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Saudações aos que não fazem e não deixam fazer: Resposta ao professor Roberto Lent, texto de Miguel Nicolelis

Publicado em 16 março 2007

Apoio da grande maioria da comunidade científica brasileira ao nosso projeto não faltou e não falta. Essa é a boa notícia

Miguel Nicolelis é pesquisador na Universidade Duke (EUA) e líder do projeto do Instituto Internacional de Neurociência em Natal (RN). Texto enviado pelo autor ao "JC e-mail:
Acreditem-me, nem tudo é um mar de rosas quando se retorna do exílio. Podem confiar no que eu digo, porque eu falo com propriedade de causa.
Nesses quatro anos desde que eu comecei a voltar pro Brasil (ainda estou no processo, pois o tranco não é fácil!), eu tive que engolir muito sapo. Alguns maiores do que os outros.
Mas nenhum batráquio foi maior do que o servido por alguns setores, digamos, mais "experientes e doutos" da academia brasileira.
Ou de seus auto-proclamados arautos e cardeais (são tantos que eu já perdi a conta).
Na verdade, às vezes, algumas dessas experiências serviram como bons argumentos para questionar a minha sanidade mental em voltar ao Brasil para construir um pequeno ato de rebeldia contra o atual estado de coisas no nosso querido patropi.
Outras vezes, elas serviram como motivação extra para os Sidartas, as Doras, os Antonios e os demais Josés, Joãos, Felipes e Adrianas que vieram de todo o Brasil para construir esse projeto.
Como desistir não faz parte do vocabulário que me ensinaram no Grupo Escolar Napoleão de Carvalho Freire, e cara feia eu já vi de monte, desde que ia na Rua Javari ver o Palmeiras triturar o Juventus, eu, de minha parte, continuo fazendo a minha mudança pra esse lado do equador, em prestações suaves e amenas.
Pra desespero de muita gente que acha que todos nós deveríamos ter ido primeiro beijar a mão dos tais cardeais da neurociência brasileira antes de ousar começar a pôr as asinhas de fora.
Mesmo com essa migração gradual e light, a rebeldia incomoda. E como.
O projeto do IINN-ELS, que hoje ocupa integralmente a vida de quase meia centena de pessoas que trabalham todos os dias para realizar o primeiro sonho da Associação Alberto Santos Dumont para Apoio à Pesquisa, pode ser definido exatamente assim. Um pequeno grande ato de rebeldia.
Sendo assim, desde a sua concepção, essa idéia causou mal estar em alguns setores da academia brasileira.
Depois de ouvir calado por quatro anos uma série infindável de insinuações, intrigas, fofocas e "down to earth" alucinações paranóicas, eu acho que chegou a hora de começar a responder, objetivamente, ao festival de "teorias conspiratórias" geradas em alguns corredores (cheios de equipamentos) de tradicionais centros de neurociência do sudeste brasileiro.
No início dessa aventura, eu realmente pensei que o retorno seria muito mais fácil e tranqüilo.
Afinal de contas, como produto da neurociência brasileira, e ex-orientado de um dos seus fundadores, eu inocentemente acreditava que a minha volta ao Brasil, para realizar um trabalho totalmente voluntário (não remunerado), voltado para a disseminação da ciência como um agente de transformação social por todo o território nacional, seria apoiado integralmente pelos meus pares, principalmente aqueles que conheciam mais a fundo o meu trabalho acadêmico.
Apoio da grande maioria da comunidade científica brasileira ao nosso projeto não faltou e não falta. Essa é a boa notícia.
Curiosamente, e para minha total surpresa, desde que iniciamos o nosso projeto, um setor da neurociência brasileira posicionou-se frontalmente contra essa iniciativa.
Apesar de não identificar-se publicamente, esse grupo de neurocientistas vem utilizando uma série de argumentos espúrios, inverídicos e aleivosos para diminuir, e em alguns momentos, denegrir a nossa iniciativa.
Não incluo aqui as inúmeras táticas de "tapetão" utilizadas para tentar bloquear o progresso da nossa idéia. Isso é matéria pra livro, não pra coluna do blog.
