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SciELO em Perspectiva

SciELO pós 20 Anos: o futuro continua aberto

Publicado em 19 dezembro 2018

Por SciELO

A Semana SciELO 20 Anos realizada entre os dias 24 e 28 de setembro de 2018 em São Paulo alcançou os resultados que almejamos em termos de participação, amplitude e qualificação das análises e debates em torno a três objetivos principais. Primeiro, comemorar os avanços e conquistas das duas décadas de operação regular do Programa e da Rede SciELO; segundo, realizar uma ampla análise e debate da razão de ser e desempenho dos periódicos; e, terceiro, abordar os desafios, perspectivas e propostas para o futuro sob a visão de uma comunicação científica global e inclusiva na qual os periódicos e o Programa SciELO tenham participação proativa. A semana abrangeu dois dias de Reunião da Rede SciELO com foco no presente e futuro dos periódicos SciELO e três dias da Conferência SciELO 20 Anos com foco no estado da arte da comunicação científica. Os resultados alcançaram importância e dimensão histórica com a formalização da nova etapa de desenvolvimento do Programa SciELO de alinhamento com o modus operandi da ciência aberta. Este alinhamento, que vem sendo analisado e discutido nos últimos anos, foi sistematizado nas linhas prioritárias de ação para os anos 2019 a 20231

Sob a perspectiva do posicionamento e contribuição do SciELO para a construção de uma comunicação científica global e inclusiva, que supere as divisões entre periódicos de corrente principal e regionais ou a divisão global entre norte e sul, a Semana SciELO 20 Anos foi concebida e realizada como um fórum público de análise e debate tendo como referência o estado da arte da comunicação científica que vive um dos períodos de maior transformação de toda sua história com a emergência da ciência aberta. Neste contexto, uma das transformações mais difíceis que se batalha no ecossistema internacional de comunicação da pesquisa é a universalização do acesso aberto à literatura científica, meta que adotada há 20 anos pelo projeto SciELO colocou o Brasil e demais países da Rede SciELO como pioneiros do movimento de Acesso Aberto. Entretanto, a ciência aberta amplia a demanda de acesso aberto além dos artigos e envolve todas as dimensões da pesquisa, o que torna a inserção dos periódicos altamente desafiante pois requer, em conjunto com outras instâncias, avançar com uma abordagem renovada das funções, políticas e operação dos periódicos. Os periódicos SciELO e suas comunidades de pesquisa tem o conceito de abertura como uma prática inerente da comunicação dos resultados o que favorecerá a transição para a ciência aberta.

A equipe do SciELO Brasil, responsável pela organização da Semana SciELO 20 Anos, contou com o apoio decisivo de especialistas do Brasil, dos demais países da Rede SciELO e de outros países2,3. Os grupos de trabalho sobre os periódicos e a Rede SciELO e os grupos de discussão dos temas dos painéis da Conferência Internacional contaram com lideranças que desenvolveram os respectivos temas livremente. Os resultados enquanto participação e apropriação da abordagem e finalidades do fórum foram muito satisfatórios. O conjunto dos eventos e atividades contou com mais de 700 participantes entre autoridades, pesquisadores e profissionais de informação científica, dos quais 127 tiveram participação ativa em grupos de discussão, grupos de trabalho, painéis e oficinas, sendo 48% destes com afiliação no exterior. A organização contou também com o apoio de inúmeras instituições, com destaque para a Fundação Oswaldo Cruz, o Google Scholar, o International Development Research Centre (IDRC) do Canadá, a UNESCO, e o Wellcome do Reino Unido, além de outras 49 organizações relacionadas com a comunicação cientifica e com o SciELO, participaram da rede de apoio financeiro sob a bandeira “Amigos do SciELO”.

Tendo como referência as prioridades do Programa SciELO em prol do aperfeiçoamento dos periódicos no que se refere à profissionalização, internacionalização e sustentabilidade operacional e financeira, a programação da Semana SciELO 20 Anos convergiu as inquietações, interesses e prioridades nacionais do Brasil e dos demais países da Rede SciELO com os principais avanços e inovações que estão ocorrendo nos centros mais avançados. Essa abordagem segue a política do SciELO de balancear os interesses e prioridades das pesquisas e dos periódicos editados nacionalmente com a participação ativa no fluxo internacional de comunicação científica. Além de assegurar a participação de todos os interessados e correntes relacionadas, alcançamos representação equitativa de áreas temáticas, de gênero e, dentro das limitações orçamentárias, de áreas geográficas.

Com base no marco de trabalho apresentado acima, o programa da semana imbricou dois movimentos principais cuja confluência de ideias, políticas, metodologias e tecnologias contribuirá para qualificar o desenvolvimento futuro dos periódicos SciELO. Primeiro, o fortalecimento e reconhecimento dos periódicos por sua relevância histórica, social e acadêmica na criação e sustentação de comunidades de pesquisa e disciplinas no avanço da pesquisa e da educação, sintonizado com prioridades e condições locais sem perder o caráter internacional da ciência e como fontes de informação e evidências científicas de suporte a políticas públicas e decisões informadas de profissionais e cidadãos. Este primeiro movimento inclui também os periódicos não indexados no SciELO mas que têm a mesma centralidade e projetam sua inserção nos processos de inovação em curso. O segundo movimento compreende os processos de inovação rumo ao modus operandi da ciência aberta em prol da rapidez e transparência dos processos de pesquisa e da sua comunicação, do compartilhamento e reúso dos conteúdos dos artigos com ênfase nos dados e códigos de programas subjacentes aos textos dos artigos com o objetivo principal de maximizar a reprodutibilidade dos resultados (Quadro 1).

