Notícia

Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Sementes de pau-brasil podem ajudar em tratamentos de doenças

Publicado em 23 novembro 2008

Quatro séculos de superexploração do pau-brasil quase levaram um dos símbolos do País à extinção e ao desconhecimento pela população. Agora uma nova frente de utilização se delineia – e, desta vez, de forma sustentada. Moléculas da planta estão em estudo para que um dia sejam usadas no tratamento de doenças, sem que uma árvore sequer seja cortada.

O machado e o fogo de antigamente foram substituídos, no século 21, por técnicas muito mais delicadas, como a cromatografia líquida e a eletroforese em gel - métodos bastante usados para separar misturas e moléculas em laboratórios.

A matéria-prima é a semente do pau-brasil. Nas mãos de cientistas, essa pequena estrutura, de apenas um centímetro de diâmetro, pode servir de base para futuros tratamentos médicos. Estão envolvidos nesse grupo pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade de São Paulo (USP) e da Faculdade de Medicina da Santa Casa.

Todos os estudos estão em fase inicial e precisam ser aprimorados, tanto para detalhar a eficiência quanto a segurança de sua utilização. Um longo caminho precisa ser percorrido entre o fim das pesquisas e a sua aplicação real, mas os resultados são promissores.

Os pesquisadores já sabem, por exemplo, que uma proteína chamada CeKI apresenta propriedades anticoagulantes e antiinflamatórias. Em testes de laboratório, in vitro e em ratos, a CeKI ajudou na prevenção de coágulos. A proteína também foi eficiente no controle da dor e da inflamação em pelo menos um caso, contra o veneno de um peixe encontrado no Nordeste chamado niquim. A CeKI será agora testada no tratamento do mal de Alzheimer, já que atua como inibidor de uma enzima envolvida na doença, a calicreína. A psoríase (inflamação na pele que provoca escamação) é outra doença que está na mira dos cientistas.

Outro composto também tirado da semente, a proteína CeEI, reduziu edemas pulmonares em coelhos, quando ocorrem inchaço e acúmulo de líquidos nos pulmões. "Esperamos que essas moléculas sejam úteis em tratamentos", afirma Mariana da Silva Araújo, da Unifesp. "E esperamos ser capazes de reproduzir o composto sem que seja necessário retirá-lo da semente, para não agredir a natureza." Nesse sentido, o gene da proteína CeKI já foi clonado, em um passo importante para sua síntese.

Paralela à iniciativa dos pesquisadores de São Paulo, uma equipe da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) relatou, há dois anos, que a brasileína - forma oxidada da substância tirada do cerne do pau-brasil e aplicada como corante - inibiu em 87% o desenvolvimento de câncer em camundongos. E, na década de 1980, uma pesquisa mostrou que o pó do tronco apresenta propriedades anti-sifilíticas.

As novas perspectivas de exploração do pau-brasil investigadas pela ciência se beneficiam da cultura popular. Na medicina do povo, o pó da casca é usado como antidiarréico e amenizador de cólicas menstruais. O chá das folhas combate diabete. Nada ainda com comprovação científica, tudo a ser explorado pelos pesquisadores brasileiros interessados.

Mais conhecimento

Por meio de um projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), que terminou em 2005, um conjunto de dados foi obtido em instituições públicas e particulares. Ele acaba de ser condensado no livro Pau-brasil, da semente à madeira, editado pelo Instituto de Botânica e pela Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo e publicado pela Imprensa Oficial do Estado. "É uma forma de devolver à população o conhecimento sobre o pau-brasil, para quem tem o interesse em conhecê-lo e cultivá-lo", explica a organizadora, Rita de Cássia Ribeiro.

Cientistas de outras áreas, como a botânica, avançam no entendimento sobre a árvore. A intenção não é apenas desvendar um símbolo da história do País, mas garantir sua sobrevivência, para que futuras gerações tenham contato com a planta que deu origem à palavra "brasileiros".

O pau-brasil tem a comercialização restrita por uma convenção internacional, a Cites, e está na lista brasileira de espécies ameaçadas de extinção. Mesmo com essas limitações, se depender dos cientistas, ele em breve voltará a ser reconhecido por quem carrega seu nome.