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Jornal da Cidade (Bauru, SP) online

Secreção da pele do sapo pode ser solução para leisshmaniose

Publicado em 17 agosto 2008

Fatal em mais de 90% dos casos sem tratamento, a leishmaniose visceral está avançando no Brasil. De acordo com o Ministério da Saúde, houve um aumento de 6l% entre 2001 e 2006, quando foram registrados 4.526 casos. Os números mostram- se mais alarmantes quando se pesa que o último medicamento criado para a doença foi lançado em 1912.

A solução para o problema: pode estar na secreção da pele do sapo-cururu (Rhinella jimi) Um estudo de bioprospecção realizado por um grupo de pesquisadores do Instituto Adolfo Lutz e do Instituto Butantan isolou, a partir do veneno do sapo, dois esteróides ativos capazes de destruir a leishmânia, o parasita causador da doença, sem causar danos às células de mamíferos. Uma das moléculas também mata o Trypanosoma cruzi, que causa a doença de Chagas.

Apoiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de S Paulo (Fapesp) na modalidade auxílio regular à pesquisa, o estudo foi coordenado por André Tempone, do Laboratório de Toxinologia Aplicada do Departamento de Parasitologia do Instituto Adolfo Lutz. Os resultados foram publicados na revista “Toxicon”.

“O foco do nosso labora tório são as doenças negligenciadas. O objetivo desse projeto era estudar os venenos de diversos anfíbios como ferra menta para a busca de novos fármacos. Depois de uma triagem feita com diversos animais, elegemos o sapo-cururu, já que ele mostrava aspectos interessantes para bioprospecção”, explica Tempone.

Segundo ele, o laboratório do Adolfo Lutz prefere estudar metabólitos secundários como esteróides e alcalóides. “Essas moléculas são mais interessantes do ponto de vista farmacêutico, por serem menores e mais fáceis de sintetizar”, explicou.

Depois de eleger o sapo cururu, os pesquisadores se dedicaram a todas as etapas de isolamento das moléculas. “A glândula parotóide do sapo conta com uma quantidade imensa de veneno, que tem uma toxicidade imensa. Mas, com a purificação da molécula ativa, eliminamos a par te tóxica e testamos o ele mento ativo no parasita”, comenta Tempone.

As duas moléculas isoladas foram a telocinobufagina e a helebrigenina. Ambas se mostraram ativas contra a leishmânia. A segunda, também para o Trypanosoma cruzi. “Curiosamente, descobrimos na literatura que a telocinobufagina é produzida também pelo organismo humano. Não foi muito estudada, mas possivelmente tem funções no controle da pressão sanguínea”, aponta.

Adaptação

A espécie de sapo estuda da é típica da caatinga, uma região seca e inóspita para os anfíbios, cujo ciclo vital exige a presença de água. Essa característica contribui para a eficiência de seus mecanismos de adaptação. E possível que o animal use o veneno para se defender de predadores e também de microrganismos.

“Não sabemos ainda se o sapo usa esses esteróides para proteção, mas é possível que, como vivem em um lugar seco e têm pele muito sensível, eles sirvam para defender o animal de fungos e bactérias no chão”, avalia Tempone.

Segundo ele, o projeto teve uma contribuição fundamental do pesquisador do Instituto Butantan Carlos Jared, que realizou coleta de anfíbios em todo o País “inclusive no pouco estudado bioma da caatinga”. Jared levantou a hipótese de que os esteróides são possivelmente incorporados pelo sapo por meio da dieta.

“Essas moléculas já eram conhecidas em plantas da região, mas até agora não haviam sido observadas no sapo. Possivelmente elas são conseguidas pelo animal por meio de um inseto que ingeriu de terminadas plantas”, supõe Tempone.

Apesar da toxicidade da secreção da pele do sapo, os pesquisadores observaram que os esteróides, além de não apresentarem toxicidade para a célula hospedeira da leishmânia, também não têm atividade de hemólise, que é o rompimento das células vermelhas do sangue.

“Tudo isso faz com que essas moléculas sejam modelos interessantes. Agora que identificamos sua estrutura química, vamos tentar sintetizá-las e testar novos desenhos com potencial para uma eficiência ainda maior. O passo seguinte será a aplicação de testes em animais”, afirma Tempone, cuja pesquisa teve apoio dos pesquisadores Daniel Pimenta, do Instituto Butantan, e Patrícia Sartoreili, da Universidade Federal de, São Paulo (Unifesp). (Agência Fapesp)

O que é

A leishmaniose é transmitida pela pi cada de flebotomíneos, mosquitos hospedeiros do parasita leishmânia. O inseto se contamina ao sugar o sangue de mamíferos infectados e, ao picar um animal ou pessoa sadia, o flebótomo injeta secreção salivar com as leishmânias. A forma tegumentar (que cobre o corpo) da doença atinge as mucosas do corpo e causa lesões na pele, enquanto a leishmaniose visceral ataca o fígado humano e pode levar o indivíduo à morte.

Presente em todo à País, especialmente no litoral e na região Norte, a leishmaniose visceral avança a passos largos em território paulista, desde que o primeiro caso foi registrado, em 1985. “Em 2007, tivemos 256 casos e 21 óbitos. Até três meses atrás, haviam sido registrados 35 casos e dois óbitos no estado em 2008”, destaca André Tempone, do Laboratório de. Toxinologia Aplicada do Departamento de Parasitologia do Instituto Adolfo Lutz.

De acordo com o cientista, não há no mercado medicamentos seguros para a forma fatal da doença, pois os utilizados são altamente tóxicos. “Usamos até hoje o metal antimônio, cuja aplicação foi feita pela primeira vez em 1912. Os medicamentos são extremamente tóxicos. Para a doença de Chagas, só há um remédio, que tem 50% de eficácia se for administrado no início da doença. Mas o problema é que só se descobre a doença quando ela está avançada”, afirma. (Agência Fapesp)