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Correio da Paraíba online

Saúde faz campanha para barrar H1N1

Publicado em 03 janeiro 2010

As autoridades de Saúde do Governo do Estado e da Prefeitura de João Pessoa estão preocupadas com a possibilidade de retorno de uma nova onda de Gripe A e estão desenvolvendo campanhas de prevenção que devem ser lançadas no próximo ano. Os representantes dos órgãos garantem que as unidades de saúde, hospitais de referência e equipe de profissionais estão preparados para enfrentar um possível novo surto da doença. Estão sendo distribuídos panfletos nos terminais rodoviários e aeroportos, como também estão sendo afixados cartazes em ônibus estaduais e nos que fazem viagens para o Rio Grande e para Pernambuco.

O primeiro caso da doença confirmado no Estado foi em junho do ano passado. Desde então, mais 18 casos foram diagnosticados. Duas pessoas morreram em decorrência de agravos com a contaminação da Gripe A. De setembro até a última quarta-feira, três novos casos foram notificados. Segundo a gerente de Respostas Rápidas da Secretaria Estadual de Saúde, Diana Pinto, as suspeitas foram descartadas.

Ela adiantou que está aguardando a liberação da vacina de combate à Gripe A por parte do Ministério da Saúde e a expectativa é que o material seja distribuído para os Estados em meados de abril. "É nesta época que começamos a vacinação nacional contra gripe sazonal (vacinação de idosos). Ainda não temos nada confirmado quanto à vacinação da Gripe A, mas espera-se que as duas campanhas aconteçam paralelamente", disse Diana Pinto.

A gerente de Respostas Rápidas explicou que, apesar da Organização Mundial de Saúde (OMS) ter anunciado que um terço da população deverá contrair o vírus da Gripe A até 2011, não existe motivo para pânico. "O vírus da Gripe A vai perdendo força ao longo do tempo. Isso ocorre porque o nosso organismo produz anti-corpos. É a mesma coisa de quando aconteceu um surto de gripe em 1957. Inclusive, esta é uma teoria que pode explicar porque a Gripe A atingiu principalmente os jovens, já que quase não foram notificados casos em idosos. Acredita-se que o organismo deste grupo de pessoas tenha reconhecido e combatido a contaminação", argumentou Diana.

Dicas de como evitar

A diretora de Vigilância Epidemiologia da Secretária de Saúde da Capital (SMS), Júlia Vaz, reforçou que, lavar as mãos antes das refeições e mantê-las afastadas da boca, olho e nariz, ainda são as formas mais eficazes de combate à Gripe A. Ela afirmou que no próximo mês será iniciada uma campanha educativa e a capacitação dos profissionais de saúde. Enquanto isso, também foi realizada uma parceria com as empresas de ônibus para manter uma divulgação de métodos de prevenção da doença permanente.

"Estamos trabalhando inicialmente com a prevenção e alertando à população sobre as formas de contágio. Nas férias há um trânsito maior de pessoas na cidade e é bom ficar sempre atento, já que o vírus está circulando no município e qualquer um pode ser contaminado. Vale também dizer que cada caso possui um diagnóstico diferenciado, nem todos estão suscetíveis a contrair a forma aguda da doença. Depende de um diagnóstico de doenças pré-existentes, como insuficiência pulmonar, cardiopatia, diabetes, entre outros ou fazer parte do grupe de risco (gestantes, idosos e crianças abaixo de dois anos)", alertou Júlia.

Uso do Tamiflu deve ser intensificado

(AE) - A falta de agressividade na distribuição do medicamento Oseltamivir (Tamiflu) foi um erro estratégico e fatal no combate à Influenza A (H1N1). A opinião é do médico Luiz Jacintho da Silva, professor titular de Infectologia da Unicamp e um dos maiores epidemiologistas do País. Destinado só aos casos graves, o remédio acabou sem efeito e o número de mortes por gripe suína foi elevado. "Quando um caso se torna grave, geralmente já é tarde demais para a droga agir", garante. Para ele, a pandemia em 2010 não será diferente da de 2009. O importante, ressalta, é não repetir os mesmos erros.

O Brasil chegou a ocupar o primeiro lugar no número de mortes durante a epidemia de gripe suína, com 899 óbitos, conforme o último balanço divulgado pelo Ministério da Saúde em setembro passado.

Sobre a dengue, o infectologista afirma que o "País perdeu o bonde da história". E que há 30 anos deveria ter investido seriamente para controlar a doença antes de sua disseminação. "Agora é tarde, cabe esperar pela vacina e minimizar os óbitos. A epidemia continua", alerta.

A entrevista

- No início da epidemia de Influenza A (H1N1), o Ministério da Saúde declarou que a situação no Brasil estava sob controle. Meses depois, o País passou a encabeçar a lista de mortes pela doença (899 óbitos até 16 de setembro). O que deu errado?

- Parte das mortes recentemente notificadas ocorreu durante a epidemia, apenas sua confirmação foi tardia. Concordo, no entanto, que a letalidade na epidemia foi alta. Isso se deve, em parte, ao sistema de notificação mais sofisticado dos países de economia intermediária e à falta de agressividade no processo de distribuição do Oseltamivir (Tamiflu). O Brasil caiu na esparrela de afirmar a todos, profissionais de Saúde e população, que o Oseltamivir se destinava aos casos graves. Errado. Quando um caso se torna grave, geralmente já é tarde demais para a droga agir. Sua ação ocorre nas primeiras 48 horas. O Oseltamivir deve ser destinado aos pacientes com maior risco que estejam doentes, graves ou não Esse foi um erro fatal. Não foi burocracia, foi erro estratégico.

