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Engenhar

São Paulo, cidade onde inovar

Publicado em 01 novembro 2012

A cidade de São Paulo é a 13ª entre as 20 localidades com ecossistemas mais propícios para inovação, aponta o estudo Startup Ecossystem Report 2012, feito pela Telefónica Digital, braço de inovação do grupo espanhol de telefonia, em parceria com a empresa Genome. “Esse estudo indica que existem no Brasil lugares atraentes para empreendedorismo tecnológico e que estão no páreo pela disputa dessas iniciativas. Precisamos aproveitar isso”, destaca Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, (Fapesp). Além de atuar na Fapesp, Brito Cruz é um dos especialistas brasileiros frequentemente consultados pelos setores público e privado quando se trata de discutir inovação. Ele recebeu Engenhar para falar sobre as vantagens que levaram o município paulista a se situar entre os 20 lugares mais atrativos para quem quer empreender hoje no mundo. Na pesquisa, o primeiro lugar ficou com o Vale do Silício, nos Estados Unidos, mas a capital paulista ficou à frente de cidades como Moscou, na Rússia, e Melbourne, na Austrália. O estudo levou em consideração 50 mil startups de todo o mundo. Entre os países da América Latina, apenas Brasil e Chile apareceram no ranking.

São Paulo pode replicar o modelo do Vale do Silício, que aparece em primeiro lugar na pesquisa Startup Ecossystem Report 2012?  

Esse estudo mostra que São Paulo tem várias características favoráveis para que abrigue um ambiente estimulante para o empreendedorismo tecnológico, mas isso não quer dizer que será igual ao Vale do Silício. O estudo, sabiamente, percebe que o Vale do Silício é muito bem sucedido. Ao mesmo tempo, não indica que este seja o único modelo para o desenvolvimento baseado em empreendedorismo. Nos anos 1960, o Vale era ocupado pela indústria aeroespacial, que enfrentou uma crise no começo da década de 1980. Com a tecnologia da informação, o lugar se reinventou. O que ajuda Brito Cruz: São Paulo tem várias características favoráveis para que abrigue um ambiente estimulante para o empreendedorismo tecnológico. muito o Vale do Silício a criar novas oportunidades é o fato de terem uma base fortíssima de oferta de pessoas bem qualificadas. Essa oferta atrai outras pessoas, e com isso temos muitas ideias ocorrendo no lugar.  

Isso acontece em São Paulo?  

Sim, mas precisa acontecer mais. São Paulo tem universidades muito boas, tem oferta de engenheiros, pesquisadores, cientistas de várias áreas, mas é muito grande. A cidade precisa de uma oferta muito maior de pessoas qualificadas para a inovação. De qualquer forma, um dos elementos mais interessantes do estudo é o fato dele indicar que existem no Brasil lugares atraentes para o empreendedorismo tecnológico. Temos de aproveitar essa vantagem.

São Paulo hoje é uma cidade de serviços, enquanto empreendedorismo e inovação são conceitos que costumamos vincular mais às atividades industriais. Que tipo de inovação, de atividade empreendedora podemos ver na capital paulista?

O Vale do Silício também é assim. Esse estudo fala de empreendedorismo, mas está muito ligado ao setor de TI, à indústria de software. O fato de a economia paulistana ser muito baseada em serviço é um indicador de que nosso ambiente, nesse aspecto, é similar ao que existe no Vale e em outros locais.

Nas propostas apresentadas pelas empresas para os programas da Fapesp de apoio à P&D, vocês detectam a presença de serviços, do setor de TI em São Paulo?

