Notícia

Inovação Unicamp

Seminário em São Paulo discute avaliação de tecnologia nascente; até 2008, programa do governo paulista avaliará 120 projetos

Publicado em 08 outubro 2007

Por Janaína Simões

O Programa de Inovação Tecnológica (PIT), da Secretaria Estadual de Desenvolvimento de São Paulo, está formando estudantes de graduação e pós-graduação para investigação tecnológica. A expressão refere-se à avaliação e qualificação do potencial de mercado de tecnologias inovadoras originadas em institutos de pesquisa e universidades. Na atual fase, o programa abrange cinco instituições paulistas: Unicamp, Universidade de São Paulo (USP), Universidade Estadual Paulista (Unesp), Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Segundo Roberto Lotufo, diretor-executivo da Agência de Inovação da Unicamp (Inova), entidade coordenadora do projeto, a meta do PIT é investigar uma lista de 120 tecnologias desenvolvidas por pesquisadores dessas instituições até março de 2008, quando será concluída essa primeira etapa do programa.

No dia 27 de setembro, o 1º Conecta — Seminário de Inovação e Transferência de Tecnologias aconteceu para debater o que foi feito no PIT até aqui. Reunidos em São Paulo, agentes em treinamento, gestores dos núcleos de inovação das instituições de pesquisa e universidades participantes, e representantes de outras universidades interessados no tema assistiram às discussões sobre o programa. Para dar subsídios aos participantes e organizadores do PIT, o professor Ruy Quadros, do Departamento de Política Científica e Tecnológica do Instituto de Geociências (DPCT-IG) da Unicamp, falou de como o Brasil e outros países tratam da relação academia-empresa para os esforços em pesquisa, desenvolvimento e inovação. Representantes de empresas inovadoras como Incrementha e Adespec contaram suas experiências e um especialista do Chile, Nathan Young, gerente da firma NEOS, que atua em gestão da inovação, trouxe dados que serviram para comparar a metodologia empregada no PIT com o trabalho da firma chilena. Agentes responsáveis por fazer a investigação tecnológica apresentaram três já concluídas.

O que é investigação tecnológica

O trabalho de investigação tecnológica consiste em identificar o diferencial, as limitações e o estágio de desenvolvimento da tecnologia; verificar o grau de aderência da tecnologia ao mercado; determinar riscos e oportunidades de caráter legal; propor parcerias de negócios possíveis; determinar a viabilidade econômica. Durante a investigação, os agentes — no caso, alunos bolsistas do programa — interagem com os pesquisadores e com o mercado.

Hoje, 15 agentes de investigação tecnológica estão em treinamento no PIT, usando uma metodologia desenvolvida pelo Instituto Inovação, entidade privada de Minas Gerais que oferece serviços de gestão da inovação para empresas e instituições de ensino e pesquisa. Os agentes são alunos de graduação e pós-graduação de diversas áreas do conhecimento. Os recursos para as bolsas vêm da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). Além dos agentes, outras 15 pessoas trabalham no projeto, auxiliando os estudantes. São pesquisadores e integrantes das agências de inovação das instituições envolvidas e representantes do Instituto Inovação.

Em um ano e seis meses de programa, os agentes foram treinados para usar a metodologia do Instituto Inovação, aperfeiçoaram esse sistema e concluíram a investigação tecnológica de 22 tecnologias das instituições participantes. Outras 25 tecnologias estão em processo de investigação. "Estamos atrasados, mas queremos cumprir as 120 investigações que temos como meta", disse Lotufo.

Caso seja dada continuidade ao programa após março de 2008, o comitê coordenador do PIT, formado por um representante de cada um dos participantes, pretende ampliar o número de instituições, incluindo também universidades e institutos de pesquisa situados fora do Estado de São Paulo.

Programa forma agentes para trabalhar em núcleos de inovação

Roberto Lotufo disse, ao abrir o seminário, que o PIT nasceu de uma necessidade das agências ou núcleos de inovação tecnológica (NITs), criados por determinação da Lei de Inovação: avaliar as tecnologias embrionárias surgidas das pesquisas feitas pelas universidades e institutos de pesquisa públicos para que sejam transferidas ao mercado, via licenciamento ou criação de empresas a partir das pesquisas.

O PIT teve um projeto-piloto, dentro da Unicamp, tocado pela Inova em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e o Instituto Inovação, quando 50 alunos foram treinados para fazer investigação tecnológica na universidade. Ao fim desse piloto, a Unicamp e a Secretaria de Desenvolvimento começaram a conversar sobre a expansão do projeto para outras instituições, nascendo assim o PIT, iniciado em março de 2006.

