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Satélite identifica cultivos de banana e pupunha com 93% de precisão (34 notícias)

Publicado em 03 de fevereiro de 2026

Tecnologia de sensoriamento remoto reforça políticas públicas para agricultura familiar em regiões de alta biodiversidade na Mata Atlântica

Resumo da notícia

Imagens de satélite combinadas com inteligência artificial alcançaram mais de 93% de precisão no mapeamento agrícola do Vale do Ribeira, mesmo em condições tropicais complexas.

O estudo destacou a pupunha como cultivo independente, utilizando o índice NDWI para melhor diferenciar culturas em ambientes úmidos, superando métodos tradicionais.

A tecnologia acessível permite monitoramento em larga escala, apoiando pequenos agricultores e políticas públicas na agricultura familiar de forma eficiente e de baixo custo.

Imagens de satélite estão revolucionando o mapeamento agrícola em uma das regiões mais desafiadoras do Brasil. Um estudo conduzido por pesquisadores da Unicamp e Embrapa no Distrito Agrotecnológico (DAT) de Jacupiranga, no Vale do Ribeira (SP), demonstrou que a tecnologia pode alcançar mais de 93% de precisão na identificação de áreas agrícolas e vegetação nativa, mesmo em ambientes tropicais complexos.

A pesquisa, publicada na revista internacional Agriculture, utilizou imagens do satélite Sentinel-2, da Agência Espacial Europeia, combinadas com técnicas de inteligência artificial para mapear cultivos de banana e pupunha – as principais produções da agricultura familiar local.

Desafios tropicais superados com tecnologia acessível

O Vale do Ribeira apresenta condições particularmente difíceis para análise por satélite: cobertura persistente de nuvens, relevo acidentado, alta umidade e mosaicos complexos de pequenas propriedades intercaladas com fragmentos de Mata Atlântica. Apesar disso, os resultados mostraram-se compatíveis com estatísticas oficiais e métodos mais caros, como levantamentos por drones.

“Justamente por isso, o Vale do Ribeira é um território estratégico para aperfeiçoarmos métodos de mapeamento capazes de lidar com toda essa diversidade e, ao mesmo tempo, respeitar o contexto socioambiental local”, explica Victória Beatriz Soares, mestranda em geografia da Unicamp e uma das autoras do estudo.

Pupunha ganha destaque no mapeamento digital

Um diferencial importante da pesquisa foi incluir a pupunha como categoria independente. Tradicionalmente, levantamentos em regiões tropicais priorizam a banana devido à sua relevância comercial. Porém, o palmito de pupunha tem consolidado sua importância como alternativa sustentável à extração de palmeiras nativas.

Para diferenciar as culturas, os pesquisadores testaram diversos índices espectrais. O destaque foi o NDWI, que mede a presença de água nas folhas e superou o tradicional NDVI (focado em vegetação verde) na precisão de identificação em ambientes úmidos.

“Essa integração de dados do vigor vegetativo, da umidade e do solo provou ser um método mais robusto para mapear paisagens agrícolas heterogêneas, inclusive para diferenciar o cultivo da banana e da pupunha”, destaca Soares.

Agricultura digital democratiza acesso à tecnologia

O método viabiliza o monitoramento de paisagens agrícolas diversificadas a baixo custo e em grande escala. Isso pode apoiar políticas públicas, ampliar a assistência técnica e fortalecer programas voltados a pequenos e médios produtores rurais, que muitas vezes não têm acesso a tecnologias digitais.

Segundo levantamentos da Embrapa, mais de 84% dos produtores rurais brasileiros já utilizam alguma tecnologia digital no campo, e 95% têm interesse em ampliar esse uso. O estudo mostra que essas ferramentas podem gerar benefícios concretos também para agricultores familiares e comunidades tradicionais.

“A adoção de tecnologias digitais na agricultura brasileira, além de impulsionar a eficiência produtiva, também democratiza o acesso a ferramentas de gestão rural e amplifica ações de sustentabilidade”, afirma Édson Bolfe, pesquisador da Embrapa Agricultura Digital e coautor do trabalho.

Sustentabilidade e conservação da biodiversidade

A pesquisa demonstrou que sistemas produtivos diversificados são mais resilientes às mudanças climáticas. Além de gerar renda e garantir segurança alimentar, eles preservam serviços ambientais essenciais como conservação do solo, proteção de nascentes e manutenção da biodiversidade.

“O monitoramento digital permite ainda a detecção precoce de problemas fitossanitários em uma área extensa e de difícil acesso. Assim, subsidiando a tomada de decisão pelo poder público”, complementa Kátia Nechet, pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente.

O mapeamento digital pode ser usado para certificar práticas sustentáveis, valorizar a produção diversificada e abrir mercados para produtos diferenciados. Portanto, contribuindo para um futuro rural mais equilibrado entre produção e conservação.

Projeto Semear Digital

Os resultados integram as ações do Centro de Ciência para o Desenvolvimento em Agricultura Digital (Semear Digital). E é liderado pela Embrapa Agricultura Digital com financiamento da FAPESP. A iniciativa objetiva aumentar a participação de pequenos e médios produtores no processo de transformação digital no campo.

As pesquisas são desenvolvidas em 10 Distritos Agrotecnológicos em diferentes regiões do Brasil, funcionando como modelos de tecnologias e serviços digitais para solução de problemas reais. O projeto conta com instituições associadas como Esalq/USP, IAC, IEA, UFLA, Inatel e CPQD.

O estudo completo “Mapping Banana and Peach Palm in Diversified Landscapes in the Brazilian Atlantic Forest with Sentinel-2” está disponível na revista Agriculture.

Legendas das Fotos:

Foto: Thiago Santos/ Divulgação

Cultivo de pupunha em Jacupiranga. Foto: Katia Nechet/Embrapa

Cultivo de banana em Jacupiranga. Foto: Graziella Galinari

Imagem do satélite Sentinel-2, município de Jacupiranga (SP), junho de 2025. Foto: Divulgação