O programa Pipe [Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas], voltado para as pequenas empresas, é mais atraente para empresas industriais do que para empresas de TI. Portanto, o perfil das apoiadas pelo Pipe não reflete bem o ambiente local. Mas o município de São Paulo é o lugar que tem mais projetos no Pipe. Um dos indicadores analisados nesse estudo é a proporção de pessoas com mestrado e doutorado nas startups existentes nas cidades, e São Paulo se sai bem, tem uma proporção similar à do Vale do Silício. O resultado dessa pesquisa deveria nos estimular a facilitar essas iniciativas, aproveitando as oportunidades. Uma das coisas que favorece a vida de uma startup no Vale do Silício é a proximidade e a facilidade de contatos e comunicação entre elas, o que não ocorre em São Paulo. Mas podemos mudar essa situação. Dentro da política do governo do Estado de São Paulo de criação de parques tecnológicos, temos a iniciativa de construção de um parque no Jaguaré [Zona Oeste da capital], por exemplo. As empresas fi carão perto da USP, do IPT, do Instituto Butantan, das rodovias. A questão da mobilidade em São Paulo é um obstáculo para a vida da cidade e para o funcionamento dos negócios. Tudo que puder ser feito para regionalizar as atividades vai ajudar.

A Fapesp participa da formação do parque?

A Fundação apoiou a pesquisa que subsidiou o planejamento do parque. Certamente vamos financiar empresas que vão se instalar ali. O programa dos parques tecnológicos começou em 2007 e atualmente o governo está discutindo com os empreendedores. Essa não pode ser uma iniciativa exclusivamente estatal, é preciso haver uma associação com o setor privado.

São Paulo tem políticas municipais para essa área?  

O município se interessou pelo programa estadual de parques tecnológicos e tem trabalhado no projeto em parceria com o Estado. A Prefeitura tem dívidas com a União, mas muitas grandes cidades têm dificuldades semelhantes e procuram saídas. Por exemplo, a prefeitura de Nova York viu que, para ser uma cidade mais empreendedora, precisaria ter mais gente, mais instituições de pesquisa e tecnologia. No sistema norte-americano, o governo deve criar oportunidades e não necessariamente financiar as iniciativas. A prefeitura de Nova York tinha um terreno na Ilha Roosevelt. Ela fez uma concorrência internacional em que qualquer universidade podia se candidatar, inclusive associada a outras, para ocupar esse terreno em regime de concessão. A universidade precisava ter um plano de construção de um campus, encontrar as fontes de financiamento, contratar professores etc. Havia outras condições, de interesse público: o campus precisa ter cursos de engenharias, de tecnologia da informação, de políticas sociais, promover conexão entre ciências sociais e engenharias etc. A proposta vencedora foi a da Universidade de Cornell em parceria com o Technion, de Israel. Na véspera da decisão, Cornell ganhou US$ 2 bilhões de um grande doador. É um exemplo de como o Estado usa a inteligência para mobilizar o setor privado a atender o interesse público. Se a cidade de São Paulo fizesse algo assim, teria propostas interessantes.

As empresas aqui têm uma situação melhor em termos de fi nanciamento à inovação, de forma que permita a São Paulo aproveitar o potencial indicado na pesquisa?

Para certa parte do financiamento à inovação há um bom acesso, competitivo, como em qualquer lugar do mundo. O programa de subvenção econômica é competitivo. Tivemos também a lei que criou os incentivos fiscais à inovação. Isso tudo torna o ambiente favorável. A dificuldade maior, atualmente, está na obtenção de financiamento para as etapas seguintes às de P&D, quando a empresa parte para a produção, quando a inovação vira realmente negócio. Essa fase, em geral, recebe financiamento que vem do setor privado, mas no Brasil ainda não temos um bom volume de capital de risco para empreendimento tecnológico. Isso também aparece no estudo da Telefónica. O sistema econômico brasileiro permite a quem tem capital ganhar mais dinheiro fazendo investimentos mais seguros do que aplicar recursos em empresas de tecnologia. Enquanto o prêmio por especulação financeira for maior, não se consegue dirigir o capital para investimento em indústria, produção, criar serviço, tornar ideia um produto. É uma restrição no Brasil. Com a queda dos juros talvez isso melhore.

Qual o papel de uma fundação de amparo à pesquisa, que é um órgão público, na criação desse ambiente mais adequado para o empreendedorismo?

