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Exame

Senhor de engenho

Publicado em 12 junho 2002

Por Por Ricardo Arnt
Arrojado, visionário, megalomaníaco, agressivo. Como um trator, Rubens Ometto criou o maior grupo produtor de açúcar e álcool do mundo. Não peça ao empresário Rubens Ometto Silveira Mello, presidente do grupo Cosan - o maior produtor individual de açúcar de cana do mundo --, para posar para uma fotografia em um de seus canaviais. "No canavial, não. Posso ganhar ares de coronel usineiro", diz o empresário, no moderno escritório na avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo, onde foi batida a foto que abre esta reportagem. "Quero distância dessa imagem." Nos últimos sete anos, com fortes doses de obstinação, sangue-frio e muito engenho, Rubens, como é mais conhecido, transformou o grupo Cosan no líder nacional da produção de açúcar e álcool, enfrentando as turbulências geradas pela desregulamentação de um setor secularmente controlado pelo Estado -- praticamente, desde que a primeira muda de cana-de-açúcar desembarcou no país, pelas mãos do fidalgo português Martim Afonso de Souza, em 1532. Com o fim da tutela estatal sobre o açúcar e o álcool em 1999, o mercado passou a funcionar livremente. "Os usineiros viviam da política e de subsídios. Ganharam uma péssima imagem merecidamente", afirma Rubens. "Mas isso, agora, está mudando." Em 1996, Rubens, de 52 anos, formado em engenharia pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, da quarta geração dos Ometto, italianos que vieram para o Brasil em 1887, assumiu o comando das empresas da mãe, Isaltina Ometto Silveira Mello, com quem travara uma longa disputa judicial. Além de envolver-se em três guerras societárias familiares, Rubens renegociou dívidas, fechou empresas, comprou usinas, bateu recordes de produtividade e conquistou sócios estrangeiros para os negócios. "Quando o Rubens chegou à presidência, a situação das empresas do grupo era deplorável", diz o advogado Alexandre Chade, do escritório BlueBridge, de São Paulo. "A Cosan devia 300 milhões de reais e faturava 200 milhões. Ele arrumou a casa e multiplicou o patrimônio por 10." Chade é um avalista insuspeito, pois representou a mãe de Rubens na disputa judicial contra o filho. Os duros e freqüentes embates e a expansão contínua do grupo Cosan induziram o mercado a formar uma imagem controvertida de seu presidente. "O Rubens é, de longe, o mais ousado e mais eficaz empresário do setor", diz Eduardo Carvalho, presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Única). "Mas também é um cara perigosamente agressivo. Ele passa por cima como um trator." João Carlos de Figueiredo Ferraz, presidente do grupo CrystalSev, empresa que comercializa açúcar e álcool para uma aliança de oito usinas de Ribeirão Preto, também admira o estilo de Rubens. "O Rubens é um pioneiro, um empresário arrojado e de visão", afirma Figueiredo Ferraz. "Mas ele não mede muito as conseqüências políticas e gera desafetos." Um dos poucos a resistir ao assédio do presidente da Cosan foi Rui de Souza Queiróz, ex-presidente da Usina Cresciumal, em Leme. Queiróz preferiu vender sua empresa ao grupo francês Dreyfus em vez de para a Cosan. "O Rubens é trabalhador e tem méritos", afirma Queiróz. "Mas sofre de megalomania." Pouca gente, porém, contesta a liderança da Cosan num setor que movimenta 12,7 bilhões de reais por ano. Atualmente, o grupo de Rubens Ometto emprega 10 000 pessoas, controla dez usinas e mói 17 milhões de toneladas de cana por ano. No ano passado, faturou 1,1 bilhão de reais e lucrou 163 milhões. A Copersucar, cooperativa que congrega 34 empresas paulistas e é a maior exportadora de açúcar de cana do mundo, vende lá fora 1,7 