- O Brasil deve produzir 18 milhões de doses da vacina contra a Influenza A em um primeiro momento. O restante da demanda deverá vir de produtores internacionais. Além da vacinação, quais outras ações o País deve realizar para não ficar nas mãos dos países ricos?

- Obviamente que a produção nacional de Oseltamivir e de vacinas é o caminho para a autossuficiência. Nenhum país é autossuficiente, nem os EUA, Japão ou Alemanha. Estamos num mundo globalizado. Ter capacidade de produzir Oseltamivir em quantidade suficiente para uma epidemia não é pouco. O problema é: o que fazer com a capacidade instalada uma vez que a epidemia terminar?

- Como o País deve proceder em caso de nova epidemia? Quais são as perspectivas para a doença em 2010?

- A epidemia de gripe deve ser enfrentada de duas maneiras: vacinar crianças, pelo menos até os 9-10 anos, e reduzir morbidade e mortalidade por intermédio da atenção rápida e eficaz com o uso do Oseltamivir e testes de diagnóstico rápido Nada de "você tem apenas uma gripe ligeira, vá para casa!". Quanto à perspectiva para 2010 difícil dizer, pelo que está acontecendo no Hemisfério Norte, será tranquila, na pior das hipóteses, algo como o que tivemos este ano.

- Como o senhor analisa declaração recente do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de que o Brasil ainda não tem um plano preventivo para uma possível epidemia de gripe suína em 2010?

- Já foi dito que planos são apenas um pedaço de papel, o planejamento é o que vale. O Brasil já elaborou planos e mais planos para a pandemia, essa parte é fácil. O que fazer é público e notório, qualquer iniciante em saúde pública hoje seria capaz de elaborar um plano de enfrentamento de pandemia de gripe. O importante agora é aprender com os erros de 2009, tomar providências para que não se repitam em 2010 e vacinar o maior número possível de pessoas.

Os dirigentes de Saúde não devem jamais anunciar números em tom triunfalista. Inclusive nosso presidente (Luiz Inácio Lula da Silva) chegou a anunciar que a pandemia não nos atingiria, quando atingiu, que os números seriam baixos, e assim por diante. Bobagem! Epidemias e pandemias não são respeitosas e não são membros de nenhum partido.

- De janeiro até o final do mês de agosto, balanço do Ministério da Saúde registrou queda de 47,9% no número de casos de dengue em relação ao mesmo período de 2008, mas ainda é alto. Qual a melhor estratégia contra a doença?

- O Brasil perdeu o bonde da história com relação à dengue. Trinta anos atrás já deveria ter havido investimentos para controlar a doença, enquanto ainda não era disseminada. Agora é tarde. Cabe esperar pela vacina e reduzir o prejuízo, isto é, reduzir os casos a um número gerenciável e minimizar os óbitos. Não se iludam com os números do Ministério da Saúde: quando temos epidemia no Rio, os números nacionais sobem. Quando a epidemia ocorre em locais pouco populosos, como agora no Centro-Oeste, os números caem e todos "festejam". Mas a epidemia continua.

- Como estão as pesquisas para a vacina contra a dengue? Haverá vacina eficaz num futuro próximo?

- A vacina, ou vacinas, estão em fase III, isto é, a fase de grandes ensaios clínicos, a reta final. Cabe lembrar que, para o Brasil, uma vacina segura, porém pouco eficaz, já seria interessante, pois reduziria a transmissibilidade da dengue. Isso mais as ações contra o mosquito traria um alívio em relação à situação atual. Não devemos esperar uma vacina antes de 5 anos.

- Há incentivo do governo para pesquisas nessa área?

- O Brasil cresceu muito em pesquisa acadêmica, em epidemiologia inclusive, com incentivos financeiros de órgãos como Fapesp, CNPq e mesmo o Ministério da Saúde. O problema, no entanto, não termina com a pesquisa. Transformar essa pesquisa em ação é o grande segredo, o verdadeiro "pulo do gato".

- E como transformar uma pesquisa em ação?

- Complicado. Ampliar a nossa base de pesquisa e desenvolvimento industrial seria um fator. A pesquisa não pode ficar totalmente na dependência do governo. Um aspecto pouco discutido quando falamos em saúde é o grande sucesso da pesquisa agropecuária no Brasil nos últimos anos, resultando em aumento da produtividade. Muito da boa situação econômica brasileira se deve a anos de fomento da pesquisa agropecuária. Os dirigentes da saúde deveriam olhar com mais carinho para a Embrapa e outras instituições da área. No meu ver, parte da resposta esta aí. Fomentar a indústria de biotecnologia é importante. Produção de vacina, reagentes diagnósticos e medicamentos não se faz da noite para o dia.

- Há muitas queixas sobre o atendimento nos hospitais públicos. Como médico, o sr. sente que há mesmo falta de humanização no atendimento da rede pública?

- Sim, no Brasil e no resto do mundo. Não somos piores nem melhores que outros países. Aliás, somos muito melhores do que outras economias do mesmo porte. Veja os Estados Unidos, que ainda discutem se saúde é um direito universal! Pelo menos isso já resolvemos. A atenção à saúde vem melhorando muito no Brasil, mas falta muito. A demanda sempre será maior do que a oferta - racionalizar é a saída.