Notícia

Globo Rural

Semente protegida

Publicado em 01 setembro 2001

Por Janice Kiss
Há dois meses, o IAC - Instituto Agronômico de Campinas lançou a LAC 23, uma cultivar de algodão. Até ai nenhuma novidade para o órgão de pesquisa que desenvolve por quase 70 anos um trabalho de melhoramento genético com essa planta e que já ofereceu ao cotonicultor, ao longo desse tempo, exatamente 23 variedades comerciais. "Faz pane do programa", simplifica Edivaldo Cia, diretor do Centro de Algodão e Fibrosas Diversas. Porém, o melhorista, que atua há 35 anos necessidade de aperfeiçoar tanto as cultivares para que elas se tomassem cada vez mais resistentes às doenças. E que não são nada poucas. Ficam em tomo de 250 segundo a literatura especializada, e 30% delas ocorrem no Brasil. IMPORTAÇÃO E certo que os algodoeiros do mundo todo as recebem de brados abertos, pois tem o dom de atrair uma infinidade de ácaros e insetos que se apoderam de raízes, caules, folhas, botões florais, capulhos e do próprio fruto. Mas, se maior pane da Austrália e dos Estados Unidos, que depois passam a ser multiplicadas por aqui. "Elas são desenvolvidas para se adaptar ao clima, ao solo e se tomar imunes às doenças que ocorrem naqueles países", explica o diretor. Aqui, não apresentam essa mesma resistência As aplicações de inseticidas, prática comum entre os agricultores, são a principal saída para controlar ou prevenir o aparecimento de doenças. No entanto, acarreta a elevação do gasto de produção. O Mato Grosso, por exemplo, que responde por 54% da produção nacional - 900 mil toneladas na safra 2000/2001 -, tem custo avaliado em 1.200 dobres por hectare para frear o ataque do pulgão. Bem mais que São Paulo, onde são gastos entre 700 e 800 dólares. O uso do produto começa logo após a germinação, pois o inseto se instala na planta, deposita seus excrementos e por causa disso deixa a fibra caramelizada. "E como fiar essa fibra?", pergunta o agrônomo Milton Fuzatto, que também participa das pesquisas. No entanto, ele faz coisas bem piores: transmite o vírus da doença azul, que, por sua vez, afeta a nervura da planta provocando deformações ate impedi-la de produzir. Depois de aproveitar a hospedagem mato-grossense, essa virose viajou, também, por Goiás. Minas Gerais e São Paulo. A partir desse exemplo, os agrônomos do IAC insistem no alerta aos produtores para que procurem pela cultivar mais adequada a região onde estão instaladas as plantações "Isso não e auto propaganda", ressalta Fuzatto. RENDIMENTO O material recem-lançado pelo instituto oferece, conforme as análises, produção de 187 arrobas de algodão por hectare (a média de outras cultivares e de 168) e rendimento de fibra em torno de 40%, pouco inferior as demais, que atingem 42,4%; índice que será corrigido na próxima pesquisa E também maior resistência as principais doenças (Veja quadros). Os resultados são fruto de um ensaio nacional realizado em parceria com a Embrapa em 25 experiências instalados em São Paulo, no Paraná, em Goiás e em Minas Gerais. Durante sete anos, foi aplicado um trabalho de melhoramento genético para chegar a esse material. Primeiro, 4 mil plantas passaram por uma seleção onde produção, resistência às doenças e rendimento de filbra, por exemplo, mereceram avaliações. Dessas, menos de 20% correspondiam ao que era desejado e foram plantadas no ano agrícola seguinte (outubro a maio de 1996). Depois de serem submetidas a novas análises, extrairam-se cerca de 50 progênies desse material. Apôs o terceiro ano de plantio e que ocorreu a seleção de apenas cinco linhagens e. a partir daí. houve o cruzamento entre elas para se obter a planta almejada. Os experimentos regionais só tiveram inicio apôs esse processo todo "A probabilidade de ter uma nova cultivar e de 2 por 1.000", compara Edivaldo Cia. E nem sempre se consegue sucesso absoluto. A própria cultivar IAC 23 em algumas limitações; as plantas são altas e, por isso, exigem manejo adequado - uso de regular de crescimento em solos excessivamente adubados - literalmente tombam e são suscetíveis à mancha preta. Como o próprio nome sugere, aparecem manchas de forma circular ou irregular nas folhas. "Mesmo assim, o produtor tem a garantia de que houve um trabalho de melhoramento para que haja adaptação em estados como São Paulo, Paraná. Goiás. Minas Gerais e até mesmo Mato Grosso", acrescenta o pesquisador. COTAÇÃO Como pontos altamente benéficos, ele ressalta que não e necessária adubação pesada, pois as plantas são vigorosas. Além disso, a produtividade média está dentro do índice esperado, que é de 1.200 a 3 mil quilos de fibras por hectare. Cerca de 8 mil quilos da cultivar já estão à venda por 65 reais, o saco de 23 quilos. O diretor do Centro de Algodão entende que as empresas fazem uma Farta oferta de cultivares - há seis anos, a distribuição de sementes nos estados de São Paulo e do Paraná era realizada somente pela Secretaria de Agricultura - e que, muitas veres, o agricultor se deixa desanimar com a cotação do produto no mercado. Por sinal, a mais baixa nos últimos dez anos: 45 centavos de dólar por libra-peso (equivalente a 500 gramas). A média sempre foi de 70 a 80 centavos de dólar. No entanto, ele propõe uma ponderação: "Excesso de economia na compra de sementes nem sempre é a melhor saída". A MORADA DE CADA PROBLEMA Até alguns anos atrás, a maior dor de cabeça dos cotonicultores brasileiros era causada pelo bicudo, a principal praga dos algodoeiros. Hoje, o inseto não está extinto, mas bem contratado, e já não figura como grave figura como grave ameaça. Entre as doenças, contudo, seis ainda provocam grande preocupação. São elas: - Murchamento avermelhado: como o nome sugere, as folhas ficam avermelhadas e viradas para baixo. É comum o murchamento de algumas ou de todas elas, queda ou seca dos órgãos reprodutivos. No caso mais grave, acontece a morte completa das plantas. - Nematóides parasitas que vivem no solo e atacam as raízes das plantas. As que foram afetadas enfim menor desenvolvimento e produção. - Murcha de Fusarium/Murcha de Verticillum: aparece uma coloração marrom típica Resultado da obstrução e escurecimento dos vasos das plantas que podem morrer se o ataque for intenso. A diferença entre as murchas só é feita com o isolamento dos agentes que causam as doenças - Mancha angular as tolhas ficam com lesões de cor verde e, depois, parda, sempre angulosas. Nas variedades mais suscetíveis aparecem também nas hastes das tolhas e nos frutos. - Ramulose: infecção que provoca o enrugamento das tolas e também o super brotamento das plantas. Quando jovens, chegam a abortar as estruturas florais. - Doença azar: vírus que ataca as nervuras das plantas causando deformação. A paralisação da produção é inevitável.