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Sapos da Pesquisa: A Trajetória de Marco Stephano

Publicado em 01 outubro 2020

Por Matheus Zanin

Marco Antonio Stephano faz parte da equipe responsável pelo desenvolvimento da vacina por spray nasal contra a Covid-19. Embora, atualmente, esteja trabalhando na área de imunização, o pesquisador da FCF percorreu um longo caminho que demonstra não apenas seu desenvolvimento profissional, mas a importância da valorização da Ciência brasileira.

O professor do Departamento de Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica se formou em Medicina Veterinária, apesar de, durante a adolescência, ter desejado cursar Música. Fez estágio na Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), na área de saúde animal, onde entrou em contato com imunologia básica e, em seguida, entrou no Instituto Butantã, na área de produção de soros.

Stephano não gostava da imunologia básica. “Eu queria aplicar, e a produção de soros me trouxe essa aplicabilidade”, ele diz. Treze anos depois, começou a trabalhar com a produção de vacinas, sendo um dos responsáveis por ajudar na purificação da vacina de difteria.

Passando por várias seleções e tentativas em concursos?—?“meu Curriculum Mortis”, o professor brinca?—?, fez Mestrado em Farmacologia na UNICAMP, após o curso de Imunologia da Universidade receber uma nota baixa pela CAPES e precisar ser transferido. Lá, estudou soros desenvolvidos a partir do veneno de cobras. “Aumentamos em sete vezes a produção de soro anti-surucucu [a maior serpente venenosa do Brasil, cuja produção de soro era difícil], fazendo com que 200 vidas fossem salvas por ano”, destaca.

Por causa de seu trabalho com a purificação de venenos, ingressou na Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil. Fez doutorado em Tecnologia Bioquímico Farmacêutica na Universidade de São Paulo, onde hoje é docente. A intenção de seus estudos era diminuir a toxicidade de venenos e aumentar a resposta imunológica do organismo, servindo de modelo para outros trabalhos.

Durante o doutorado, afastou-se do Instituto Butantã e assumiu a diretoria na área de controle de qualidade em uma empresa líder em saúde animal. “Percebi que não era aquilo o que eu queria, porque muita coisa que eu queria implementar na técnica de produção [de vacinas] precisava de autorização da companhia sediada na França”.

O desejo de aplicação ainda estava muito presente, portanto, o pesquisador decidiu deixar o universo corporativo e retornar ao Instituto Butantã, onde construiu uma área de desenvolvimento de produtos biológicos veterinários e assumiu o setor de garantia de qualidade. Mesmo assim, queria voltar para pesquisa, seu sonho. Então, em sequência, inscreveu-se em um concurso do Departamento de Tecnologia Bioquímico-Farmacêutica. A vaga?—?quase irônica?—?era em Supervisão e Controle de Qualidade, mas lhe permitia atuar na área que tanto sonhava. Finalmente, passou na seleção.

“Eu me perdi, cientificamente, dentro da USP. Apesar de ter projeto aprovado, eu não conseguia fazer ele andar, sentia falta de dar ordens. Por mais que tivesse alunos, a relação é diferente”, o farmacêutico pondera. Nesta época, foi aconselhado a desenvolver um produto próprio para que pudesse continuar sua pesquisa, afinal, dependia da matéria-prima do Butantã para trabalhar.

A partir de 2009, o professor perdeu contato com o Butantã, que sofria com a falta de verbas e, consequentemente, deixou de fornecer matéria-prima para pesquisa. Em 2019, ele seria desligado da pós-graduação, sem verba e sem trabalho.

Desde 2015, porém, ele se interessava por uma nova tecnologia na produção de proteínas e elaborou um projeto sobre esta. Depois, fez convênio com uma empresa para desenvolver uma vacina veterinária, cujo contrato, hoje, está para ser assinado entre ela, USP e Fapesp.

Então, o coronavírus apareceu.

Quando ainda era próximo do Butantã, começou a desenvolver um trabalho sobre hepatite B junto a um orientando, baseado na imunização nasal com nanopartículas. “Tanto eu como ele [o orientando] gostamos de resolver problemas”, o pesquisador aponta. “Não iríamos tirar a hepatite B da imunização brasileira, porque, hoje, ela faz parte de outro grupo de antígenos. Não iríamos tirar um antígeno, dar ele separado e os outros injetáveis. Mas servia como modelo”, explica. No ano em que a tese seria defendida, outro estudo semelhante, da Alemanha, foi publicado, o que levou a Stephano e o orientando a engavetar a pesquisa. Posteriormente, ele tentou desenvolver uma vacina em pó.

Com a chegada da pandemia, o professor sugeriu que o coronavírus fosse tema de pesquisa?—?nos mesmos moldes das anteriores?—?de um pós-doutorando. A Fapesp, porém, não havia aberto bolsa nem projeto regular para vacina de Covid-19, apenas aos que já possuíam projetos temáticos. Desse modo, Stephano adquiriu verba pela Bolsa de Produtividade do CNPq, até que o Instituto do Coração (Incor) ofereceu uma parceria.

O Instituto tinha o antígeno, o grupo de Stephano, a tecnologia farmacêutica de produção das nanopartículas. Logo, o projeto adquiriu grande credibilidade. “Se você quer tirar um projeto da bancada, você precisa de um médico o coordenando”, ele destaca em referência à colaboração do Incor, explicando que, quando o projeto for para estudo clínico, o responsável será um médico.

Recentemente, o desenvolvimento da vacina em spray nasal foi aprovado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações, adquirindo maior verba. “É uma tecnologia totalmente desenvolvida no Brasil, não dependemos de nenhum consultor estrangeiro. Temos todas as condições de criar o controle de qualidade e fazer a parte clínica até a fase um”, o professor enfatiza. “Estamos com pressa, mas cautelosos ao mesmo tempo, preocupados com a segurança do produto final”, completa.

Atualmente, existe apenas uma vacina em spray nasal (de gripe) disponível no mercado do mundo inteiro, com concentração nos Estados Unidos e Europa. O produto brasileiro seria um marco para o país.

“O que eu aprendi nesses anos de USP e Butantã é que engoli muito sapo, mas teve sapo que foi bom de engolir”, Marco brinca ao refletir sobre sua trajetória.

A criação da vacina exemplifica o poder da Ciência brasileira: sim, temos condições de produzir. Contudo, o caminho percorrido por Stephano não foi fácil, e outros pesquisadores passam por dificuldades ainda maiores. Com o exemplo da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, espera-se um avanço e aumento de investimentos em pesquisas nacionais. Se teremos resultados satisfatórios, apenas o tempo dirá.

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