Todos os conteúdos gerados e reunidos nas diferentes atividades da Reunião da Rede SciELO (Quadro 2) e da Conferência SciELO 20 Anos (Quadro 3), sejam os textos, os comentários, as 90 apresentações em slides, as 40 horas de áudio, as 24 horas de vídeo ou as 930 fotos, estão disponíveis no site do evento – www.scielo20.org>, compondo uma coleção contemporânea sobre a dinâmica atual e futura da comunicação das pesquisas.

Questões chave e estruturais do avanço da comunicação da pesquisa 1.1 – Conhecimento científico como bem público global. O futuro da comunicação da pesquisa. SciELO como bem público global 1.2 – Ciência aberta: abertura de dados, materiais, métodos e códigos de programas 1.3 – Ciência aberta: controle de qualidade, transparência e ética

Há muito que analisar, estudar, criticar e sistematizar a partir de diferentes perspectivas, como a dos gestores de pesquisa, pesquisadores, editores de periódicos, profissionais de informação e responsáveis por produtos e serviços de informação e comunicação científica. A celebração dos 20 anos do SciELO foi abrilhantada com mensagens generosas de notáveis cientistas (Quadro 4), editores de periódicos e líderes do acesso aberto , entre os quais destacamos as dos Professores Harold Varmus da Universidade Cornell, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina de 1989, foi diretor do National Institutte of Health (NIH) e criador da Public Library of Science (PLoS), John Willinsky da Universidade de Stanford e Diretor do Public Knowledge Project (PKP), responsável pelo sistema Open Journal System (OJS), Jean Claude Guédon da Universidade de Montreal e coordenador do grupo de especialistas sobre o futuro da publicação científica da Comissão Europeia e Robert-Jan Smits, Conselheiro Sênior de Acesso Aberto e Inovação do Centro Europeu de Estratégia Política (European Political Strategy Centre, EPSC) da Comissão Europeia e líder do Plano S conduzido pelo consórcio cOAlition S envolvendo o European Research Council e as principais agências de fomento à pesquisa europeias.

Entre as preocupações que permearam a maioria dos participantes do evento, mas, principalmente, os editores e profissionais das equipes editoriais, destacam-se, por um lado, as implicações imediatas, a médio e longo prazo que o modus operandi da ciência aberta terão nas funções, políticas e gestão editorial dos periódicos, e, por outro, como os periódicos criarão as condições de se tornarem progressivamente agentes proativos da ciência aberta. Ou seja, os periódicos ocupam simultaneamente a condição de conduzidos e condutores do movimento da ciência aberta. Assim, embora eles ocupem uma posição essencial na comunicação da pesquisa não estão sozinhos no alinhamento com a ciência aberta. O avanço da ciência aberta é conduzido por políticas, programas e ações nos âmbitos internacionais e nacionais e os atores principais são as agências de fomento da pesquisa, as plataformas de gestão de dados, os repositórios de preprints, os periódicos e, claro, os pesquisadores. Os periódicos passarão a conviver com uma miríade de instâncias de apoio e complementares às suas funções clássicas. Entretanto, continua como essencial a função dos periódicos de validação de pesquisas mediantes processos editoriais, avaliação por pares e aperfeiçoamento dos textos.

No caso dos periódicos editados nacionalmente no Brasil e nos países da Rede SciELO, o alinhamento com a ciência aberta passa a ser prioridade no futuro próximo, requerendo a atualização das políticas editoriais e, em consequência, da gestão e operação editorial. Trata-se de um processo que adquirirá dinâmicas próprias nas diferentes disciplinas e áreas temáticas. Um aspecto importante é que, embora represente um alinhamento internacional dos periódicos, a adoção das boas práticas da ciência aberta contribuirá para o aperfeiçoamento, transparência, eficiência e impacto das pesquisas centradas em problemas, interesses e usos locais, nacionais e regionais.

Outro aspecto crucial se refere ao desempenho dos periódicos e das pesquisas que publicam. No modelo SciELO, o desempenho compreende, a obediências às boas práticas da comunicação científica, a relevância histórica, social e acadêmica do periódico, o desempenho segundo métricas de citações recebidas e presença na web medida pelas altmetrias a partir dos diferentes índices bibliométricos. Uma inovação importante no processo de avaliação dos periódicos introduzida pela FAPESP por ocasião dos 20 Anos do SciELO é o Plano de Desenvolvimento Editorial (PDE), que descreve a partir das condições institucionais, relevância e especificidade para a área temática, obediências às boas práticas editorias, desempenho em termos de indexação e métricas os resultados almejados para os próximos três anos em termos de sustentabilidade, contribuição para a área temática e indicadores bibliométricos.

A expectativa é que a maioria dos periódicos esteja alinhada com a ciência aberta no decorrer dos próximos três anos. A realização deste cenário posicionará os periódicos SciELO e as pesquisas que comunicam pari passu com as pesquisas e periódicos de referência internacional em suas respectivas áreas temáticas.

Notas

1. SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. SciELO – Linhas prioritárias de ação 2019-2023 [online]. SciELO 20. 2018 [viewed 19 December 2018]. Available from: https://www.scielo20.org/redescielo/wp-content/uploads/sites/2/2018/09/Líneas-prioritaris-de-acción-2019-2023_pt.pdf

2. Reunião da Rede SciELO – Comitê Organizador https://www.scielo20.org/redescielo/#comite-organizador>

3. Conferência SciELO 20 Anos – Comitê Organizador https://www.scielo20.org/#comite-organizador>

Referências

SCIENTIFIC ELECTRONIC LIBRARY ONLINE. SciELO – Linhas prioritárias de ação 2019-2023 [online]. SciELO 20. 2018 [viewed 19 December 2018]. Available from: https://www.scielo20.org/redescielo/wp-content/uploads/sites/2/2018/09/Líneas-prioritaris-de-acción-2019-2023_pt.pdf