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Saúde high tech

Publicado em 31 julho 2012

O físico brasileiro Sérgio Mascarenhas, 84 anos, coordenador do Instituto de Estudos Avançados de São Carlos, ligado à Universidade de São Paulo, viveu uma experiência que o deixou muito preocupado. Há cerca de seis anos, os médicos suspeitaram que ele sofresse de mal de Parkinson. Para terem certeza, decidiram operá-lo, o que significava abrir seu cérebro, um procedimento delicadíssimo e caro. Feita a operação, descobriu-se, para alívio do paciente, que não se tratava de Parkinson, mas sim de hidrocefalia de pressão normal, uma doença que aumenta o acúmulo de líquido no cérebro, elevando a pressão intracraniana. Mascarenhas foi tratado e se recuperou. 

O episódio, no entanto, deixou o físico intrigado: com todo o avanço da medicina, não haveria uma forma menos traumática, em pleno século 21, de fazer um diagnóstico dessa natureza Seria realmente necessário abrir a cabeça de uma pessoa para saber se ela tem ou não Parkinson, por exemplo Ao observar os procedimentos adotados no Brasil e em outros países, ele constatou que esse era o método padrão. Foi então que Mascarenhas, um dos cientistas mais renomados do Brasil, professor visitante nas Universidades Princeton, Harvard e do Massachusetts Institute of Technology (MIT), recorreu à tecnologia para encontrar um modo para que outras pessoas não tivessem de passar pela mesma situação. E conseguiu. Depois de muita pesquisa, Mascarenhas desenvolveu um chip que permite medir a pressão intracraniana sem que seja necessário fazer cortes profundos na cabeça. 

A primeira versão de seu invento requeria apenas a colocação do chip rente ao couro cabeludo, por meio de uma incisão mínima. Uma segunda versão, que foi finalizada recentemente, representou um passo além: agora, basta aproximar da cabeça o chip  que vem envolto num recipiente que se parece com uma caixa de fósforos  para que seja possível registrar informações sobre deformação óssea, que é proporcional à pressão dentro do crânio. Em geral, a inovação parte de uma motivação externa, afirma Mascarenhas. No meu caso, a pesquisa nasceu dentro de mim, diz. Em 2009, o projeto do cientista recebeu apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e hoje já é usado no tratamento de pacientes com traumatismo cerebral no Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. 

Existe a possibilidade de ser levado para a rede pública do Sistema Público de Saúde (SUS). A intenção do governo é que o equipamento seja colocado nas ambulâncias, afirma Gustavo Frigieri, doutor em ciências e física biomolecular e membro do Instituto de Estudos Avançados da USP São Carlos e ex-aluno de Mascarenhas. Assim, a equipe de atendimento pode, dentro do veículo, colher as primeiras informações sobre a vítima e facilitar o trabalho do médico no hospital. Segundo ele, o governo aguarda apenas o parecer da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para levar adiante o projeto, que já recebeu apoio da Organização Pan-Americana da Saúde para sua implantação no Brasil e em demais países da América Latina. 

REDUÇÃO DE CUSTOS Além de conferir maior segurança aos diagnósticos, o método é um exemplo de como o avanço da tecnologia pode representar uma economia aos cofres públicos  e também privados, se pensarmos no caso de hospitais e operadoras de saúde particulares. Conforme estimativas de Frigieri, o sistema tradicional, como o aplicado no tratamento de Mascarenhas, necessita de um aparelho de monitoramento que custa R$ 90 mil, um sensor de aproximadamente R$ 2,7 mil, equipe neurocirúrgica, unidade de terapia intensiva e centro cirúrgico. 

Descontando o monitor, que pode ser usado em mais de um paciente, calculo que o custo de um processo pelo sistema tradicional fique entre R$ 20 mil e R$ 40 mil por paciente, diz Frigieri. Com o chip, o valor cairia bastante. A versão do equipamento que exige uma incisão mínima custa cerca de R$ 400, e o não invasivo ficará em menos de de R$ 1 mil. A economia se estende aos custos com quartos e profissionais. O paciente pode ficar no ambulatório, que é mais barato, e não precisa de equipe de neurocirurgia, afirma Frigieri.

ALIADA DE PRIMEIRA HORA Além de reduzir custos e também oferecer maior segurança para tratamentos complexos, a tecnologia também é uma aliada de primeira hora para o atendimento diário  e nem por isso menos importante. O Hospital Paulistano, de São Paulo, por exemplo, usa os tablets como uma ferramenta para administrar medicamentos à beira dos leitos. Pelo sistema, o processo de medicação é controlado eletronicamente. Em vez de escrever num papel, o que pode resultar em erros, o médico faz a avaliação do paciente e prescreve os remédios pelo tablet. Assim, a medicação é programada automaticamente e dispensada pela farmácia do hospital. 
No leito, o enfermeiro usa o tablet para consultar os dados do paciente antes de aplicar os remédios. Dessa forma, a informação é tratada com segurança e minimiza a possibilidade de erros, afirma Márcio José Cristiano de Arruda, diretor-médico do Hospital Paulistano. Até o momento, apenas os atendentes de algumas áreas contam com o aparelho. A intenção é que até o final do ano esse procedimento seja utilizado em todo o hospital, diz Arruda. E tão ou mais importante que a máquina é seu uso adequado. Por isso, o hospital ministrou oficinas com os profissionais de enfermagem e até escolheu uma gestora para o projeto: a enfermeira Daniela Muniz dos Santos. O uso do tablet foi uma forma de inovar no atendimento e aumentar a segurança, afirma. 

PAINEL FUTURISTA A inovação também pode chegar à sala de cirurgia. O Hospital da Luz, na capital paulista, passou a usar um telão equipado com a tecnologia Kinect, da Microsoft. Disponível inicialmente no videogame Xbox, o recurso permite dar comandos apenas com o gesto das mãos. No caso do hospital, essa possibilidade é usada em painéis cirúrgicos que permitem ao médico, por meio de gestos, checar a grade cirúrgica e acessar dados dos pacientes, como procedimento médico necessário. Enquanto isso, outro painel informa aos parentes, na sala de espera, a situação da cirurgia. 

O equipamento com Kinect permite organizar as cirurgias, afirma Heraldo Jesus, diretor-médico do Hospital da Luz. Como se vê, o uso das mais recentes inovações tecnológicas na área da medicina é uma realidade  e isso não se resume aos hospitais. O usuário também já dispõe de um arsenal de aplicativos à sua disposição pelo smartphone. São programas que fazem de tudo: desde lembrar o horário de tomar um remédio até medir o desempenho de corredores. O importante nesse processo é que, mais que um modismo, se trata da aplicação prática da tecnologia em benefício da saúde do cidadão.