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Jornal Tijucas

‘Sem querer’, brasileira entra em pesquisa sobre coronavírus na Itália

Publicado em 20 março 2020

Por Thiago Amâncio | Folha de S.Paulo

Cientista foi ao país estudar zika antes de estourar crise e viu sua rotina mudar

A cientista Rafaela da Rosa Ribeiro, 32, foi para a Itália no ano passado como parte da sua pesquisa do vírus da zika. Nesse meio tempo, o país foi assolado pela epidemia do novo coronavírus e ela viu sua rotina e sua pesquisa mudarem drasticamente.

Ribeiro agora está no centro de importantes pesquisas na Itália, coordenadas por uma das maiores especialistas em coronavírus, Elisa Vicenzi.

Em uma delas, estuda células de morcegos. “Eles são os principais reservatórios da família dos coronavírus na natureza, mas não ficam doentes. A gente vai tentar entender esse mecanismo e, quem sabe, eventualmente descobrir alguma coisa que o morcego tenha que se possa usar terapeuticamente”, explica Ribeiro.

O outro projeto vai verificar se o vírus atinge ou não o sistema imunológico. “Tudo que a gente conseguir saber do coronavírus agora é importante. Que tipo de órgãos e tecidos atinge, como se relaciona. É importante entender o panorama de infecção”, afirma.

Mas nada disso estava previsto quando ela chegou a Milão, há mais de nove meses.

Rafaela da Rosa Ribeiro em laboratório em Milão, país onde ela estuda o novo coronavírus – Arquivo pessoal

Rafaela da Rosa Ribeiro é bióloga, doutora em biologia celular e estrutural pela Unicamp e faz pós-doutorado no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, com bolsa da Fapesp (agência paulista de fomento à ciência).

Chegou a Milão no meio de 2019 para ficar um ano pesquisando de que maneiras o vírus da zika infecta as células do sistema nervoso.

“No meio dessa história, veio o surto de coronavírus na China. E descobri que a doutora Eliza Vicenzi era especialista em coronavírus e fez parte do segundo grupo no mundo que sequenciou o vírus da Sars, em 2003”, conta.

“Ela começou a dar palestras, começamos a discutir papers. Mas nunca imaginamos que chegaria a essa situação que chegou, era uma coisa muito longe. Pensamos que ou ia se conter à China, ou, se se espalhasse, seriam casos não comunitários, de gente que contraiu lá e viajou.”

“Cientificamente, foi gratificante estar aqui nesse momento, se é que posso dizer assim. Estar no segundo país mais afetado e estar num grupo que a coordenadora é uma grande especialista no assunto”, diz.

Agora, a vida de Rafaela virou de ponta-cabeça.