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Diário do Nordeste online

Semânticas do preconceito

Publicado em 02 setembro 2005

Por Laécio Ricardo

Cinema e militância política. O foco: o resgate da auto-estima negra e o combate à intolerância racial. Para Joel Zito Araújo, a neutralidade é uma atitude incompatível com as contradições sociais brasileiras, notadamente as ramificações do preconceito
Cineasta e doutor em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), Joel Zito Araújo não esconde o caráter militante de seus filmes. Realizador contumaz de documentários e diretor de uma única obra fictícia "Filhas do Vento", cartaz da "Mostra da Diversidade" do UCI-Ribeiro (confira resenha), Araújo sempre fez de suas produções um canal de reflexão sobre a condição negra no Brasil, com ênfase no estigma racial.
Seu objetivo é não apenas superar distorções históricas, mas estimular a auto-estima da comunidade negra, minada continuamente pela reprodução da chamada "ideologia do branqueamento". Em entrevista ao Caderno 3, Zito Araújo fala sobre sua cinematografia, a estréia na ficção e os dilemas rac
Para Araújo, é preciso estender o debate racial à sociedade. "Esta questão não é exclusiva do negro. Ela é nacional; aliás, mundial". Acima, cenas de "Filhas do Vento"
Caderno 3 — Sua trajetória cinematográfica está muito vinculada ao documentário. Como se deu a passagem para a ficção, em "Filhas do Vento"?
Joel Zito Araújo - Essa passagem para a ficção não é um abandono do documentário. Eu tenho um enorme encanto por este gênero, mas sempre quis fazer ficção também. Só não fiz antes porque não tinha dinheiro familiar, nem vínculos sociais para captar recursos. O sucesso de "A Negação do Brasil" é que me deu a confiança para alimentar este projeto. Então, esta passagem é um desejo antigo.
— Há algo de autobiográfico em "Filhas do Vento"?
Joel Zito Araújo - Não. Inicialmente ele quase se torna autobiográfico para a Ruth de Souza. Tem inspiração na história dela. Eu sou muito encantado com a Ruth e com a idéia de tornar sua história uma ficção. Mas, à medida em que eu fui construindo o roteiro, percebi que seria muito difícil resgatar tudo. No final, o filme é absolutamente ficcional, mas tem um pouco da história da Ruth, da Léa, da Maria Ceiça, da minha mãe. Há uma série de elementos biográficos, sem nenhuma conexão específica.
— Na edição de 2004 do Festival de Gramado, "Filhas do Vento" foi premiado com oito Kikitos, mas vocês se recusaram a receber o prêmio. O que houve de fato?
Joel Zito Araújo - O Rubens Ewald Filho, então presidente do júri, cometeu um erro que, em algum momento, todos estamos propensos a cometer. Numa avaliação do Festival, publicada em jornal, ele sugeriu que a nossa premiação não foi pelo mérito do filme, mas pela causa racial, uma decisão politicamente correta. Mas isso não é verdade. O filme teve sua première mundial no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque, antes de Gramado, sendo bem avaliado pela crítica norte-americana. Bom, nós ficamos chateados e resolvemos devolver os prêmios. Diante disso, o Rubens se tocou da bobagem que tinha feito, me ligou argumentando que não era racista. Eu falei que ele deveria se retratar, o que seria uma atitude honrada. E foi justamente o que ele fez. Hoje, eu não posso condenar o Rubens, ele incorreu nesta coisa que estamos propensos a fazer, por conta de nossos vícios históricos. Na verdade, o reconhecimento dele foi corajoso.
— Em "A Negação do Brasil", a telenovela é o foco da análise? O que te seduz nesse gênero televisivo?
Joel Zito Araújo - Em 1994, eu ganhei uma bolsa, que me deu a possibilidade de passar seis meses pesquisando sobre os negros na televisão norte-americana. Quando eu voltei pro Brasil, comecei a pensar num projeto semelhante. Eu vi que seria muita coisa e concluí: a novela é o produto dramatúrgico mais assistido no País... Eu sou um cinéfilo, ia ao cinema todos os dias na minha terra, isso eu conto no filme. Havia duas salas e passava tudo lá - é impressionante como mudou o panorama de cinema no Brasil! Mas num determinado momento, eu me vi interessado por telenovelas, graças a "Beto Rockfeller". A partir daí, passei a acompanhar o gênero. Como intelectual, eu fazia parte de uma geração que negava a influência da telenovela, que a percebia como subproduto, que não merecia a atenção da crítica.
— Sempre houve uma resistência dos intelectuais à telenovela, não?
