Notícia

Jornal da USP

Sem tempo para a moderação

Publicado em 16 novembro 2008

O Workshop Internacional Avaliação do Relatório Stern, realizado no dia 3 no auditório da Fapesp, em São Paulo, com a presença do economista Nicholas Stern, serviu para destacar o que já vem sendo divulgado por alguns especialistas do clima: os países em conjunto, e especialmente os desenvolvidos, deverão cortar suas emissões de gases cio efeito estufa (GEE) a um patamar bem maior do que o previsto nos modelos mais moderados do mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em 2006 e revisado em 2007.

Coordenador de um estudo de 700 páginas publicado em 2006 e encomendado pelo governo britânico para avaliar os impactos econômicos advindos das mudanças do clima, Stern ressaltou ainda que as crises econômicas como a vivida pela atual conjuntura internacional devem servir de aprendizado e não ofuscar o debate sobre o clima. Ao contrário, é premente que prossigam os investimentos em medidas mitigadoras e de adaptação às mudanças climáticas, apesar das crises. Isso porque os custos da não-ação seriam muito mais penosos ao PIB global do que a adoção das necessárias medidas adaptativas. Para Stern, a atual crise financeira mundial deverá ser um dos temas a balizar os debates da próxima Conferência Mundial sobre Mudanças Climáticas e Aquecimento Global, que se realizará em novembro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca.

Ex-economista-chefe e ex-vice- presidente sênior do Banco Mundial, Stern previu em seu relatório de 2006 que seriam necessários investimentos de 1% a 2% do PIB global por ano para o planeta alcançar as metas propostas pelo IPCC de estabilização das emissões, algo em torno de 550 partes por milhão (PPM) de CO2 até 2050. Com investimentos de 1% do PIB global, seria possível evitar perdas pelos efeitos climáticos da ordem de 20% do PIB mundial em 50 anos. Ao contrário, nos próximos anos, a não-ação por parte dos governos poderia reverter em custos de 5% a 20% ao ano do PIB mundial.

Porém, em seu novo estudo, feito na London School of Economics and Political Science, onde é professor. Stern admite que os efeitos do clima sobre as economias foram subestimados no relatório de 2006. Se os custos econômicos das mudanças climáticas foram subestimados, tampouco a ciência possui a real dimensão dos efeitos das mudanças do clima sobre o planeta. "Nem mesmo os cientistas previam que alguns efeitos poderiam ser observáveis em tão pouco tempo, como o derretimento das calotas polares. Além disso, o próprio relatório do IPCC ressalta que em suas previsões havia riscos ignorados. A capacidade dos oceanos de absorção de CO2, por exemplo, é menor do que haviam previsto e muitos efeitos têm ocorrido mais rapidamente que o esperado", observou Stern.

Sendo assim, em vez de uma redução de 50% das emissões até 2050, Stern propõe que os países ricos reduzam 80% de suas emissões dos GEE até aquela década, ao passo que as nações emergentes devem concordar em estabelecer cronogramas c metas de cortes até 2020. Para Stern, perdeu-se muito tempo falando em mitigação e, mesmo com o corte de 80% das emissões, os efeitos econômicos das mudanças do clima serão inevitáveis.

Acordo global — Stern propõe que as causas e as conseqüências das mudanças climáticas só poderão ser combatidas através de uma ação coletiva internacional, a que chamou de “acordo global”. Mas, antes que esse acordo seja feito, os governos locais não devem prescindir de políticas de mitigação e adaptação. Num acordo global, alguns dos instrumentos para mitigação dos impactos climáticos deveriam ser baseados numa nova precificação do carbono, feita via mercado, taxação ou regulamentação.

O economista também falou da importância vital da eficiência energética na busca pelo equilíbrio das emissões dos GEE. Segundo Stern, a eficiência energética tem sido uma das maiores fontes de geração de energia, além das tecnologias mais limpas e do comportamento mais responsável das sociedades.

Entre os especialistas presentes no debate, o pesquisador do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e co ordenador executivo do Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais, Carlos Nobre, concorda que as metas estabelecidas pelo mais recente relatório do IPCC podem estar aquém do necessário para amenizar os riscos ao planeta.

“A data-limite de fechamento dos artigos revisados do mais recente relatório do IPCC foi maio de 2006, o que significam dois anos e meio de tem tremendo avanço científico sobre os riscos que estamos correndo. O IPCC chama a atenção para o fato de que muitas coisas não foram consideradas nos modelos. Além disso, os riscos sistêmicos a que esta mos submetidos são muito maiores que os previstos, por exemplo, as calotas polares estão derretendo muito mais rapidamente do que previam os modelos mais pessimistas. Tudo isso nos leva a crer que os limites para minimizar os riscos ao planeta não podem mais ser na faixa de 500 ppm, e assim, a estabilização deverá ocorrer numa faixa de 350 a 400 ppm”, afirmou.