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EcoAgência

Sem solução simples

Publicado em 12 março 2007

Por Washington Castilhos

Pesquisador da Embrapa afirma que acordo do Brasil com Estados Unidos para produção do Etanol não será bom se o país virar um grande canavial.

Rio de Janeiro, RJ - Na semana passada, os presidentes dos Estados Unidos, George W. Bush, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, assinaram um memorando de cooperação tecnológica para a produção de biocombustíveis, como o álcool e o biodiesel.

A idéia é que os dois países ajudem a democratizar o acesso aos biocombustíveis e a ter um mundo menos poluído no futuro. O assunto foi discutido por especialistas de diferentes áreas, reunidos no Rio de Janeiro no 1º Simpósio Brasileiro de Mudanças Ambientais Globais, que termina nesta segunda-feira (12/3). O encontro é promovido pela Academia Brasileira de Ciências, pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) e pelo International Geosphere-Biosphere Programme (IGBP).

"O acordo para o uso da tecnologia do álcool nos Estados Unidos é uma ótima oportunidade para o Brasil, que irá vender tecnologia. Mas não será bom se o país virar uma grande monocultura de cana-de-açúcar por conta desse acordo", avaliou o engenheiro agrônomo Eduardo Assad, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa).

Segundo ele, a produção da cana-de-açúcar em larga escala poderá resultar em graves impactos sociais e ambientais. "Pensando-se somente no ponto de vista energético e econômico pode-se ter conseqüências ambientais sérias", disse em entrevista à Agência FAPESP. Para o pesquisador, é importante avançar na bioenergia, mas sem dissociar o etanol e o biodiesel.

Agência FAPESP - Como o sr. avalia, do ponto de vista agropecuário, o termo de cooperação tecnológica entre Brasil e Estados Unidos para a produção de biocombustíveis?

Eduardo Assad - Não existe solução simples. O acordo do uso da tecnologia do álcool nos Estados Unidos é uma ótima oportunidade para o Brasil, mas, a partir daí, temos de pensar se queremos transformar o país em um grande canavial. Não podemos correr o risco da monocultura. Esse acordo já deveria ter sido assinado há 30 anos, mas o etanol tem que ser pensado e discutido junto ao biodiesel, sem dissociar um do outro. O biodiesel é um combustível produzido a partir de óleos vegetais extraídos de diversas matérias-primas, como palma, mamona, soja, girassol, dendê e algodão, entre outras. O leque de recursos naturais no Brasil é muito grande. Temos que produzir cana-de-açúcar, mas não somente usá-la como uma oportunidade de mercado. É necessário levar em conta os aspectos da adaptabilidade e mitigação. Por que plantar cana-de-açúcar em regiões onde se cultiva o dendê, por exemplo?

Agência FAPESP - Quais as regiões mais propícias para o cultivo da cana-de-açúcar? Fala-se em aproveitar terras não cultivadas na Amazônia e no Pantanal?

Assad - A primeira questão a se avaliar é a aptidão da região. Nem todas as regiões estão prontas para o plantio da cana-de-açúcar. São Paulo e Pernambuco são os Estados onde mais se planta. Tocantins, Goiás e o sul do Maranhão também têm condições climáticas favoráveis. Por outro lado, o Pantanal é uma região de regime climático frágil. Mesmo coberto de rios, conta com uma deficiência hídrica muito grande. Já a Amazônia precisa desse déficit hídrico. É uma região onde há excesso de água e altas temperaturas e muita umidade, características que também dificultam o cultivo da cana. O excesso de umidade reduz a produção de sacarose.

Agência FAPESP - A questão da mudança climática e o superaquecimento do planeta são fatores importantes e que devem ser levados em conta?

Assad - Já existe um acordo entre o Ministério da Agricultura e a Casa Civil no sentido de fazer o zoneamento de risco climático do cultivo da cana-de-açúcar no Brasil. Esse zoneamento, no entanto, não tem levado em conta a questão da mudança climática. Mas temos que incorporar essa discussão para saber, por exemplo, até quando a cultura da cana será sustentável. O aquecimento global já chegou a 1 grau. O problema é saber quando vai atingir os 3 graus.

Agência FAPESP - Mas, do ponto de vista econômico, o Brasil não está fazendo um bom negócio?

Assad - Sim, mas temos de pensar nos impactos que as culturas vão trazer do ponto de vista econômico, social, ambiental e energético. Pensando-se somente no energético, pode-se ter conseqüências ambientais sérias.

Agência Fapesp