milhão de toneladas, o equivalente a 15% da exportação brasileira. Isoladamente, a Cosan vem em segundo lugar, exportando 1,2 milhão de toneladas de açúcar (11% da exportação). Um desempenho desses demanda, uma vez por mês, pelo menos, uma visita de Rubens a cada uma das usinas. "Pego o helicóptero em São Paulo e em três dias dou uma volta completa no estado", diz Rubens. Na usina Costa Pinto, em Piracicaba, o gerente Dirceu Cortelazzi já se acostumou a essas incursões e às cobranças do patrão. "O Rubens cobra muito, e cobra direto", diz Cortelazzi. "A gente tem de se virar. Ele trabalha com resultados." Os números de vendas e produtividade da Cosan aumentaram vertiginosamente nos últimos dois anos com a aquisição e a reestruturação de cinco novas usinas, Rafard, Ipaussu, Univalem, Gasa e Santo Antônio -- as quatro últimas, adquiridas em parceria com sócios estrangeiros. Em novembro de 2000, Rubens criou a FBA, a Franco Brasileira Açúcar e Álcool, uma associação da Cosan (47,5%) com as tradings francesas Union SDA (47,5%) e Sucden (5%). Via FBA, os franceses já investiram 42 milhões de dólares em aquisições no Brasil. Enquanto o mercado desregulamentado ceifa cada vez mais as usinas endividadas e administradas em bases familiares, a Cosan cresce. "Não tenho uma fórmula mágica", diz Rubens. "O importante é solucionar as disputas acionárias e adotar uma gestão firme e profissional." Na Cosan, as guerras entre herdeiros deixaram traumas. Numa disputa familiar pela empresa, a inteligência da organização é toda canalizada para a destruição do adversário, afirma Rubens. "Todos passam a fazer política o tempo todo", diz. "É como empresa com chefe corrupto. Os maus hábitos descem para a base e corrompem a estrutura toda." O saldo dos embates foi a decisão de afastar totalmente a família do dia-a-dia dos negócios. Na Cosan só trabalha um Ometto: Rubens. As disputas entre parentes são tão freqüentes entre usineiros que viraram uma característica do setor. Entre os descendentes dos irmãos Antonio e Girolamo Ometto, que em 1906 compraram seus primeiros 6 alqueires de terra na fazenda Água Santa, em Piracicaba, não foi diferente. Em um século, os Ometto se multiplicaram e adquiriram fazendas e usinas de acúçar por todo o estado. Em 1986, constituíam cinco grupos autônomos, pródigos em disputas familiares: o grupo Pedro Ometto (Usina da Barra e Costa Pinto), o grupo Hermínio Ometto (Usina São João), o grupo Narciso Ometto (Usina Santa Lúcia), o grupo Iracema (Usina São Martinho) e o grupo Ometto-Pavan (Usina Santa Cruz). Não raro, os donos dessas usinas também possuíam ações das empresas dos parentes, o que tornava o jogo de interesses e participações cruzadas uma teia impossível de desatar. Quando Pedro Ometto, avô de Rubens, morreu, em 1970, suas usinas foram divididas entre seus dois filhos. Isaltina, a mãe de Rubens, ficou com a Costa Pinto e a Santa Bárbara, e seu irmão, Orlando, com a Usina da Barra. "Havia intriga demais na família", diz Rubens, que logo após se formar em engenharia, em 1972, preferiu trabalhar no grupo Votorantim. "Gostava muito do trabalho", diz Rubens. "Virei diretor financeiro da Votorantim com 24 anos." Em 1978, ele cedeu às pressões familiares e passou a dirigir a Celisa, a holding das usinas da mãe. Uma de suas primeiras tarefas foi negociar dois acordos societários para consolidar a divisão entre as empresas de dona Isaltina e as do tio Orlando. Em 1986, adquiriu, para si próprio, o controle acionário do grupo Bom Jesus, com as usinas Santa Helena, Ipaussu e São Francisco. Mas nenhuma disputa acionária deu mais trabalho do que o conflito interno com a mãe e os irmãos Celso, Mara e Celisa, iniciado em 1990. "Eu queria profissionalizar a gestão e