Joel Zito Araújo - Sim, eu quis dialogar com tudo isso. Por outro lado, eu sentia a predominância no cinema documental de sempre falarmos sobre o outro e nunca sobre si. Nós temos essa tendência: os documentaristas de classe média sobem o morro pra falar dos favelados e dos meninos de rua. Mas ninguém vai aos bairros de classe média pra ver o drama da própria classe média. A classe média não está exposta no cinema documental brasileiro, no seu comprometimento com a corrupção, com o tráfico de drogas e de armas. Então, me veio a idéia de discutir a questão do negro na telenovela a partir das minhas memórias, como negro e mestiço, que num determinado momento da vida, teve muitas dificuldades com suas características raciais.
— A novela, então, seria o canal perfeito?
Joel Zito Araújo - A novela me pareceu o canal perfeito. Estudar a telenovela significava a compreensão de um gênero menosprezado. Mas há outro elemento. A telenovela representa aquele momento em que o brasileiro, depois de um dia estafante, senta no sofá da sala para relaxar. Mas é interessante porque, naquele momento em que ele tira todas as proteções, encontra um discurso que interfere na sua identidade, uma vez que ele não se vê retratado.
— Você poderia falar um pouco da pesquisa para "A Negação do Brasil"? Você teve alguma assessoria?
Joel Zito Araújo - Quando voltei dos EUA, fui convidado pelo Jacques Marcovitch, pró-Reitor de Cultura e Extensão da USP, para realizar um documentário sobre mídia e racismo no Brasil. A USP e a Fapesp bancaram a pesquisa inicial, que custou R$ 100 mil. A partir deste dinheiro, eu pude constituir um grupo de oito pessoas, que trabalhou comigo no acervo das emissoras.
Integração racial
— Por que, num período em que se fala de multiculturalismo e de valorização das minorias, estas mudanças são tão tímidas e os estereótipos tão persistentes?
Joel Zito Araújo - Pois é, isso é que é incrível no Brasil. Era aí que eu queria chegar. Em determinado momento, a nossa televisão e a nossa publicidade deixaram de se inspirar nos seus modelos do Primeiro Mundo. O cenário norte-americano de produção audiovisual é profundamente multirracial, a Europa é multirracial. Então, há algum entrave mental no nosso sentimento de colonizado que se recusa a promover esta modernização, reconciliação. Existe esta recusa na cabeça dos autores de telenovela, de produtores, de anunciantes. É como se este passo não pudesse ser dado.
— Este movimento dos estereótipos nas telenovelas parece flutuante. A novela do Miguel Falabella, "A Lua me Disse", tem despertado a ira do movimento negro, homossexual e dos grupos defensores dos direitos indígenas. Ela seria um retrocesso?
Joel Zito Araújo - Eu vejo as declarações do Miguel e acho que ele incorre num problema muito típico do branco. Ele acha que está fazendo alguma coisa positiva, está convencido disso. E ele se apóia inclusive na amizade de algumas pessoas negras. Ele é absolutamente amigo da Chica Xavier, tem o maior respeito por ela. No entanto, o que vejo na novela, é que o Miguel traz ali uma visão estereotipada do negro. Faço uma pergunta: por que ele adora personagens tão elitistas e arrogantes como o personagem da Débora Bloch? Por que são tão queridos por ele? E são tão repetidos na sua ficção! A resposta, pra mim, é porque o Miguel como autor mostra uma cisão no seu inconsciente. Ele está absolutamente seguro de que está fazendo uma coisa boa, positiva; no entanto, do ponto de vista da auto-estima de negros, índios e homossexuais, ele está fazendo uma coisa profundamente negativa.
— "A Negação do Brasil" fala sempre do "branqueamento" cultural, do esforço nacional para "clarificar" a população, muito forte entre 1880 e 1940. Por que essa ideologia permanece tão arraigada no imaginário brasileiro?
Joel Zito Araújo - Essa idéia já foi uma política oficial do Estado. A elite brasileira, o governo brasileiro, o Estado brasileiro proibiu, ao final da escravidão, a entrada de negros no Brasil. Isto persistiu como proibição até Getúlio Vargas. E o Estado promoveu uma enorme onda de imigração vinda da Europa com a intenção explícita de branquear o Brasil. Essa coisa, portanto, já foi um discurso oficial, que desapareceu - hoje, nenhum político vem a público defender o branqueamento do Brasil! Só que esta coisa se enraizou como cultura. E curiosamente persiste na produção audiovisual, no cinema brasileiro e na telenovela. Quer dizer, na produção audiovisual do Brasil, a estética é toda vinculada a esta idéia da superioridade do branco. E isto se tornou uma espécie de "última fronteira" que não pode ser superada.
— Gilberto Freyre via diferenças entre a escravidão no Brasil e nos EUA e afirmava que o preconceito racial lá era maior. Ele não nega a existência de problemas raciais no Brasil, mas argumenta que, aqui, a classe social seria um elemento de distinção e segregação mais evidente do que a cor. Ou seja, aqui haveria mais preconceito de classe do que de cor. Você concorda com essa análise?
