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Informe MS

Saúde e igualdade na infância

Publicado em 06 outubro 2008

O brasileiro Cesar Gomes Victora, professor do Centro de Pesquisas Epidemiológicas da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel) ,conquistou o Prêmio Abraham Horwitz, concedido anualmente pela Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) ao profissional de maior destaque em medicina e saúde pública na América Latina e no Caribe.

O cientista, que atua especialmente na área de saúde materno-infantil, recebeu o prêmio no dia 29 de setembro, em Washington, nos Estados Unidos, durante a reunião do conselho diretor da Opas, instituição vinculada à Organização Mundial da Saúde (OMS).

Além da premiação, Victora acaba de se tornar o primeiro brasileiro eleito para a presidência da Associação Internacional de Epidemiologia (IEA). A eleição ocorreu durante o 18º Congresso Mundial de Epidemiologia, realizado também em setembro, em Porto Alegre, e o brasileiro assumirá o cargo no próximo congresso, em 2011, em Edimburgo, na Escócia.

De acordo com Victora, o prêmio internacional e a eleição para a presidência da IEA são resultado de extensos trabalhos sobre a saúde infantil em países de baixa renda e estudos sobre a desigualdade relacionada a indicadores materno-infantis.

“Esse reconhecimento representa um trabalho que não é só meu, mas de todo o grupo de epidemiologia da Ufpel e que inclui uma longa série de estudos epidemiológicos feita nos últimos 25 anos”, disse Victora à Agência Fapesp.

Um dos principais trabalhos coordenados pelo professor, que já atuou como pesquisador ou consultor em mais de 40 países, assessorando a OMS e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), foi um estudo prospectivo que acompanha, há mais de 25 anos, todas as mais de 6 mil pessoas nascidas em Pelotas (RS) em 1982.

“É um dos maiores estudos desse tipo em todo o mundo. Um dos objetivos de acompanhar até hoje as crianças nascidas em 1982 é estudar as conseqüências a longo prazo de eventos que ocorrem no início da infância, como doenças, subnutrição ou a interrupção da amamentação, por exemplo”, explicou.

Os trabalhos têm gerado uma série de publicações. “Esses estudos de cortes de nascimento permitem diversas abordagens. Pudemos demonstrar, por exemplo, que crianças com subnutrição em seus primeiros dois anos e que, posteriormente, apresentaram um rápido ganho de peso até os quatro anos, têm altíssimo risco de, na idade adulta, sofrer de pressão alta, diabetes e problemas cardíacos”, disse.

A importância dessa conclusão é que, por várias décadas, profissionais da saúde infantil têm promovido o ganho de peso rápido para jovens e crianças de países de baixa renda. “O fato de o ganho rápido de peso na infância levar ao aumento da morbidade e mortalidade de doenças crônicas provoca um dilema”, afirmou.

Victora, que tem mais de 400 artigos publicados, com mais de 5 mil citações, também realizou uma série de estudos sobre a importância da amamentação na saúde das crianças. “A repercussão internacional desses estudos culminou no prêmio da Opas e na presidência da IEA”, disse.

O cientista está envolvido também com uma série de estudos sobre saúde maternal e infantil em países da África, América Latina e Ásia. Desde 1996, o grupo coordenado por ele em Pelotas foi designado como Centro Colaborador da OMS.

“A maior parte dos trabalhos em nível internacional tem ligação com a OMS e o Unicef, principalmente na África, onde ajudo a avaliar condições de saúde e a planejar programas de ação”, disse. Este ano o pesquisador já foi cinco vezes à África.

Sobrevivência infantil

Em 2003, coordenou a Série de Sobrevivência Infantil Lancet-Bellagio, um conjunto de cinco artigos científicos com grande impacto sobre as políticas globais publicados na revista The Lancet, em cujo conselho editorial Victora atua.

O trabalho teve origem em reunião realizada naquele ano em Bellagio, na Itália, quando especialistas de diversos países decidiram trabalhar em conjunto para alertar governos, instituições e a sociedade para o problema da mortalidade infantil.

“A série mostrou, por exemplo, que a adoção de medidas preventivas simples poderia evitar dois terços dos mais de 10 milhões de mortes anuais de crianças com menos de 5 anos, a maioria de causas como diarréia, pneumonia, malária ou problemas neonatais”, disse.

As medidas preventivas e curativas incluiriam a vacinação, o uso do soro reidratante oral, a promoção do aleitamento materno, a adoção de mosquiteiros tratados com inseticidas e o emprego de antibióticos para a pneumonia. Ao mesmo tempo em que estas medidas pontuais são implantadas, o pesquisador salienta a importância de construir um sistema de saúde universal, sem barreiras econômicas que limitem o acesso da população mais pobre.

Em 2007, Victora foi um dos coordenadores de uma nova série da Lancet, dessa vez com o tema Subnutrição maternal e infantil. O brasileiro é o autor principal de um dos cinco artigos: Conseqüências para a saúde adulta e o capital humano.

“Analisamos dados de cinco estudos prospectivos de longo prazo, como o que foi feito em Pelotas. Além do Brasil, foram abordados outros quatro países: Guatemala, Índia, Filipinas e África do Sul. Notamos que os índices de subnutrição materna e infantil têm impacto, na idade adulta nos índices de altura, escolaridade, renda, índice de massa corporal, concentração de glucose e pressão arterial”, afirmou.

De acordo com o perfil de Victora publicado na revista Lancet, o brasileiro “é um dos principais epidemiologistas do mundo em saúde infantil”. Para a diretora do Departamento da Saúde e Desenvolvimento da Criança e do Adolescente da OMS, Elizabeth Mason, o professor brasileiro “é basicamente um dos maiores pensadores em termos de epidemiologia da saúde infantil”.

Em 1991, Victora foi co-fundador do Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Ufpel, que atualmente tem conceito máximo conforme a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Professor visitante das Universidades de Londres e Johns Hopkins, nos Estados Unidos, já orientou 11 doutores e 17 mestres. Recebeu o Prêmio Conrado Wessel de Medicina em 2005 e, em 2006, foi eleito para a Academia Brasileira de Ciências (ABC).