"Precisamos melhorar a qualidade da detecção de viabilidade da transferência do conhecimento produzido na academia para a sociedade, algo que complementa a missão das instituições envolvidas com esse assunto [pesquisa]", destacou o reitor da Unicamp, José Tadeu Jorge. Ele mencionou também o fato de o PIT se voltar para a formação de recursos humanos. "Estamos formando estudantes preparados para se dedicar à questão da inovação e para atuar profissionalmente em um mercado baseado em conhecimento", apontou, na abertura.

"O PIT é um subprojeto das políticas estruturantes para ciência e tecnologia do Estado de São Paulo", contou Sergio Queiroz, coordenador de Ciência e Tecnologia da Secretaria de Desenvolvimento paulista, durante a abertura do Conecta. Professor do DPCT da Unicamp, Queiroz lembrou que universidades e institutos de pesquisa buscam estruturar melhor suas atividades de inovação, por meio dos NITs. Como exemplo, falou da criação do núcleo da Unesp, cujo lançamento ocorreu dia 24 de setembro, em São Paulo, e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), que também está concluindo a formatação do seu NIT. Para ele, o PIT pode ser instrumento para ampliar as possibilidades de troca de informação entre os diversos núcleos recém-criados. "Devemos pensar em como tornar o PIT um projeto permanente, com continuidade, e em formas de aumentar sua abrangência", concluiu.

Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fapesp, ressaltou que o PIT lida com o desafio de criar condições para haver mais atividade de pesquisa e desenvolvimento no meio empresarial. "É importante destacar que a universidade não está abandonando seu compromisso com o ensino e a pesquisa básica, mas está incluindo uma outra atividade estratégica. As coisas não são excludentes, são complementares, uma atividade auxilia a outra", enfatizou, ao falar do esforço de aproximação da academia com o setor produtivo na abertura do seminário.

O diretor-executivo da Agência USP de Inovação, Oswaldo Massambani, apontou durante o seminário os novos marcos regulatórios que podem incentivar as empresas a ampliar seus esforços em P&D e a se aproximar da academia, caso dos fundos setoriais, de linhas de financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), da subvenção para contratação de mestre e doutores, entre outros mecanismos. "É importante capturar essa ciência produzida nos nossos laboratórios e mostrar aos pesquisadores como podem identificar se têm um trabalho patenteável ou que pode gerar uma empresa. O que fazemos no PIT é ter uma ferramenta para identificar essas oportunidades", comentou.

Posteriormente no seminário, em uma mesa-redonda, Elizabeth Ritter dos Santos, coordenadora do Fórum Nacional de Gestores da Inovação (Fortec), destacou o mesmo ponto mencionado pelo reitor da Unicamp e por Massambani, sobre a formação de pessoas para fazer avaliação de tecnologia. "É muito importante a qualificação de recursos humanos para os NITs; esse é nosso calcanhar de Aquiles, pois temos carência de profissionais", disse ela.

Seminário discute o método de investigação tecnológica

O 1º Conecta serviu para que os envolvidos no projeto apresentassem resultados e discutissem a metodologia empregada pelos agentes para a análise do potencial das tecnologias. A metodologia do Instituto Inovação, como explicou Bruno Moreira, executivo da empresa, foi criada em 2004 e vem sendo aperfeiçoada. "A diligência deve ser empregada na fase em que a tecnologia está entre o estágio de pesquisa e de protótipo, vem antes do plano de negócio e é um estudo preliminar", disse.

Uma diligência tem quatro fases. Na caracterização da tecnologia, o agente, aluno que está fazendo a investigação, conversa com o pesquisador para entender do que se trata o projeto e identificar que problema a tecnologia resolve, no que ela é inovadora. Na prova de conceito, o agente procura entender se a tecnologia está aderente ao mercado, ou seja, se o nicho de aplicação vislumbrado para ela realmente é o mais adequado, ou se haveria outras aplicações possíveis que poderiam render maior retorno ao produtor da tecnologia. Na análise de mercado, o agente levanta números do mercado, as empresas atuantes que podem ser concorrentes, estuda as questões de regulamentação, os fornecedores de eventuais matérias-primas, caso necessárias, para produção da tecnologia etc. Na análise de viabilidade econômica, define o tamanho do mercado, quem seriam potenciais clientes, o investimento necessário para viabilizar a tecnologia.

Para discutir como aprimorar a metodologia, os organizadores mostraram três casos de tecnologias que passaram pela diligência: uma da Unicamp, sobre liberação de produtos encapsulados, outra do IPT, a respeito de um catalisador para uso em células a combustível, e a terceira da USP, que propôs a produção de um alimento à base de cupuaçu. Nos dois primeiros casos, os agentes enfrentaram uma dificuldade maior pela falta de dados de mercado e dificuldade de acessar essas informações.

