Notícia

Gazeta Mercantil

SAÚDE - Avanços na luta contra a aterosclerose

Publicado em 05 agosto 2002

Por Vanessa D'Angelo
Um grupo de cientistas da Universidade de São Paulo trabalha no combate prevenção da aterosclerose doença que bloqueia a circulação sanguínea das artérias e pode provocar derrames e infartos. Os pesquisadores já desenvolveram um novo marcador para identificar a doença e identificaram a presença de duas estruturas no plasma humano que agem como vasodilatadores. "A aterosclerose manifesta-se como lesões formadas nas paredes dos vasos sanguíneos, que podem vir obstruí-los totalmente, causando isquemia e infarto", explica Dulcinéia Saes Parra Abdalla, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP e coordenadora do projeto. Dados divulgados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostram que a aterosclerose afeta cerca de 10% da população mundial com mais de 50 anos, sobretudo Homens. Idade avançada, hiperlipidemia - alto nível de gordura no sangue -, hipertensão, diabetes, tabagismo, sedentarismo e herança familiar estão entre os fatores de risco de desenvolver a doença. Inicialmente a equipe desenvolveu um marcador que identifica a fração de uma lipoproteína, a LDL negativa (LDL-). Que desencadeia a aterosclerose. O desafio era estudar as lipoproteínas, que são partículas esféricas constituídas por proteínas na superfície e gorduras (lipídios) por dentro, e se formam em vários lugares do organismo. Quando se originam no sangue são denominadas LDL e distribuem colesterol aos tecidos periféricos. Já a LDL negativa é a responsável pela aterogênese - formação de lesões arteriais -, que faz surgir a aterosclerose. "A LDL eletronegativa é a fração do mau colesterol. Ela é formada por oxigenação induzidas por substâncias (radicais livres), liberadas da parede dos vasos sanguíneos e por células do sangue", explica Dulcinéia. Isso acontece porque células imunológicas chamadas macrófagos capturam partículas de LDL e formam células repletas de gorduras, que se acumulam junto à parede das artérias, bloqueando progressivamente a circulação do sangue. Porém, até o momento, não havia no mercado algum tipo de exame que indicasse a fração de LDL eletronegativa. "Os marcadores disponíveis detectavam apenas a fração total de LDL, ou seja, o conteúdo de colesterol total da LDL", diz a pesquisadora. A equipe então desenvolveu um marcador que não pode ser enganado. "Isolamos a LDL eletronegativa do plasma sanguíneo humano e utilizamos esta fração purificada como antígenos, que foi inoculado em camundongos". diz Dulcinéia. Posteriormente, os linfonodos dos animais foram retirados e os linfócitos B foram fundidos com células de mieloma para obter células híbridas, que produzem um anticorpo monoclonal, o qual reconhece especificamente a LDL eletronegativa. Este anticorpo foi utilizado em testes rápidos para detectar a LDL eletronegativa no plasma sanguíneo. A próxima etapa será aplicar o teste em estudos clínicos que envolvam seres humanos. VASODILATADORES Outro trabalho dos pesquisadores foi comprovar a existência de duas estruturas que agem como reservatórios de óxido nítrico (NO) no corpo humano. A importância deste estudo é que o óxido nítrico pode funcionar como um poderoso Pesquisadores descobrem meio de garantir maior precisão nos exames que detectam riscos vasodilatador no organismo. "O óxido nítrico é produzido pelas células endoteliais das paredes dos vasos sanguíneos, e é responsável pela vasodilatação. Quando os vasos sanguíneos interrompem a produção da substância aumenta a pressão sanguínea", diz. Estudos internacionais realizados anteriormente mostraram que pacientes com aterosclerose têm capacidade menor de vasodilatação. Havia forte suspeita que isso ocorra porque o óxido nítrico reagia com outros alvos, e não com as artérias. Um desses locais poderia ser a própria LDL total. Com base nesses dados, a partir de um ácido graxo, o linoléico, o grupo sintetizou em laboratório um modelo experimental e confirmou: quando entra na LDL, o óxido nítrico origina dois produtos, os lípides nitrados e os nitrosilados, que funcionam como reservatórios de vasodilatador. A equipe então observou que esses dois produtos também se manifestam no plasma humano. "A grande dúvida é saber se, no sangue, eles também agem como reservatórios de ácido nítrico, já que o que acontece em laboratório nem sempre se repete na prática", explica Dulcinéia. Se confirmada a hipótese, os médicos terão em mãos uma nova possibilidade de terapia.