Notícia

Jornal da Ciência online

“Sem um forte investimento em CT&I, a produtividade do Brasil não vai crescer”

Publicado em 10 março 2017

“Ciência e Inovação em São Paulo e no Brasil: a atuação da Fapesp e os desafios do Brasil” foi o tema de conferência ministrada por Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), e Carlos Américo Pacheco,  diretor-presidente do Conselho Técnico-Administrativo (CTA) da Fapesp. O debate marcou o primeiro dia do Fórum do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) em São Paulo, realizado ontem (09), na sede da Fapesp.

Para Pacheco, que fez um balanço do cenário brasileiro, o Brasil tem se distanciado dos outros países e aumentado seu gap tecnológico em relação ao mundo. Tanto, que a produtividade do País de 1990 a 2014 cresceu apenas 4%, apontou. “É absolutamente impossível conseguir atingir uma trajetória sustentável de crescimento sem que a produtividade do País cresça. Não é possível gerar bons empregos e bons salários com baixa produtividade”, afirmou.

Segundo ele o fator determinante para o crescimento da produtividade é a inovação tecnológica, que demanda um forte investimento não só nessa área, como também em ciência e tecnologia.  No caso do Brasil, isso poderia melhorar caso o gargalo burocrático fosse reduzido e os financiamentos facilitados, sugere. “Temos um sistema nacional de inovação relativamente complexo, com pontos fortes e fracos. Mas ainda temos dificuldades e resultados insatisfatórios em ciência. Se no médio e longo prazo não tivermos investimentos, não haverá aumento de produtividade”, afirma.

Na avaliação do diretor-presidente do CTA da Fapesp, a  produtividade é um fator decisivo tanto para os países desenvolvidos como para os em desenvolvimento. “E sem um forte investimento em ciência, tecnologia e inovação, a produtividade do Brasil não vai crescer”, afirmou.

O esforço nacional em pesquisa e desenvolvimento (P&D), entretanto, ainda é baixo, em comparação com outros países, situação que foi agravada pela recente crise econômica do País.

De acordo com Pacheco, os dispêndios públicos e privados em P&D no Brasil caíram nos últimos três anos e voltaram ao patamar de 1% em relação ao Produto Interno Bruto (PIB). “Já havíamos chegado a 1,2% do PIB e há 15 anos os dispêndios eram de 1,1%. Agora regrediu, enquanto vários outros países têm avançado e definido metas mais ambiciosas para aumentar seus gastos em P&D”, comparou.

Um dos fatores que explicam essa retração, de acordo com Pacheco, foi a forte queda da participação da indústria no PIB brasileiro – que representa a principal fonte de dispêndio em P&D no País. “Essa queda contribuiu para jogar para baixo os indicadores privados”, disse.

Em sua opinião, as fundações de amparo à pesquisa estaduais (FAPs) desempenharam um papel bastante relevante para manter o apoio à ciência e à tecnologia no Brasil. “As FAPs são responsáveis hoje por entre 20% e 25% do fomento a projetos de pesquisa no Brasil”, ressaltou.

Na opinião de Brito Cruz, a economia brasileira não contribui para que as empresas invistam em inovação. “As empresas têm que ser atores decidindo o jogo, e elas querem ser e ter razões para inovação, mas as condições da economia brasileira não favorecem que façam isso”, disse.

Outro ponto destacado por ele é que é preciso aumentar a cooperação internacional e nacional. “O Confap tem desempenhado um papel importantíssimo nesse sentido ao estimular a cooperação entre as FAPs e incluir projetos colaborativos entre elas em seus acordos de cooperação internacional”, avaliou Brito Cruz.

Brito Cruz também ressaltou que a internacionalização é um assunto importante e que não deve ser ignorado.  Mas para isso, é preciso aumentar a interação entre governo, empresa e organizações; melhorar a estratégia nacional ouvindo as regiões para que haja uma orientação nas prioridades, já que mais inovação, pesquisa competitiva e inovação baseada em pesquisa em empresas estimula a pesquisa básica.

Para o diretor científico da Fapesp, garantir os alicerces de pesquisa básica é fundamental para o desenvolvimento do País.  “Pesquisa básica competitiva facilita a inovação em nível mundial. E precisamos fazer pesquisa de impacto”, finalizou.

Fapesp

Durante sua apresentação, Brito Cruz apresentou alguns dados sobre a Fapesp e ressaltou que a Fundação, em 2016, analisou 25 mil propostas de pesquisas e o tempo médio de decisão são de 65 dias. O dispêndio no ano passado foi de R$ 1,2 bilhão em bolsas no País e no exterior.

“A Fapesp atua em diversas frentes. Cerca de 30% das pesquisas apoiadas pela Fundação são em saúde e 17% em biologia. Mas, também há pesquisas nas áreas sociais, em políticas públicas,  programas de pesquisas em bioenergias, entre outras”, disse.

Ele apontou vários programas de incentivo da Fundação, dentre eles, o Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas empresas (PIPE) da Fapesp, para estimular a criação de Cultura, Inovação Permanente.  “Ano passado foram quase 240 projetos novos no PIPE em empresas distribuídas no Estado de São Paulo”, disse.

Vivian Costa – Jornal da Ciência