meus irmãos resistiam", afirma Rubens. A briga só chegou ao fim em 1996, com a fusão entre os grupos Bom Jesus e Celisa, o que resultou na holding Nova Celisa. Rubens negociou acordos individuais com 23 acionistas e assumiu a gestão do grupo, ficando com 50% das ações. A mãe e os irmãos receberam os outros 50%. "Na verdade, dona Isaltina reconheceu a capacidade empresarial do Rubens para dirigir o grupo", diz o advogado Chade. Apesar da solução encontrada, as cicatrizes da disputa permanecem. "Minha família se recompôs com o fim da batalha jurídica", diz Rubens. "Mas ficamos machucados. Depois de uma guerra as coisas não voltam a ser o que eram." Ao mesmo tempo em que lutava pela conquista do poder no clã, Rubens teve de enfrentar o terremoto da desregulamentação do setor -- anunciada desde a extinção do todo-poderoso Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), em 1990. Os abalos decisivos foram o fim do regime de cotas de exportação de açúcar, em 1997, e a liberação do preço do álcool anidro, em 1998, e do álcool hidratado, em 1999. "O setor entrou em parafuso sem a coordenação estatal", diz Figueiredo Ferraz, da CrystalSev. O excedente de produção provocou uma queda brutal nos preços. "No último dia em que o preço tabelado para o álcool anidro vigorou, em fevereiro de 1999, o litro custava 41 centavos", diz Tarcilo Rodrigues, diretor da Bioagência, exportadora de álcool. "Três meses depois, caiu para 16 centavos." Para sobreviver era preciso mudar de mentalidade. Durante décadas, os usineiros atuaram mais como políticos do que como empresários. Eram bons da porteira para dentro e ruins da porteira para fora. "O estatismo atrofiou o espírito empreendedor, ao mesmo tempo em que as famílias bloquearam a profissionalização", diz Carvalho, da Única. Segundo ele, o mais importante era eleger uma bancada de deputados e influenciar a política do Instituto do Açúcar e do Álcool. "Quando o IAA ditava os preços e as cotas de exportação, ninguém pensava em cliente, financiamento, vendas ou marketing", afirma Figueiredo Ferraz. Para complicar, a maioria dos empresários vivia como nababos. "O pessoal endividava-se sem abrir mão do alto padrão", diz o advogado Chade. A alternativa só podia ser quebrar ou enxugar os custos. "Briguei pela desregulamentação e me preparei para ela", diz Rubens. "A recessão era previsível. Mas muitas viúvas do IAA ficaram sem norte e sem rumo." Para ele, só há dois tipos de empresa: a que aceita as mudanças e a que resiste a elas. "As empresas que mantiveram a gestão familiar se arrebentaram", afirma Rubens. Em 1997, 1998 e 1999 o setor penou com austeridade, downsizing, prejuízos e quebradeira. A Nova Celisa reestruturou seis usinas. Trocou todos os diretores. A Usina Santa Bárbara foi fechada e sua maquinaria transferida para Ipaussu. O grupo reduziu todos os custos e equacionou o grosso da dívida. Ao mesmo tempo, quando o governo privatizou os portos, em 1997, aproveitou para arrendar uma seção do Terminal Portuário de Santos por 25 anos. Em 1999, a empresa vendeu 10% do capital à distribuidora inglesa de açúcar e derivados Tate & Lyle. O passo decisivo da reestruturação foi juntar todos os ativos do grupo e consolidá-los numa nova holding, a Cosan, no começo de 2000. O governo também ajudou a arrumar as contas. Graças ao Programa de Recuperação Fiscal (Refis), a Cosan refinanciou uma dívida de 250 milhões de reais de impostos devidos à União. Em suaves prestações, o débito será quitado no prazo de 20 anos. E o Programa Especial de Saneamento de Ativos (Pesa) permitiu rolar as dívidas com os bancos privados. "O Refis e o Pesa salvaram o setor", diz Rodrigo Pasin, da consultoria Guarita Associados. "Sem eles, o setor não poderia