem a mesma doença, os tipos B e C atacam plantas diferentes e são menos virulentos que a X. citri. Enquanto esta atinge todas as plantas cítricas, o tipo B afeta mais o limão siciliano e o tipo C, o limão-galego. Apesar de suas diferenças, as bactérias causam a mesma doença. Ao comparar os três genomas, podemos entender melhor o cancro cítrico e buscar formas de controlá-lo, diz Ferro.

Inicialmente, os cientistas produziram um esboço do genoma - foram sequenciados 94% do DNA do tipo B e 96% do DNA do tipo C. Em seguida, experimentos ajudaram a esclarecer aspectos importantes da biologia das três bactérias e a preencher as lacunas do DNA das duas cepas bacterianas, de acordo com o especialista. Por meio de técnicas como a hibridização foi possível constatar, por exemplo, que um gene estava presente na X. citri, mas estava ausente nos tipos B e C, argumenta o professor, ressaltando que muitos desses trabalhos foram realizados nos laboratórios da Unesp.

Descobertas

Durante o estudo - que também envolveu pesquisadores de universidades como USP, Unicamp, Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Universidade Estadual de Virginia (EUA), entre outras, e a empresa Allelyx -, as equipes verificaram que a X. citri compartilha 74% dos genes codificadores de proteínas com as cepas B e C. Além disso, detectaram a presença de dois genes - xopE3 e xopAI - nos três patógenos (agentes causadores de doenças) que podem estar associados à severidade do mal. Pela primeira vez, esses dois genes foram claramente caracterizados em Xanthomonas, e os dados sugerem que eles podem desempenhar um papel especial no cancro cítrico, afirma Ferro.

O estudo também constatou que os tipos B e C não contêm o gene xacPNP - presente na X. citri. Esse gene deve estar ligado à maior capacidade da X. citri de se multiplicar dentro da planta e provocar a doença, avalia o pesquisador, acrescentando que as sequências dos genomas das cepas B e C estão disponíveis a cientistas de todo o mundo na internet (cepa C e cepa B).

Um outro site, que permite obter informações sobre genes comuns a todas as Xanthomonas que já foram sequenciadas no mundo todo até o momento, também está disponível. Um site específico para os genomas dos três microorganismos que causam o cancro cítrico deve ser criado em breve, informa o especialista.

No futuro, o conhecimento relacionado aos três genomas poderá ser utilizado para a criação de uma planta resistente ao cancro cítrico, avalia José Belasque Júnior, pesquisador do Fundecitrus (Fundo de Defesa da Citricultura), um dos financiadores do projeto junto com a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Por meio da comparação dos genomas, podemos aprimorar o diagnóstico da doença e identificar alvos de controle - o que, no final, poderá facilitar os estudos para o desenvolvimento de uma planta resistente, diz Belasque Júnior, segundo o qual a doença provoca no setor um custo anual de US$ 15 milhões, somente com a manutenção de equipes e a eliminação de focos.

Para o professor Ferro, outra possibilidade de combate ao cancro cítrico é a criação de um produto que, ao ser disperso nos pomares, impede o desenvolvimento das bactérias que causam a doença sem provocar dano às plantas e aos outros organismos do ecossistema.

Leia mais em: http://www.agencia.fapesp.br/materia/12068/genomas-comparados.htm