Notícia

Jornal do Commercio Brasil (SP)

São Carlos será "Vale do Silício" paulista

Publicado em 27 outubro 2008

A primeira fábrica de semicondutores do País será instalada em São Carlos, no interior paulista.

 

Considerada referência nacional em pesquisa e inovação tecnológica, a cidade abrigará a filial brasileira da multinacional Symetrix Systems, por meio de parceria da empresa norte-americana com a prefeitura local, Secretaria Estadual do Desenvolvimento e Grupo Encalso-Damha.

A construção da unidade está prevista para começar em julho de 2009, no Parque Eco-Tecnológico Damha, localizado em terreno vizinho ao da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), que fica a 230 quilômetros da capital. Com investimento inicial de US$ 250 milhões, a fábrica deverá receber aportes de até US$ 1 bilhão até 2011, quando entrará em operação.

O estudo de materiais semicondutores é o passo inicial para instalar uma indústria local de eletroeletrônica e informática. De tamanho microscópico, o semicondutor ajuda a transmitir e a controlar a passagem da corrente elétrica em placas e circuitos. É usado em pentes de memória e processadores (chips) de computador. Está presente em aparelhos como telefone celular, câmera fotográfica digital, TV de alta definição e tocador de MP3.

O projeto tem como objetivo reproduzir em São Carlos, guardadas as devidas proporções, o fenômeno do Vale do Silício, na Califórnia, berço da indústria de informática dos Estados Unidos. A produção estimada é de 100 milhões de chips por ano e atender à demanda da indústria brasileira, que atualmente os importa da China e de países asiáticos.

A área do "Vale do Silício" paulista começa na Região Metropolitana de Campinas, segue nas margens das rodovias Anhangüera (SP-330) e Bandeirantes (SP-348), passa por Ribeirão Preto e vai até São José do Rio Preto pela Washington Luiz (SP-310). A expectativa é que uma cadeia paulista de fornecedores de produtos e serviços tecnológicos seja formada nos municípios vizinhos, gerando emprego, renda e impostos, para atender às demandas da filial brasileira da Symetrix. Parte dos oito mil alunos que concluem estudos na região a cada ano passarão também a ter a possibilidade de se tornarem empresários.

Criada na década de 1980 no Estado norte-americano do Colorado pelo brasileiro Carlos Paz de Araújo, a Symetrix Systems deixou de ser instalada em cidades concorrentes nos estados do Rio de Janeiro e Pernambuco, principalmente, porque São Carlos abrigar uma das duas sedes do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos (CMDMC). Trata-se de um dos principais Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). O CMDMC é coordenado pelos professores Élson Longo e José Arana Varela, do Instituto de Química (IQ) da Unesp. A dupla também lidera um grupo de 120 cientistas de instituições públicas como USP-São Carlos, Ufscar e Unesp.

Nanotecnologia

O Centro concentra em Araraquara e em São Carlos grande parte da pesquisa brasileira em nanotecnologia. É uma área científica multidisciplinar, ainda desconhecida de grande parte da população e promissora para gerar empresas e pesquisas. A nanotecnologia propõe alterar, com fins específicos, as propriedades de átomos e moléculas para obter novas funcionalidades e materiais. Suas aplicações integram a fabricação de componentes para computadores, medicamentos, materiais odontológicos, cosméticos, espelhos telescópicos, pilhas, tintas, panelas e plásticos.

O CMDMC faz pesquisa básica e aplicada, porém não cria nem vende produtos. Transfere tecnologia para empresas por meio de convênios e atende a demandas específicas, com soluções sob medida. Exemplo: melhorar as propriedades físicas, químicas ou mecânicas de um composto ou processo usado pelo semicondutor.

Com a Symetrix, o convênio está previsto para ser assinado até o final do ano. Em contrapartida, o CMDMC envia alunos e pesquisadores para estagiar nas empresas e reinveste os recursos financeiros obtidos na formação de pessoal e compra de equipamentos.

Fim das caixas registradoras

Um dos coordenadores do Centro Multidisciplinar para o Desenvolvimento de Materiais Cerâmicos, o professor Élson Longo destaca o pioneirismo do grupo multidisciplinar na pesquisa internacional com materiais ferroelétricos. Ele explica que a inovação substitui as memórias magnéticas convencionais com muitas vantagens.

A memória ferroelétrica suporta regravações infinitas, tem menor custo de produção, capacidade de armazenamento 250 vezes maior e permite leitura sem contato mecânico ou físico com a superfície em até seis metros de distância. Por exemplo, em um supermercado o atendente não precisará mais aproximar cada produto do leitor de código de barras. Ao chegar ao caixa, o sistema mostrará na tela quais itens o cliente colocou no carrinho e o total da conta.

A nova fábrica de São Carlos produzirá também chips para Smart Card, o cartão recarregável já usado no transporte público da capital (Bilhete Único), em prontuários médicos e na telefonia celular.

Por reunir várias funcionalidades num único material, a memória ferroelétrica também é alternativa pesquisada por diversas empresas no mundo para processar informações em alta velocidade. De acordo com Longo, esta necessidade vem crescendo com a expansão de dispositivos sem fio, como computadores de mão e celulares, que operam em baixa voltagem e exigem capacidade cada vez maior de processamento e armazenamento de informações.