Notícia

Jornal da Tarde

São Paulo prepara o 1º mapa genético do ataque cardíaco

Publicado em 10 agosto 2008

Por Fernanda Aranda

Pesquisadores do Estado de São Paulo vão preparar o primeiro mapa genético do ataque cardíaco no País, algo ainda inédito na América Latina. A proposta das equipes do Instituto Estadual Dante Pazzanese e da Universidade de São Paulo (USP) é avaliar como os “vilões” do coração - cigarro, estresse e pressão alta, por exemplo - agem no organismo, alteram as células e resultam no enfarte. O objetivo é definir políticas de prevenção e o melhor tratamento para as vítimas.

São 350 mil genes humanos que vão compor o mapeamento celular do enfarte. Ao todo, 10 pacientes contribuíram para o ensaio cientifico, todos homens, com idade entre 40 e 65 anos, enfartados nos últimos dois anos na Capital. Eles tiveram o sangue colhido no período em que estiveram internados, O material foi enviado à Universidade da Catalunha (Espanha), onde passará por um sistema computadorizado que monitora quais e como fatores ambientais alteraram as cargas genéticas.

A necessidade de traçar o perfil do enfartado é ressaltada com os números de doenças isquêmicas cardíacas que assolam o País. O Instituto Nacional de Cardiologia mostra que, por ano, são 100 mil enfartes agudos do miocárdio, que resultam em um acúmulo de 35 mil morte. Apenas na Capital, 5 mil paulista nos perdem a vida todos os anos em ocorrências fulminantes no co ração, informa o DataSus.

Na linha de frente do inédito ma pa genético estão os cardiologistas Marcelo Ferraz Sampaio, do Dante Pazzanese, e Mário Hirata, da USP. “As características dos participantes são diversificadas, o que permite uma amostra representativa da população”, diz Sampaio, ao citar que o grupo, selecionado aleatoriamente, é formado por hipertensos, diabéticos, fumantes, obesos e até pessoas que não tinham histórico que justificasse o choque no coração. “Em 2009, queremos inserir mais 100 pacientes na análise. Com isso será possível individualizar o tratamento do enfartado.”

O mapa genético pretende ainda avaliar a interferência de outros fatores de risco, recentemente inseridos nas publicações cientificas. Na Capital, os estudos contemporâneos alertam a prevalência de pacientes cada vez mais jovens, a “invasão” das mulheres entre as vítimas e até os efeitos da poluição no aumento de casos, características próprias do cenário paulistano.

Os hospitais especializados de São Paulo, por exemplo, apontam incidência atual de 12% de enfarta dos jovens (menos de 40 anos), enquanto a média no exterior não ultrapassar 4%. Há dez anos, a parcela de mais novos não chegava a 6% em SP. “O estilo de vida estressante da Cidade acomete desde cedo o jovem, que fica suscetível aos riscos”, alerta Jairo Ferreira, especialista do Hospital Albert Einstein.

A dinâmica da metrópole interfere nas estatísticas. Segundo a Sociedade Paulista de Cardiologia, enquanto na Capital a incidência de doenças isquêmicas é de 360 casos por 100 mil habitantes, a marca brasileira é de 235 no mesmo universo de pessoas, uma diferença de 125 pontos. “A disparidade é explicada por dois fatores principais: melhor diagnóstico dos hospitais e os hábitos de vida de SP”, avalia o diretor da entidade, Antônio Mansur.

Como funciona

Amostra: Dez pacientes do sexo masculino que chegaram ao pronto-socorro do Dante Pazzanese com enfarte, entre 2006 e 2007, e tiveram sangue coletado na mesma hora em que os médicos realizavam o atendimento de emergência.

Procedimento: O material foi enviado à Universidade da Catalunha (Espanha), junto com o sangue de 10 outras pessoas consideradas saudáveis, para comparação. Uma tecnologia avançada chamada “Microarray” permite a geração de um painel eletrônico que mostra, em computador, os genes ativados em cor verde, os inativados em vermelho e os não testados em amarelo, gerando uma espécie de cartão com todas as informações genéticas do paciente na hora da “pane cardíaca” e quais foram os fatores que influenciaram na alteração celular.

Novas Análises: O resultado das análises será encaminhado à Universidade de Michigan (EUA) para avaliação estatística comparativa. Isso contribuirá para que, no futuro, o tratamento seja individualizado e as medicações sejam dadas conforme o perfil genético da pessoa. A conclusão do trabalho deverá ser divulgada pelo Dante no início do próximo ano, quando serão avalia dos mais 100 pacientes.

Investimento: Para a primeira fase da pesquisa, R$ 300 mil serão investidos pela Fundação Estadual de Amparo à Pesquisa (Fapesp).

 

Ele é um dos mapeados

No dia 29 de agosto de 2006, um pouco depois da hora do almoço Nelson Domingos Pinheiro dos Santos parou de fumar. A exatidão com que esse vendedor autônomo morador de Moema, Zona Sul da Capital, lembra quando abandonou o vício é porque, no mesmo instante, ele sofreu um enfarte. “Nunca mais coloquei um cigarro na boca. A sensação de estar perto da morte é horrível”, diz ele, que ficou sem batimentos cardíacos por 45 segundos. “Lembro-me da escuridão total. Não escutava nada, tentava e não conseguia me mexer. Tive certeza que estava morto.”

Santos acordou enquanto os médicos faziam massagem em seu peito. Passou cinco dias internado na UTI do Instituto Dante Pazzanese. Entrou para o grupo de enfartados, com um diferencial: agora ele é um dos 10 pacientes participantes do primeiro mapa genético do ataque cardíaco. “Espero é contribuir com a ciência”

Pai de um casal de filhos adolescentes e casado com Mara Duarte, Santos se encaixa no perfil atual das pessoas que sofrem choques cardíacos na Capital. Sem nenhum histórico familiar que justificasse o problema, ele entrou para as estatísticas aos 42 anos, idade ainda aponta da como precoce pelos especialistas, mas cada vez mais predominante. “Tenho 44 anos hoje e mudei meus hábitos. Parei de fumar e passei a fazer exercícios físicos.”

Apesar do risco que a rotina atual expõe os jovens paulistanos, o cardiologista do Centro de Medicina Preventiva do Hospital Albert Einstein Jairo Neubauer Ferreira, consegue encontrar pontos positivos quando o enfarte acomete os mais novos. “Um evento grave, potencialmente fatal, traz a percepção de que a pessoa não é infalível. Isso deixa as portas mais abertas para a mudança de hábitos. E, quanto mais jovem, mais fácil é a virada na mesa”, argumenta o especialista.