Notícia

A Tribuna (Santos, SP)

Sem cabeça, mas no coração

Publicado em 26 outubro 2005

Por Waldemar Tavares Jr.

No dia 5 último (quarta-feira) um lastimável atentado contra o patrimônio santista ocorreu: mais uma vez foi decaptada a cabeça da estátua de João Otávio dos Santos, o benemérito idealizador do Instituto Dona Escolástica Rosa.
Os autores de tal ato não deveriam ser chamados de vândalos, denominação atribuída a um dos povos bárbaros germânicos que, apesar de terem ficado conhecidos pela truculência de suas invasões, nunca esconderam na calada da noite seus feitos, encobrindo-os de maneira dissimulada.
Não foi apenas o monumento que foi prejudicado, mas a história, a arte, a Cidade... Na verdade, o que se pode vislumbrar é a falta de perspectiva dos destruidores, que sem possibilidades de se destacar por algo construtivo, realizam-se através da destruição do patrimônio que não lhes pertence...
Um bem cultural é parte de toda a sociedade, um ''tesouro'' do povo, ainda mais quando propriedade pública, pois o poder governamental é um mero administrador temporal que deve primar pela segurança e vigilância de tais equipamentos. Não imputo à administração pública a culpa do fato, porém não é mais possível que tais atos de depredação continuem a ocorrer e milhares de reais sejam anualmente gastos para recuperar logradouros por motivos de destruição intencional.
Não seria a hora de se tentar viabilizar o monitoramento por câmeras dos jardins da orla e de áreas do Centro Histórico?
Quem sabe os delinquentes poderiam se sentir intimidados.
Apesar do triste acontecimento, João Otávio dos Santos é eternizado na obra que homenageia sua mãe, a atual Escola Técnica Estadual Dona Escolástica Rosa, que em 2008 completará 100 anos. Dela são oriundas a ETE Aristóteles Ferreira (fundada em 1969) e a Faculdade de Tecnologia da Baixada Santista (inaugurada em 1986). As três instituições pertencem ao Centro Estadual de Educação Tecnológica Paula Souza — associado e vinculado à Unesp — maior rede de ensino técnico-tecnológico da América Latina.
Em 2001, com o desdobramento de um projeto de historiografia do ensino profissional público paulista desenvolvido pelo Centro Paula Souza/Unesp, com o apoio da USP e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), surgiu em Santos o Centro de Memória do Trabalho, da Técnica e do Ensino Profissional — órgão de apoio ao ensino e à pesquisa — que deverá ter sua sede permanente instalada na antiga casa do diretor do Instituto Dona Escholástica Rosa, que deverá ser recuperada assim como ocorreu com a Capela São João Bosco. Através do Centro de Memória a lembrança de João Otávio dos Santos será preservada.
Uma rua no Paquetá, uma escola estadual no Morro São Bento e o Diretório Acadêmico da Fatec/BS são provas do preito de gratidão dos santistas a quem tão generosamente legou uma obra em prol dos carentes e que, apesar das mudanças ao logo dos anos, continua a ter tradição em educar para a vida. Embora o monumento de João Otávio dos Santos esteja sem cabeça, sua memória está bem viva no coração de muitos.

(*) Waldemar Tavares Jr. é historiador docente do Centro Paula Souza/Unesp e coordenador do Centro de Memória.