voltar a atrair investimentos." Mesmo assim, muitos nomes tradicionais do setor não resistiram. A desregulamentação provocou o fechamento de dezenas de usinas e acelerou a concentração e a formação de novos grupos para acumular escala nos negócios, como a CrystalSev e a Bioagência. Um levantamento realizado por Pasin contabilizou dez fusões e aquisições no setor sucroalcooleiro em três anos, de 1997 a 1999. Nos últimos dois anos e meio, o movimento ganhou ímpeto: ocorreram 16 fusões, sendo sete com participação de capital estrangeiro. Em 1992, havia 375 usinas em operação no país. Hoje, há 308. "O setor reproduziu o que aconteceu com os bancos e os supermercados", afirma Robert Lyra, diretor do grupo Carlos Lyra, de Alagoas. De acordo com ele, um darwiniano, o processo de reestruturação está eliminando as usinas que não se profissionalizaram e se enfraqueceram por disputas familiares. "São as mais fáceis de comprar", afirma. Além de três usinas no Nordeste, o grupo Carlos Lyra comprou as usinas Delta e Volta Grande, em Minas Gerais. Outros grupos nordestinos, como o José Pessoa, o Tércio Wanderley, o Tavares de Mello e o João Lyra, também estão se expandindo no centro-sul, atentos às oportunidades criadas pela crise. "A reestruturação vai avançar com ou sem as famílias", diz Maurílio Biaggi Filho, da Usina Santa Elisa, de Sertãozinho. O dado novo, na última década, é a presença de multinacionais, sobretudo as de origem francesa, como as tradings Union SDA, Sucden, Coinbra (leia-se: grupo Dreyfus) e Eridania Béghin-Say. Isso não acontece por acaso: os franceses são os maiores produtores de açúcar da Europa (à base de beterraba) e possuem fortes laços com o Brasil (o Dreyfus, que já controla duas usinas de açúcar, é dono da Frutesp, uma das maiores produtoras de suco de laranja do país). Acontece que o melhor e o mais barato açúcar do mundo é produzido, sem subsídios, pelos brasileiros: custa 180 dólares a tonelada, ante 450 dólares nos Estados Unidos e 700 na União Européia. Além disso, o Brasil domina as tecnologias agrícolas desenvolvidas pela Embrapa e por instituições como o Centro Tecnológico da Copersucar. Também está na ponta na pesquisa do genoma da cana, dirigida pela Fapesp, que já seqüenciou 50 000 genes da planta. E, para arrematar, nenhum produtor mundial reúne tantas terras disponíveis e condições tão favoráveis para plantar e expandir os negócios. "Os franceses estão adquirindo posições aqui porque a produção de açúcar brasileira vai crescer globalmente", diz Rubens. "Eles também não vão conseguir sustentar na Organização Mundial do Comércio os subsídios que pagam aos seus produtores. Sabem que perderão competitividade." Também há expectativa no setor sobre o futuro do álcool. É crescente o número de países que estudam sua adição à gasolina, seguindo os exemplos do Brasil, da Suécia e da Ucrânia e de estados americanos como Califórnia, Illinois, Michigan, Iowa e Minnesotta. Em fevereiro, a Índia determinou a mistura de 5% de álcool ao diesel consumido no país. "Nos próximos cinco anos, França, Japão, China, Índia, Estados Unidos, México, Austrália e Tailândia abrirão vastos mercados para o álcool misturado à gasolina", diz Rodrigues, da Bioagência. Só no Japão, a adição de 5% de álcool ao combustível consumido pela frota de veículos criaria uma demanda de 2 bilhões de litros por ano -- quase quatro vezes a exportação brasileira. Além de boas perspectivas para a exportação, o governo brasileiro está estudando a volta dos incentivos para a produção de carro a álcool pelas montadoras. A grande novidade é o carro misto, com motor híbrido tolerante à gasolina e ao álcool, que permitiria ao usuário optar pelo melhor preço na hora de abastecer. A ressurreição