Não é por acaso que a cidade de São Paulo apareceu nesse ranking. Ela está em um Estado que aplica em pesquisa, que investe para ter boas universidades, institutos, tem uma fundação de amparo sólida, que cria um ambiente propício para construção do conhecimento e formação de pessoas. Mas há um equívoco na visão de muitos planejadores e políticos quando pensam a estratégia da política nacional: o investimento em pesquisa, especialmente pesquisa acadêmica, ficou dominado pela condição de o Estado contar ou não com uma fundação de amparo à pesquisa. Não é a fundação que vai fazer pesquisa, são os pesquisadores. A Fapesp é a menor parte do dispêndio paulista em ciência e tecnologia, o grosso do investimento é direcionado para nossas boas universidades e institutos. Em outros Estados, pede-se para Brasília fazer uma universidade federal, e esta tem várias restrições: não pode contratar, não pode demitir, não tem autonomia, não consegue usar o dinheiro.

E como estão os programas da Fapesp para apoiar a inovação nas empresas? Há movimento em outras fundações nesse sentido.

A Fapesp tem programas de apoio às empresas desde 1997. Algumas fundações criaram programas para apoiar as empresas, mas às vezes são interrompidos por causa da dependência dos recursos federais. No nosso caso, entre 2009 e 2010, contratamos uma equipe para fazer uma avaliação do Pipe. O estudo nos mostrou que, para cada R$ 1 que a Fapesp aplicou no Pipe, as empresas mobilizaram, em faturamento ou em recursos próprios, R$ 11. A porcentagem de empresas que superam o faturamento de R$ 25 milhões ou de R$ 50 milhões após o apoio do Pipe é igual ao que se observa em um programa semelhante da National Science Foundation (NSF), dos Estados Unidos. Temos resultados similares aos deles. Por exemplo, o aumento de empregos de mestres e doutores é de 90% entre as participantes do Pipe. Por outro lado, o estudo nos mostrou desafios: depois que obtém o Pipe, a empresa tem muita dificuldade para conseguir o apoio do capital de risco para entrar na produção. Elas têm menos empresas da NSF. Estamos fazendo agora um esforço por causa de outro desafio. Após o surgimento do programa de subvenção federal, percebemos que as empresas se dividiram: algumas estão pedindo recursos na Fapesp e outras no sistema federal. O problema é que não observamos aumento no número de empresas. Aparentemente, a capacidade de criar essas empresas está limitada a outra coisa que não é recurso. Estamos fazendo um esforço grande para divulgar o edital do Pipe, promovendo reuniões, ajudando na capacitação dos proponentes. Temos ajuda de vários parceiros nessa iniciativa, como a Anpei.

E o Pite [Programa de Apoio à Pesquisa em Parceria para Inovação Tecnológica, focado nas grandes empresas]?

Há uma enorme procura. Até 2006, a Fapesp esperava vir o projeto, depois começamos a fazer acordo com empresas. Aumentou a quantidade desses editais conjuntos e a qualidade dos projetos. Nos primeiros dez anos do Pite eram sempre projetos curtos, de um ou dois anos, uma coisa mais incremental. Há uns dois anos a ETH nos procurou perguntando se não podíamos ter projetos mais longos, de cinco anos, pois gostariam de fazer projetos mais complexos e ousados. Então, mudamos a regra. Agora lançamos um edital com a Peugeot Citröen para fazer um centro de pesquisas em engenharia. Serão aplicados R$ 16 milhões por 10 anos para tratarem de um plano de pesquisa multidisciplinar e ousado em motores a biocombustível. Vamos apoiar centros desse tipo da British Gas e da British Petroleo. Há seis anos estamos trabalhando em parceria com a Microsoft Research. Em geral, as multinacionais têm procurado por esses projetos mais ousados. As empresas nacionais estão, aparentemente, premidas por necessidades mais imediatas. Isso não é necessariamente negativo, indica uma característica, é o que ajuda a empresa a prosperar, e a Fapesp quer contribuir nesses termos também, mas é bom ter várias possibilidades, pois projetos de longo prazo ajudam a atrair pesquisadores, estudantes, pós-docs estrangeiros, e faz de São Paulo um hub mais forte.