Joel Zito Araújo - Não, não concordo. Tem coisas do Gilberto Freyre que concordo, a natureza da nossa colonização é muito diferente da natureza da colonização norte-americana. E a colonização portuguesa precisou da miscigenação como estratégia política, uma necessidade histórica. Agora, não é verdade que o intercurso sexual, que a miscigenação tenha diminuído os preconceitos. Esta estratégia não tinha como objetivo construir um País novo, uma democracia racial. Tanto que os negros, até hoje, ocupam os piores postos no mercado de trabalho. Negros, índios, nordestinos que migram para o Sul, sobretudo aqueles que possuem o fenótipo da região e sofrem uma discriminação étnica. Já a discriminação com os negros é mais racial, definida pela cor da pele. Do meu ponto de vista, considero que Gilberto Freyre, no seu tempo, foi um passo além dos pensadores que escreviam sobre o Brasil. Mas seu pensamento ainda é da casa-grande, senhorial, conciliador e, não, de valorização da diferença.
— O movimento negro é hoje suficientemente organizado e ciente de seus direitos?
Joel Zito Araújo - O movimento negro no Brasil hoje é muito diferenciado. Quando se fala de movimento negro, a gente fica com a impressão de uma coisa muito articulada, muito orgânica. Que debate e tem teses comuns. Essa não é muito a realidade do movimento negro hoje. O movimento hoje é muito mais ativo e presente, no sentido de que tem uma diversidade de agentes que concordam com a idéia da negritude e concordam com a idéia da promoção de políticas de reparação. Eu não sou militante do movimento negro, mas tenho enorme simpatia e parceria em muitas idéias. Eu me sinto parte de uma geração que tem um olhar racializado sobre o Brasil e isto é o que nos aproxima. Olhar racializado significa: nós somos um País multirracial, sou a favor da miscigenação. Não consigo imaginar a construção de um País democrático sem a possibilidade de miscigenação. Ela implica no rompimento de barreiras. Acho que o grande problema do Brasil é a enorme ênfase na valorização do componente branco como modelo estético, de cultura, de refinamento. Há uma extrema valorização de uma Europa que não existe mais como padrão de Primeiro Mundo, de um lugar onde não havia negros, nem multicultura. Algo absolutamente incompatível com a Europa contemporânea. Ou seja, esta idéia permanece aqui, quando ela já foi superada lá.
— Com relação ao racismo, até que ponto os negros não introjetam/internalizam o preconceito, contribuindo para sua reprodução?
Joel Zito Araújo - Existe uma enorme internalização do preconceito. Você não constrói uma sociedade hierárquica, em que os subalternos são negros, índios e mestiços, sem conseguir incutir esta superioridade, a hegemonia do seu pensamento. Então, a realidade ainda é, até hoje, que a grande maioria dos negros brasileiros têm um enorme problema de auto-estima. Mudar isso é o grande papel do movimento negro, dos artistas e intelectuais negros. Ou seja, reverter este processo. Mas eu acho que um jovem branco, que desde criança tem sua estima hiper-elevada, vai ter tanto problema quanto o negro que tem sua estima rebaixada. Porque essa pessoa vai sempre olhar o outro como inferior, vai ser arrogante, provavelmente terá desprezo pelo seu País. Enfim, será um projeto falido de ser humano. Estou interessado em discutir a questão racial com a sociedade brasileira, porque esta questão não é exclusiva do negro. Ela é uma questão nacional, aliás, mundial.
— "Filhas do Vento" foi rodado com um grande elenco de negros. A revista "Raça" só admite repórteres afro-descendentes em sua redação. Até que ponto este tipo de atitude desperta a auto-estima de grupos estigmatizados ou cria novas formas de preconceito e segregacionismo?
Joel Zito Araújo - Eu acho que no Brasil não. Porque o Brasil tem uma tradição de desconhecer esta demanda histórica da população negra. Aqui nós precisamos incentivar a auto-estima negra e incentivar a criação de uma classe média negra. Não se trata de segregacionismo. Eu não parto deste princípio. Eu defendo e conheço muita gente que defende um olhar multirracializado do Brasil. Não existe em nenhum discurso do movimento negro brasileiro, em nenhum lugar, um pensamento separatista, como houve nos EUA, por exemplo. A sociedade norte-americana não acredita neste "casamento", ela se vê separada, ela é compartimentada. Mas nós temos o desejo da integração racial. No entanto, esta integração, por conta destes vícios que permanecem na cultura, não se realiza na prática. Diante da realidade, todas essas políticas, do tipo uma revista negra ou cota pra negros na universidade, não são separatistas, mas de integração. No fundo, o desejo do negro brasileiro foi sempre o de ser reconhecido, de não ser invisível, de ser respeitado. Se nós queremos ser um País integrado, nós temos que constatar a raça. Este é o papel do meu cinema, o orgulho da nossa africanidade. O brasileiro, e isso envolve todos os grupos, tem que olhar pra trás e dizer: eu tenho orgulho disso.