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Sem furos! Brasileiro cria sensor que mede pressão dentro da cabeça

Publicado em 21 setembro 2020

Por Carina Brito | Colaboração para Tilt

Graças a um físico brasileiro, a medicina conta hoje com um método que permite o monitoramento da pressão dentro do crânio sem que seja preciso fazer um furo na cabeça —um procedimento conhecido como craniotomia—, mas por meio de sensores.

 

A nova tecnologia é resultado de anos de pesquisa lideradas pelo físico Sérgio Mascarenhas, pós-doutor em física pela Universidade Carnegie Mellon (EUA). E no ano passado recebeu certificação tanto da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) quanto do FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos, a Anvisa dos EUA) para ser comercializada.

 

Para fazer a medição, um sensor é encostado na cabeça do paciente como se fosse um cinto e capta as informações que são enviadas para um tablet, via Bluetooth, em forma de curva da pressão intracraniana. A análise permite detectar a existência de problemas neurológicos e definir diagnóstico, ajudando em casos de hidrocefalia, AVC (Acidente Vascular Cerebral), hipertensão arterial, meningite, traumas e outros.

 

O aparelho é comercializado pela startup brasileira brain4care e, segundo informações disponíveis no site, teve como primeiro cliente o Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, um dos mais importantes do país. Hoje é usado em mais de dez empresas de saúde em São Paulo e no Rio de Janeiro, tanto em hospitais quanto em clínicas, e está em implementação em mais de 20 hospitais.

 

A solução é comercializada em forma de comodato, ou seja, há uma assinatura mensal de R$ 3.500 para o seu uso, independente do número de vezes que ele foi usado ou de pacientes.

 

Como a tecnologia surgiu?

 

A ideia de criar um sistema diagnóstico menos invasivo surgiu quando Mascarenhas foi diagnosticado com hidrocefalia (doença caracterizada pelo acúmulo de líquidos na cabeça), em 2005.

 

Para ele, não fazia sentido que a única maneira de monitorar a pressão dentro do crânio fosse por meio de um orifício na cabeça. Então decidiu iniciar pesquisas para desenvolver um método menos invasivo.

 

"A minha doença me induziu a propor solução não-invasiva que parecia impossível aos

neurocirurgiões. O princípio de Monro-Kellie estava presente há séculos na cultura

médica", conta o físico.

 

O pulo do gato de Mascarenhas foi que, enquanto se pensava que a estrutura do crânio

era totalmente rígida, ele identificou é expansível e possível de ser medida do lado de

fora. Para isso, se inspirou nos seus colegas engenheiros que monitoravam vigas de

construção por meio de chips —mesmo sendo estruturas bem duras. Então por que não

usar um sensor do lado de fora para monitorar a deformação do crânio? Foi o que ele fez.

 

Startup quer tecnologia no Samu, nas UTIs

 

Além de já estar sendo usada em hospitais e clínicas em São Paulo e no Rio de Janeiro, a

tecnologia está presente em centros de pesquisa de universidades como USP

(Universidade de São Paulo) e Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).

 

"Certamente já monitoramos mais de mil pessoas com esse equipamento", diz o

executivo-chefe da brain4care, Plínio Targa.

 

Segundo a empresa, a tecnologia não depende de uma infraestrutura maior para ser

aplicada. Ela pode ser acessada por aplicativo, por isso seria possível usá-la fora de um

hospital, como em um atendimento de um acidente de carro ou dentro de casa com um

paciente com hidrocefalia.

 

Targa afirma que o próximo passo da empresa é levar o método para a comunidade

médica que está nas UTIs (unidades de terapia intensiva), nos centros de urgência e nos

atendimentos neurológicos. "Focamos nessas estruturas hospitalares em que essa

informação é relevante e que pode salvar vidas de uma maneira muito rápida", afirma

Targa.

 

Formado em engenharia de Produção, o executivo se envolveu no projeto em 2015 como

investidor anjo da empresa e para ajudar a construir um plano de negócio. Até então a

iniciativa era comandada por cientistas.

 

Do Brasil para o mundo

 

Em 2019, a brain4care teve o aval da agência reguladora norte-americana FDA e logo

deverá ser comercializada nos EUA. A startup já fazia pesquisas na Universidade de

Stanford, na Califórnia, usando a tecnologia.

 

"Ainda não estamos comercializando nos Estados Unidos mas estamos incentivando

muitos centros de pesquisa para utilizarem a solução para fazer descobertas e publicálas", diz Targa.

 

Para Mascarenhas, é um grande motivo de orgulho ele ter começado um projeto que está

mudando tantas vidas e chegando até a outras partes do mundo. "Isso mostra que sem

equipe acadêmica e empreendedores apaixonados não há legados sociais", afirma.