Nathan Young, gerente de operações globais da NEOS, empresa privada chilena que atua na gestão da inovação e promoção de negócios, comentou que a metodologia do Instituto Inovação empregada no PIT se assemelha à que sua empresa desenvolveu. Observou que os relatórios poderiam se ater menos à descrição científica, porque fica difícil entender qual é a oportunidade para determinada tecnologia se a informação é muito técnica. Francisco Perez, diretor de novos negócios do Banco Alfa, elogiou a metodologia, mas recomendou que os agentes sejam mais ousados ao projetar a colocação do produto no mercado.

Roberto Lotufo, da Inova, fez apenas uma ressalva sobre o conteúdo técnico dos relatórios: explicou que o relatório é feito para os gestores das universidades, e não para possíveis investidores e empresas. O documento serve para municiar os agentes, que farão a ponte entre o pesquisador e o investidor ou empresa. "O agente precisa saber do que se trata a tecnologia com mais detalhes para o caso de ter de dialogar com uma pessoa da área de tecnologia ou P&D de uma empresa, que procurará esses detalhes", acrescentou. Ao concluir uma diligência, os agentes têm dois documentos em mãos: um detalhado, para uso interno do NIT, e um 'sumarizado', mais resumido, para apresentação a empresas e investidores.

Outro a fazer comentários sobre a metodologia foi Henry Suzuki, diretor técnico da Incrementha. Ele explicou que os pontos abordados pela diligência são semelhantes ao que a própria Incrementha faz ao prospectar tecnologias. Sugeriu que os agentes partam de algumas questões críticas, aquelas que determinam a continuidade do desenvolvimento da tecnologia ou definem que ela não tem futuro no mercado, de forma a acelerar o processo de avaliação.

Brasil: relação universidade-empresa no contexto internacional

Ruy Quadros, professor do DPCT da Unicamp, apresentou uma palestra no seminário sobre cooperação indústria-universidade e o esforço inovativo, colocando o Brasil no contexto internacional. Com base em números da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ele mostrou que os países escandinavos, como Dinamarca e Finlândia, os asiáticos Japão e Coréia e os europeus Alemanha e Suíça apresentam crescimento consistente no dispêndio em P&D, quando considerado o volume investido em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) dos países, entre os anos de 1995 e 2004. Já Estados Unidos e o grosso dos países europeus apresentam-se em situação estacionária, com tendência de queda.

O pesquisador também identificou que países não membros da OCDE, como Israel e China, demonstram maior crescimento nos investimentos em P&D do que os países integrantes da OCDE. Já o Brasil apresenta índices próximos aos de países como Itália e Espanha, com variação de 0,85% a 0,95% do PIB investido em P&D. Mas os investimentos privados em P&D são apenas 0,35% do PIB, contra 3,26% de Israel, por exemplo.

Olhando os países cujas empresas mais investem nas universidades, Quadros disse ser possível verificar que a distribuição desses recursos não tem relação com o investimento privado em P&D. Entre os países líderes nesse quesito estão Turquia, Hungria, Coréia, Alemanha, Bélgica, Islândia, Canadá, Grécia e Espanha — não necessariamente nações que lideram os investimentos em P&D sobre o PIB ou que estão no topo do ranking quando se observa o investimento das empresas em P&D. "É possível que para esses países o P&D realizado por meio do contrato com universidades tenha um papel diferenciado na criação dos programas de P&D das empresas e no fomento à cultura da inovação", analisou.

No Brasil, continuou o professor, não há estudos que meçam o investimento das empresas em universidades para atividades de P&D, mas a Pesquisa Industrial de Inovação Tecnológica (Pintec), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostra que entre 2001 e 2003 o País tinha 413 empresas inovadoras que afirmavam fazer projetos em colaboração com universidades, número que saltou para 812 empresas entre 2003 e 2005. Ele explicou que, no Brasil, as empresas buscam a interação com universidades mais para solucionar problemas do que para procurar novas oportunidades de negócios por meio da inovação.

Quadros estudou a cadeia automotiva no Brasil e detectou que as empresas desse setor procuram a universidade muito mais para realizar atividades de desenvolvimento e solucionar problemas do que para fazer pesquisa. Ele lembrou ainda que, considerando os dados da Pintec, metade do esforço em inovação no Brasil feito pelas empresas se dá pela compra de equipamentos, ou seja, não implica atividade de P&D. "O peso das universidades no esforço tecnológico das empresas ainda é muito baixo, apesar do interesse crescente pelas parcerias", concluiu. (J.S.)