Toda essa introdução (perdão Salvador, mas eu vou usar meu crédito editorial hoje), foi pra dizer que o esclarecimento abaixo é dedicado, do fundo do meu cerebelo, a todos esses críticos, os quais eu gosto de denominar coletivamente como "os que não fazem e não deixam fazer".
Infelizmente, quis o destino que o destinatário dessa réplica seja o professor Roberto Lent, neurocientista da UFRJ. Longe de ser um dos nossos críticos mais aguerridos, o meu caro amigo pagou o pato por prover a gota d'água que fez o copo transbordar.
Ocorre, que em uma recente entrevista (reproduzida no JC e-mail 3219, de 9 de março de 2007, veja texto abaixo), o douto colega expressou algumas das fantasiosas críticas que se fazem ao nosso projeto.
Como no caso de outros de seus colegas, infelizmente o professor Lent parece estar mal informado, tanto sobre a proposta filosófica quanto sobre às fontes de financiamento do Instituto Internacional de Neurociência de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).
Desde o início nós deixamos claro que a intenção era de manter esse projeto como uma iniciativa eminentemente privada, que se valeria de parcerias e colaborações com o governo federal, mas sem comprometer, de nenhuma forma, as fontes tradicionais de financiamento da comunidade científica brasileira.
Curiosamente, a nossa iniciativa gerou mais interesse das autoridades federais (e algumas estaduais) para com a neurociência brasileira.
Corre o rumor, inclusive, que pelo menos uma iniciativa estadual (num grande estado do Sudeste) na área de neurociência foi acelerada para competir com a nossa iniciativa. Caso essa informação proceda seria mais uma demonstração de como a competição de bom tamanho é saudável para o avanço da ciência.
No que tange a investimentos públicos federais, um total aproximado de R$ 13 milhões serão investidos ate 2008 nos projetos do IINN-ELS.
Como divulgado amplamente, esses recursos formam apenas uma fração minoritária do investimento (atualmente por volta de 35%) que hoje financia o IINN-ELS.
A título de esclarecimento, vale frisar que o restante do investimento que paga as contas do IINN-ELS advém de convênios e doações privadas, tanto do exterior como de dentro do Brasil.
Estes incluem um convênio de R$ 5 milhões com o Hospital Sírio-Libanês de São Paulo e uma doação da senhora Lily Safra, a maior da história da ciência nacional.
Em tempo, todos os recursos públicos aplicados no IINN-ELS foram concedidos por convênios e termos de parceria com os Ministérios da Educação, Saúde e Ciência e Tecnologia, e por uma ação transversal do fundo setorial de Saúde, agraciado através de contrato com a Finep.
Até onde eu saiba, nenhuma dessas fontes de financiamento caracteriza tentativa de "correr por fora dos canais abertos ao restante da comunidade científica brasileira", como alega o exmo. professor da UFRJ.
Todos esses mecanismos existem e estão abertos à comunidade científica nacional. Isto é, a todos que se disponham a elaborar um projeto científico de mérito internacional, reconhecido pela comunidade científica de todo mundo como inovador e socialmente transformador.
Depois, basta preencher inúmeros formulários, viajar por todo o Brasil (e o mundo), conversar com todos em Brasília que estejam dispostos a ouvir uma idéia nova.
Ah, esqueci. Credibilidade científica também é pré-requisito para encontrar financiadores privados dispostos a comprar um projeto desse porte.
Evidentemente, o professor Lent sabe de tudo isso. O que ele não menciona, mas que outro colega, o professor Luis Eugênio Mello, da Unifesp, deixou claro em recente entrevista à Revista Pesquisa Fapesp, é que o verdadeiro receio desses pesquisadores é que o IINN-ELS comece a competir com sucesso pelos recursos federais hoje disponíveis para os seus laboratórios.
Meus caros colegas parecem estar um pouco nervosos com a aparição de um novo competidor no meio de campo da neurociência nacional.
Por quatro anos eu e meus colegas procuramos minimizar esses receios, esses medos, essa visão de que a neurociência brasileira pertence a alguém, que existe uma reserva de mercado, cujo acesso é restrito aos que ficaram no Brasil nas últimas duas décadas, sofrendo com as mazelas do sistema de financiamento nacional.