do Proálcool já é tema de campanha eleitoral à presidência da República. Rubens Ometto, no entanto, descarta o retorno da velha usina de privilégios. "Não queremos um novo Proálcool nem subsídios ou incentivos", diz. "Mas não tenho dúvida que há cada vez mais gente percebendo que o álcool é um grande trunfo estratégico do país." Depois da expansão e da concentração dos negócios, a Cosan planeja, agora, um novo passo: a abertura do capital, com o lançamento de ações nas bolsas de São Paulo e Nova York. "Esse é o caminho para quem precisa de capital para crescer", diz Rubens. Ele acredita que boa parte do trabalho necessário já tenha sido feito. "A Cosan gera lucro, está profissionalizada, bem auditada, seu balanço é transparente e o setor está desregulamentado." Com a colocação de ações no mercado e acesso ao dinheiro barato, Rubens acredita que terá condições de sustentar a competição com os grandes grupos internacionais do setor. "Somos tão competentes quanto eles, ou melhores. Mas investimos com juros de 12% para ter retorno em três anos, enquanto eles têm 25 anos para amortizar e 5% de juros. Quer dizer, nunca podemos errar." DO LIXO AO OURO Há um mar de energia renovável no interior do país. Vender excedentes de energia elétrica produzidos por co-geração está virando um negócio cada vez mais atraente. Atualmente, 40 usinas do estado de São Paulo fornecem 158 megawatts gerados pela queima do bagaço para a Companhia Paulista de Força e Luz (CPFL). Em todo o país o setor poderia gerar até 12 000 megawatts, o equivalente a uma Itaipu. Em abril deste ano, o governo criou o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica, que obriga as distribuidoras a comprar 3 300 megawatts de energias alternativas. Um terço desse total deve ser de biomassa. Também foi definido um preço mínimo, equivalente a 80% do preço médio nacional, tido como satisfatório para o setor. Caso nenhuma distribuidora se interesse, a Eletrobrás compra a energia. "A venda de energia permite aumentar o faturamento das usinas em até 10%", diz Jairo Balbo, diretor da Usina Santo Antônio, de Sertãozinho, no interior paulista. Balbo investiu 23 milhões de reais -- com financiamento do BNDES -- para gerar 16 megawatts para a CPFL. Fez um contrato que renderá 9 milhões de reais por ano até 2014. Nos últimos 12 meses, o BNDES aprovou financiamento para 15 projetos de co-geração. "A abertura do negócio da energia induz à modernização das caldeiras", diz Maurílio Biaggi Filho,da Usina Santa Elisa. Segundo ele, a maior parte das máquinas é dos anos 80, da época do Proálcool. Tem mais de 20 anos, em média, e baixa eficiência. Com caldeiras de alta eficiência, o rendimento na geração de energia aumenta. Além disso, quase todas as usinas aproveitam só o bagaço e desperdiçam a palha da cana, queimada na lavoura para facilitar a colheita. As leis ambientais interditarão as queimadas -- que geram poluição com a fuligem -- a partir de 2008. "A queima da palha é o nosso calcanhar-de-aquiles", diz Biaggi. "Já estamos usando palha nas caldeiras para gerar energia. Daqui a pouco as queimadas ficarão antieconômicas." Há um mar renovável de cana disponível no interior do Brasil. "Se o país não conseguir aumentar a participação da biomassa na sua matriz energética, pode dar um tiro na cabeça", afirma Jaime Buarque de Holanda, diretor da ONG Instituto Nacional de Eficiência Energética (INEE). Descontando-se o custo de manuseio, o bagaço e a palha da cana oferecem energia nobre a custo zero. "A safra da cana, de maio a novembro no centro-sul, é um rio fluindo no período de seca das hidrelétricas", diz Buarque de Holanda. O negócio, segundo ele, mereceria o Prêmio Nobel de Economia. "É a conversão do lixo em ouro."