Notícia

Jornal do Brasil

Sensores criam internet para bois

Publicado em 27 novembro 2005

Por Claudia Bojunga

Um novo tipo de equipamento com sensores inteligentes wireless (sem fio) vai ajudar os criadores brasileiros a monitorarem melhor seu gado. A tecnologia, desenvolvida por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) em Pirassununga permite fiscalização mais eficiente caso um boi seja roubado ou simplesmente se desgarre, saindo dos limites da fazenda. A diferença desses chips subcutâneos - do tamanho de uma moeda, que podem ser colocados na orelha do animal - para os atuais é que se comunicam entre si. O trabalho inédito foi publicado na revista americana Computers and Electronics in Agriculture.
Os dispositivos normalmente utilizados têm uma base passiva- uma central, a que o fazendeiro tem acesso, onde as informações ficam reunidas -, que apenas recebe os sinais de cada sensor. Essa troca só pode ser realizada de uma maneira bilateral. Então, se a base perde o contato com determinado sensor, a comunicação fica interrompida.
Esse problema é resolvido no novo sistema. Através do wireless floating base sensor network protocol (FBSN), como foi denominado, se o boi fica em um local onde a transmissão de sinais para a central é impossibilitada - por exemplo, devido à distância -, o sensor recebe o comando e envia as informações para o chip de outro boi, que as repassa à base.
- A diferença é a possibilidade de fazer a requisição da base para o sensor - afirma ao JB Ernane Costa, coordenador do Laboratório de Física Aplicada, que desenvolveu a pesquisa.
Além da localização das reses, o chip também serve para guardar informações sobre o perfil do animal, como a matriz genética, as vacinas já aplicadas, entre outros dados que valorizam o produto final. Todas podem ser acessadas e alteradas pelo produtor a qualquer momento, devido à propriedade da central de solicitar os dados. Nos sistemas disponíveis no mercado, os dados são inseridos e ficam armazenados apenas na base.
- Isso vai poder ser usado no futuro para troca de informações sobre os rebanhos entre os criadores, por exemplo, no caso de uma venda - afirma Costa.
O novo tipo de rede de sensores pode ter aplicações práticas também em agricultura.
- Uma empresa já nos procurou com a intenção de adotá-lo na lavoura. Os sensores serão instalados em pivôs de irrigação (aparelhos giratórios que esguicham água), e caso sejam roubados, o que acontece freqüentemente, a central avisa - conta o pesquisador.
A nova tecnologia foi desenvolvida entre 2003 e 2005, durante o projeto em que foi montada uma rede para medir o estresse bovino. A análise era realizada pela captação da freqüência cerebral dos animais. O objetivo do experimento era saber em que condições era detectada tensão no rebanho. O cientista explica que o sofrimento prejudica a criação porque provoca, por exemplo, perda na qualidade da carne, que fica mais dura.
- Cerca de 10 % da produção se perde por causa de estresse - observa o coordenador do trabalho.
As ondas cerebrais eram captadas através de um eletroencefalograma - feito com três eletrodos colados na cabeça do animal -, nos quais os dados recolhidos eram enviados a uma central.
Esse tipo de tecnologia pode ser útil se o pecuarista detectar uma queda no rendimento da produção do gado. Nesse caso, afirma Costa, é só utilizar o dispositivo para se certificar de que o prejuízo tem relação com o estresse.
O projeto, financiado pela Fapesp (Fundação do Amparo de Pesquisa do Estado de São Paulo), teve um custo total de R$ 42 mil. Mas segundo o cientista, para a comercialização o valor deve ser muito mais baixo, porque o primeiro investimento para a criação de uma nova tecnologia é sempre mais caro.