A nossa posição é muito clara. A ciência brasileira só tem um dono: a sociedade brasileira, cujos impostos custeiam o seu dia a dia. No frigir dos ovos, para sociedade brasileira não interessa onde e por quem a neurociência brasileira é produzida. Interessa sim quem pode produzir mais e melhor por real investido.
Assim, mesmo que pesquisadores do IINN-ELS não tenham como meta primordial competir por recursos públicos para financiamento de suas pesquisas, eles têm tanto direito como qualquer outro pesquisador brasileiro de utilizar os mecanismos legais vigentes no país para pagar as contas dos seus laboratórios.
Caso o professor Lent ou outros colegas seus queiram algumas dicas de como financiar seus projetos, nós do IINN-ELS teremos o maior prazer em passar-lhes algumas sugestões nesse sentido. Basta eles darem um pulo aqui na bela Natal.
Quanto à segunda alegação do professor Lent, aquela em que ele caracteriza meus comentários públicos como demonstrações de desapreço à neurociência brasileira, não há muito o que dizer.
Trata-se de uma acusação absurda, leviana e mesquinha, típica dos que não fazem, mas não querem que nada de diferente seja feito na ciência brasileira.
Tal acusação ignora toda a minha trajetória profissional, que se iniciou no laboratório de um dos fundadores da neurociência brasileira e hoje continua, através de um trabalho totalmente voluntário, numa localidade que o douto professor Lent jamais visitou, apesar de convidado.
Finalmente, cabe um último comentário referente à declaração do professor de que o nosso esforço na área social, "tem objetivos generosos, mas representa um grão de areia no mar de desigualdades em que vivemos no país".
Quem sabe o que poderia ocorrer nesse nosso querido Brasil se o douto professor titular da UFRJ, e tantos outros como ele, começassem a abandonar os seus castelos acadêmicos de mármore e cristal para começar a construir alguns parcos castelos de areia, não nas praias de Ipanema e Copacabana, mas por outras vizinhanças, Brasil afora?
Quem sabe o que aconteceria se milhões de grãos de areia surgissem, de repente, às margens do mar de iniqüidade que a maioria de nós vê de suas janelas todos os dias sem nada fazer?
Aos que não fazem e não deixam fazer, as nossas mais cordiais saudações, diretamente do topo do grão de areia chamado IINN-ELS que vai mudar a cara, a cor, o sotaque e o futuro da neurociência brasileira!
Comentário original do professor Roberto Lent:
[Pergunta] - Durante simpósio no Rio Grande do Norte, em fevereiro, foi inaugurado oficialmente o Instituto Internacional de Neurociências de Natal (IINN). A nova instituição deverá promover ciência de ponta, educação científica a jovens e atendimento médico à população carente local. O que isso significa e como a neurociência pode se vincular a projetos sociais?
[Resposta] - O IINN é um projeto de mérito e tem conseguido captar recursos públicos, correndo por fora dos canais abertos ao restante da comunidade científica. Sendo assim, as expectativas sobre o seu êxito são enormes. Pelo que sei, sua proposta maior é de repatriamento dos neurocientistas nascidos no Brasil, mas radicados no exterior. O retorno desses colegas será importante para somar-se aos que aqui permaneceram todo o tempo, e isso poderá ser aferido dentro de alguns anos. O professor Miguel Nicolelis, no entanto, certamente no entusiasmo pelo seu projeto, tem manifestado certo desapreço pelo patrimônio construído pelos neurocientistas brasileiros, o que não é sábio para quem deseja repatriar-se e integrar-se à comunidade local. O Brasil conta com uma Neurociência madura, com muitos grupos da melhor qualidade e inserção internacional no Rio, São Paulo, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Pará e Brasília. A disciplina tem grande presença nos congressos da área biológica e biomédica, como os congressos da FeSBE, possui uma sociedade brasileira (SBNeC) com algum porte, que neste momento discute o convite que recebeu de sediar no Brasil em 2008 o Congresso da International Brain Research Organization. O vínculo a projetos sociais tem objetivos generosos, mas representa um grão de areia no mar de desigualdades em que vivemos no país.