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UFSM

Sapos, pererecas e rãs da América do Sul

Publicado em 19 dezembro 2019

Obra produzida por pesquisadores brasileiros mapeia mais de 2,6 mil espécies de anuros

Em outubro deste ano, a editora alemã Springer publicou o livro “Biogeographic patterns of South American Anurans“, um dos mais completos registros da diversidade de sapos, rãs e pererecas do continente. De autoria de Tiago Gomes dos Santos, Tiago da Silveira Vasconcelos, Fernando Rodrigues da Silva, Vitor Hugo Mendonça do Prado e Diogo Borges Provete, pesquisadores brasileiros que representam diferentes instituições de ensino superior do país, a obra é a mais recentes atualização do número de espécies de anuros da América do Sul.

Para que o mapeamento das espécies fosse possível, os estudiosos empregaram métodos para entender os processos dinâmicos relativos aos padrões de distribuição de espécies. Dessa forma, exploraram como os gradientes de diversidade filogenética, diversidade funcional e distribuição de tamanho dos anfíbios variam ao longo do continente.

Preocupados com a preservação dessa diversidade, os pesquisadores apresentam, no livro, proposta robusta para áreas prioritárias de conservação desses animais na América do Sul. A obra foi realizada com o objetivo de avaliar a influência dos fatores climáticos sobre o desenvolvimento de espécies de anfíbios.

A UFSM está representada na pesquisa. Isso porque Tiago Gomes, biólogo graduado pela instituição e, atualmente, professor vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade Animal, é um dos cinco autores do livro recentemente publicado.

Para o professor, a obra é de extrema relevância, tanto pessoalmente quanto cientificamente. E, para dimensionar a importância da publicação da pesquisa sobre os anuros, o professor Tiago Gomes lembra da obra “Patterns of Distribution of Amphibians: A Global Perspective” (na tradução literal, Padrões de Distribuição de Anfíbios: Uma Perspectiva Global), último levantamento desses animais feito em 1999 por William E. Duellman, professor emérito da Universidade do Kansas, nos Estados Unidos.

“Nessa obra, o pesquisador norte-americano registrou 1.644 espécies de anuros e apresentou uma série de mapas de distribuição que resumiam tais dados. Mas, esse pesquisador tinha poucos recursos para analisar os processos ecológicos e evolutivos que geraram os padrões descritos”, conta. Já na atual pesquisa os registros compilados totalizaram 2.623 espécies e o estudo indica que esse número continuará a crescer.

O nome vem do grego e significa “sem cauda”. Cientificamente, os anuros constituem uma ordem de animais pertencentes à classe Amphibia (Anfíbios), que inclui sapos, rãs e pererecas. Embora os cientistas não utilizem amplamente as diferenças para classificar esses animais, ainda assim é possível distingui-los.

Para Tiago Gomes, a paixão pelos anuros é antiga. Na graduação, ele trabalhava como estagiário da professora Sonia Cechin – que estudava os anfíbios -, hoje diretora do Centro de Ciências Naturais e Exatas. A admiração começou quando observou, em uma pequena poça no campus da UFSM, muitos sapos cantando à noite, no início da primavera. Eram sapos-cururus amarelados.

“Me encantaram irreversivelmente. E, meus primeiros interesses científicos pelos sapos naquela época estavam relacionados ao levantamento de espécies com ocorrência no Campus da UFSM e no monitoramento de espécies na região da Quarta Colônia de Imigração Italiana, em função da execução de projetos hidrelétricos”, lembra.

O professor reforça que os anfíbios participam naturalmente do ciclo de nutrientes e de energia dentro da cadeia alimentar. Eles são presas e predadores de diversas outras formas de vida, desde invertebrados até aves e mamíferos, que, dessa forma, dependem uns dos outros. Assim, têm um papel fundamental na natureza. Mas, além desse papel, os anuros prestam serviços ambientais à humanidade, através do controle de insetos de interesse agrícola (besouros, formigas e outros) e sanitário (mosquitos vetores de doenças como dengue, febre amarela e chikungunya).

“Existe ainda o potencial biotecnológico, já que a pele úmida dos anfíbios é rica em substâncias que eles usam para defesa contra micro-organismos e predadores. Assim, existe uma corrida por moléculas com potencial farmacológico que pode resultar em medicamentos contra diversas infecções, em anestésicos, em antidepressivos e até protetores contra doenças degenerativas”, explica.

Nesse contexto, o livro é extremamente relevante. Ainda, para ele, pesquisar sobre os anuros, além de ter sido um prazer pessoal, já que trabalhou entre amigos, serve para contribuir com a ciência ao mapear grande biodiversidade da América do Sul. Mas, a construção do livro tem, também, um significado a mais.

“Sinto muita satisfação por ter ajudado na construção desse livro, principalmente sob as conjunturas atuais de tamanho ataque à ciência, à educação e às universidades”, conta. Para Tiago Gomes, “Biogeographic patterns of South American Anurans” não deixa de ser uma forma de resposta e de resistência e espera que o livro sirva de incentivo a outras pessoas interessadas em sapos e em biogeografia.

A obra tem 160 páginas e conta com diversas fotografias dos anuros mapeados. Os autores tiveram apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) durante a pós-graduação no Instituto de Biociências, Letras e Ciências Exatas (Ibilce) da Unesp, em São José do Rio Preto, sob orientação da professora Denise de Cerqueira Rossa-Feres, a quem eles dedicam a obra.

Repórter: Leandra Cruber, acadêmica de Jornalismo

Ilustradora: Yasmin Faccin, acadêmica de Desenho Industrial

Mídia Social: Nathalia Pitol, acadêmica de Relações Públicas

Editora de Produção: Melissa Konzen, acadêmica de Jornalismo

Editor Chefe: Maurício Dias, jornalista

Colaboração especial: Tiago Gomes dos Santos (fotografias)

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