Notícia

Gazeta Mercantil

São Paulo começa a organizar pólo tecnológico

Publicado em 13 março 2000

Por Roberta Lippi - de São Paulo
O governo do estado de São Paulo pretende dar um salto no seu desenvolvimento tecnológico e competitividade em relação ao resto do País. Para isso, não sugere nenhum projeto novo e milagroso para incentivar as empresas. A proposta é bem mais simples: ordenar as ações já existentes dos institutos de ensino e pesquisa - Sebrae, IPT, Fapesp, universidades - e aplicá-las nas empresas de pequeno porte de base tecnológica, agindo em conjunto com as secretarias de governo. Uma das ações mais importantes, por parte da secretaria de C&T, é um centro virtual, que deve começar a funcionar a partir de abril. Sem custos para o empresário e nem para o governo, esse centro, também chamado de câmara, deverá colher todas as demandas das micro, pequenas e médias empresas - que não sabem onde buscar a tecnologia - e encaminhá-las aos institutos que oferecem as respostas. Setores como calçados, têxtil, plásticos, móveis e cerâmica, que formam cadeias produtivas no estado, são as prioridades imediatas. Mas a idéia do governo com esse novo modelo de desenvolvimento é estimular a demanda das pequenas empresas de todos os setores e fazer com que cada produto tenha o maior valor agregado possível antes de sair do estado. A Realplast, microempresa recicladora de plásticos, ilustra bem como esse programa poderá auxiliar na solução de problemas aparentemente simples mas que emperram o desenvolvimento das pequenas empresas. O médico veterinário Luiz Carlos Santos, dono da empresa, estava a ponto de desistir da fábrica - que já não era do seu "metiê" - por falta de conhecimento específico sobre o tratamento com plásticos. Graças a um programa do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), chamado Projeto Unidades Móveis (Prumo), Santos esclareceu todas as suas dúvidas em apenas dois dias. O programa consiste em unidades móveis, que vão até as empresas e solucionam qualquer tipo de dúvida a respeito de tecnologias. A princípio, atua apenas para o setor de plásticos, mas o instituto já está solicitando verba ao Sebrae e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para agir em cinco outros setores. "Com a ajuda do IPT conseguimos melhorar a produtividade e pretendemos dobrar a produção atual de 45 toneladas mensais de grãos (de plástico) até o início do próximo semestre", conta Santos. "As pequenas e médias empresas precisam de tecnologia arroz com feijão", diz o diretor técnico do IPT, Vicente Mazzarela. referindo-se à "baixa tecnologia" que demandam essas empresas. Para ele, ações como essa das unidades móveis pode ajudar - e muito - a reduzir a mortalidade das MPEs. Essas unidades examinam todas as atividades das empresas que as procuram para tentar descobrir as falhas. Os processos são verificados, desde a compra de matérias-primas até o processo final. O secretário de Ciência, Tecnologia e Desenvolvimento Econômico, José Aníbal, reforça: "os resultados do Prumo fazem parte de todo um esforço de reativação da formidável retaguarda que existe nos institutos de pesquisa paulistas". Segundo ele, não existe nada no nível dos institutos de São Paulo em nenhum outro local em todo o Hemisfério Sul. "Com as finanças consolidadas, o estado pode ter uma ação mais forte de indução do investimento", diz o secretário. Segundo ele, o programa terá um fundo de aval para os pequenos empresários, onde 80% da garantia do empréstimo será feita pelo governo e pelo próprio Sebrae. A idéia do centro virtual, que faz parte do Projeto de Desenvolvimento Tecnológico para São Paulo, apresentado pelo Instituto de Engenharia (IE) ao governo estadual e aceito pelo governador Mário Covas no início de fevereiro, é usar o potencial que já está instalado no estado, otimizar os recursos e estimular o desenvolvimento com o enfoque de cadeia produtiva. "São Paulo tem um vasto parque industrial com pequenas e médias empresas de base tecnológica. Esse potencial, orientado pelos competentes institutos de pesquisa do estado, é o que o diferencia dos outros estados", diz o presidente do IE, Cláudio Amaury Dall'Acqua. O setor agrícola, exemplifica, é bastante atrasado em tecnologia e um dos grandes enfoques: "Por que produzir só o café e vender para fora se as empresas têm condições tecnológicas de agregar valores a todo o processo produtivo aqui mesmo e vender o café industrializado?", diz. "É isso que pretendemos oferecer às empresas, e não isenções de impostos como as que são feitas nessa perversa guerra fiscal". À parte desse projeto do IE, a secretaria de Agricultura e Abastecimento do estado também está buscando o desenvolvimento tecnológico com ações regionalizadas e utilizando os recursos disponíveis pelos mais diferentes institutos de pesquisa ligados à secretaria e ao governo estadual. Diagnosticando a realidade de cada uma das 40 regiões em que a secretaria atua no estado, pretende-se desenvolver ações integradas para formar pólos de desenvolvimento. "Na pecuária de leite, por exemplo, o Instituto Agronômico de Campinas examina a grama da região; o Instituto Biológico avalia as doenças; o Instituto de Tecnologia de Alimentos diz a melhor forma de processar o leite e assim por diante", explica o secretário da Agricultura e Abastecimento, João Carlos de Souza Meirelles. "Esse novo modelo de desenvolvimento não é um pólo de pesquisa, é apenas a oferta de soluções para demandas específicas, esgotando a transformação industrial de cada região", ressalta Meirelles.