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Sem investimento na ciência e indústria nacional, estrangeiras lucram com nossa biodiversidade

Publicado em 21 outubro 2021

Pesquisa da UnB sobre reagente que mata mosquito da dengue está sob risco 

Com falta de investimento nacional, governo federal permite que indústrias farmacêuticas estrangeiras lucrem com remédios que saem da biodiversidade brasileira e ao promover cortes e mais cortes na Ciência e Tecnologia, Bolsonaro compromete a produção de conhecimento e a possibilidade de desenvolvimento da cura de diversas doenças.

Reportagem do Fantástico , da TV Globo, no último domingo, escancarou a crise da pesquisa e da indústria de fármacos nacional. Logo no início, os espectadores tomam conhecimento que foi da peçonha da jararaca brasileira que saíram dois dos remédios mais vendidos do mundo contra a hipertensão e problemas cardíacos, o Captopril e o Enalapril, mas quem detém as patentes desses remédios são indústrias estrangeiras, que faturam o equivalente a R$ 55 bilhões por ano com a venda somente desses remédio. Esse valor representa nove vezes o orçamento do Ministério da Ciência e Tecnologia, em 2021, que foi de R$ 6 bilhões.

Segundo o pesquisador paraibano, Emerson Queiroz, da Universidade de Genebra, há mercado e matéria prima de sobra o que falta para a biodiversidade brasileira se converter em riqueza que fique no Brasil é ‘estratégia’. “Educação é estratégia, desenvolvimento de tecnologia e capital humano é estratégia. São estratégias para um país se desenvolver”, afirmou em entrevista ao Fantástico.

Emerson Queiroz trabalha na Suíça há dez anos e foi convidado pela renomada revista científica alemã ‘Planta Médica’ para coordenar uma edição especial sobre a biodiversidade brasileira e afirmou: “Os meus amigos alemães ficaram muito surpresos porque não imaginavam que iam encontrar aquele nível de pesquisa sendo realizada no Brasil”, todos em universidades públicas.

Assim como Emerson, a pesquisadora Laila Espíndola, da Universidade Federal de Brasília, também trabalha a partir da biodiversidade brasileira.

Durante 23 anos, Laila Espíndola estudou na UnB as substâncias que plantas do Cerrado produzem para se defender, inclusive contra insetos. Daí veio a ideia de derrotar um grande inimigo da saúde pública no Brasil, o mosquito Aedes.

Números do Ministério da Saúde mostram que este ano, só até o fim de agosto, 465 mil brasileiros caíram de cama com dengue, 79 mil com chikungunia e 4.300 com zika vírus. Mas o número de doentes pode ser muito maior. Num boletim do ano passado o Ministério da Saúde admitia a subnotificação. Ocupadas com covid-19, as equipes não conseguem levantar todos os casos das doenças transmitidas pelo Aedes, para as quais não existem vacinas.

Prefeituras e governos fazem o que podem com o fumacê que é caro e ineficiente, pois só matam o mosquito adulto. “Esses produtos costumam não ser seletivos, serem muito tóxicos não só para o ser humano, mas também para a natureza”, afirmou Laila.

Porém, a força tarefa chefiada pela professora e pesquisadora da UnB com cientistas de várias universidades tirou das plantas do Cerrado o primeiro inseticida do mundo que só mata o aedes aegypti. E mata não só o mosquito adulto, mas também o ovo e a larva. “Vai no alvo, vai para poder matar larva, sem matar o resto que está no local onde aquela larva está, sem matar peixe ou outros seres vivos que estejam ali dentro”, explicou a pesquisadora.

Já em fase final, a pesquisa será entregue ao Ministério da Saúde ainda este ano. Existe a possibilidade concreta do Brasil se ver livre de um problema crucial a partir de uma produção saída do laboratório da UnB.

Mas mesmo tendo a maior biodiversidade do planeta, excelentes pesquisadores, o Brasil fatura muito pouco. As farmacêuticas estrangeiras é que fabricam remédios com moléculas brasileiras. Em toda a história só desenvolvemos dois medicamentos 100% nacionais: um anti-inflamatório e um remédio contra impotência.

“É muito pouco. Sabe a gente não precisa depender de tudo de fora a gente tem competência instalada para fazer isso. Ciência é o que dá soberania nacional”, afirmou a Doutora em Ciência e professora titular do departamento de Farmacologia dos Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, Letícia Lotufo.

Segundo a pesquisadora, “a universidade não tem condições de pagar a conta do desenvolvimento de um medicamento. Ela precisa do parceiro da indústria e a indústria brasileira precisa ter perna para financiar uma pesquisa de um risco desses, então isso é uma política de Estado”.

Mas o governo nem financia a indústria nacional, nem dá mais dinheiro para as universidades. Pelo contrário, corta o orçamento do CNPq, a principal agência de fomento à pesquisa. O orçamento que era de R$ 2,7 bilhões, em 2014, e já não era grande, foi caindo a menos da metade durante o governo Bolsonaro. O orçamento do CNPq, em 2021, é de R$ 1,2 bilhão.

Parte do dinheiro do CNPQ vinha do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT), que perdeu 92% de seus recursos este mês de outubro. O corte de 600 milhões de reais foi aprovado pelo Congresso Nacional a pedido do governo federal, pelo Ministério da Economia. Integrante do governo, o ministro da Ciência e Tecnologia Marcos Pontes chegou a protestar numa rede social, mas recuou. O corte foi mantido e com isso, pesquisas que precisam de dez, 15 anos para serem concluídas podem parar.

“Se você tem a quebra do financiamento no meio de um projeto que você tem resultados importantes promissores a pesquisa acaba”, afirmou Adriano Andricopulo, diretor da Academia de Ciências do Estado de São Paulo (ACIESP), coordenador de transferência de tecnologia do CIBFar-CEPID/FAPESP e coordenador científico do INCT-BioNat.

“O tempo da política é diferente do tempo da pesquisa. Então a gente precisa de programas estratégicos que durem”, afirmou Emerson Queiroz, pesquisador da Universidade de Genebra.

O caso dos jovens cientistas é dramático. Este ano o governo só pagou uma de cada dez bolsas de doutorado e pós-doutorado aprovadas no CNPq.

Braço direito da professora Letícia, na USP, Bianca não sabe o que fazer. “Meu sonho realmente é poder ser pesquisadora no Brasil e eu tenho muito orgulho daqui também sabe. Seria frustrante ter que ir embora. Com certeza ficaria um pouco ressentida de não poder desenvolver meu trabalho aqui”, afirmou a jovem pesquisadora.

A falta de investimento do governo federal obriga que a corrente de transmissão do conhecimento que é passado de um grande mestre para o seu discípulo seja rompida. “Como se alguém mais velho que você pegasse pela mão com uma tocha numa floresta escura. Quando você interrompe esse elo tudo isso é perdido, tudo desmorona”, disse Emerson.

“Só há uma solução para a humanidade que é entender a natureza se não entender nós estamos fadados ao fracasso absoluto”, disse o pesquisador professor titular da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto USP, Paulo Cesar Vieira.

 

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