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Tribuna do Planalto online

Sangue e reflexão

Publicado em 28 fevereiro 2013

Por Thaís Lobo

A violência no cinema sempre foi alvo de muita polêmica. Dessa vez, acompanhando o sucesso da mais nova película do gênero em cartaz, o filme Django Livre, de Quentin Tarantino, foi lançado pela Editora Terceiro Nome, o livro Imagem-Violência: Etnografia de um Cinema Provocador, escrito por Rose Satiko Gitirana Hikiji, professora de Antropologia da Universidade de São Paulo (USP).

No livro, a autora utiliza a abordagem da Antropologia Visual para analisar uma série de filmes lançados na década de 1990 como Cães de Aluguel e Pulp Fiction, de Quentin Tarantino; Violência Gratuita, de Michael Haneke; Fargo, dos irmãoes Coen; A Estrada Perdida, de David Lynch, entre outros.

A conclusão da autora é de que a violência, antes de ser uma representação direta da realidade, é uma maneira de pensar nossa relação com ela e de provocar no espectador uma reflexão sobre a sociedade. “As pessoas não se tornariam mais ou menos violentas por ver filmes, mas alguns deles (filmes) podem provocar novas formas de pensar o assunto”, explica.

De acordo com Rose, os filmes violentos podem, inclusive, ser analisados e discutidos em sala de aula, juntamente com os professores. Para ela, a ironia e a violência empregada nessas obras são fatores que estimulam o questionamento, que é essencial para ampliar perspectivas sobre o mundo e de nós mesmos.

O que levou a senhora a trabalhar esse tema de cinema e violência?

Eu tinha feito alguns cursos na USP e tomei conhecimento da Antropologia Visual que, naquele momento, tinha a ver com pensar os filmes em relação à sociedade e o cinema como um produto cultural relacionado a ela. Essa pesquisa tem início em 1996, quando eu conheci essa abordagem da análise fílmica por meio da Antropologia. E era uma época em que alguns filmes que eu analisei começavam a ter bastante destaque na mídia, na crítica cinematográfica e também em alguns meios acadêmicos justamente por estarem trazendo a temática da violência de uma forma diferente da qual ela estava sendo tratada até então.

Muitos especialistas acreditam que o cinema influencia a sociedade. Há casos na Inglaterra, por exemplo, de pessoas que, após assistir o filme Laranja Mecânica, saíram nas ruas praticando atos de violência fantasiados como os personagens da obra. Nesse sentido, a violência pode ser estimulada com um filme? Como a senhora percebe essa relação?

Eu acabei fugindo um pouco dessa perspectiva de pensar nessa relação do cinema como algo que geraria ou provocaria uma ação direta na sociedade. É claro que existem casos. Mas, em geral, são casos em que a pessoa vai ao cinema, assiste um filme e decide atirar no público. Contudo, não foi esse meu foco de abordagem porque eu entendo que são sujeitos que já tem uma predisposição e o filme foi o disparador dessa violência. Mas qualquer outra coisa, como uma discussão familiar ou outro estímulo poderia ter despertado isso porque a pessoa já tinha essa predisposição.

Então qual é o seu foco nessa pesquisa?

Eu analisei filmes violentos e acabei pensando essas obras a partir de uma perspectiva de que eles são menos um reflexo da sociedade do que uma forma de pensar sobre ela, de refletir sobre.

Os filmes seriam, então, uma forma de questionar a cultura de violência da sociedade atual?

Seria uma forma de provocar a reflexão. Na verdade, é claro que não é qualquer filme que reflete sobre isso. Muitos talvez simplesmente estimulem o nosso voyeurismo, ou seja, o nosso desejo de ver a ação e resolução violenta do conflito. No caso, eu selecionei filmes que estimulem a reflexão.

E como essa reflexão é estimulada nos filmes violentos?

Essa provocação da reflexão pode se dar por mecanismos próprios ao cinema como, por exemplo, o cineasta que mantém a sua adesão, a sua necessidade de vínculo com determinado personagem ou situação. Daí em algum momento do filme ele lança o questionamento sobre o porquê de você estar torcendo para aquele personagem ser morto. É interessante que eles questionam a violência não por meio de um mecanismo dissertativo e expositivo, mas, muitas vezes, pelo uso da ironia, provocando o riso e determinados sentimentos no espectador, utilizando bem a própria linguagem cinematográfica.

No seu livro, a senhora chama a atenção para o humor dos filmes violentos. Como funciona essa relação entre o riso e a violência?

O que me chamou a atenção, inicialmente, em vários dos filmes que eu decidi analisar foi justamente a reação do público. São filmes que eu acompanhei nas salas de cinema e eram filmes que, ao apresentar situações de violência física, como tiroteios, decepações, agressões físicas e muito sangue, provocava o riso na plateia. Os espectadores, nessas situações, riam muito. Isso me chamou a atenção porque me pareceu que essa não era a reação mais comum em virtude do tema e de como ele estava sendo apresentado. Essa foi uma das coisas que, naquele momento, na década de 1990, começou a ser chamado pela crítica como um cinema da crueldade irônica; era um termo do Jean Claude Bernadet, por exemplo.

A crítica cinematográfica fala muito em humor negro. Seria apenas isso?

Sim, é um humor negro, mas caracterizado com muita ironia. Talvez uma espécie de humor negro, com o humor se sobressaindo. É uma representação muitas vezes grotesca da violência, de um grotesco que tende para o ridículo e o cômico. Por exemplo, no cinema do Tarantino, o que vemos é uma representação da ação violenta muito típica do filme policial, mas em que o uso de alguns mecanismos e a apresentação é de tal forma exagerada, que chega a provocar risada. E esse riso, dado pelo tempo do filme e pela maneira como as coisas são mostradas, acabam levando o espectador, na minha compreensão, a ter que refletir sobre a própria expectativa que ele tem em relação ao filme.

E quanto aos outros filmes analisados?

Percebi isso também no filme do Haneke, Violência Gratuita, onde somos conduzidos a acompanhar a ação, a desejar uma resolução violenta para ela, mas, em determinado momento do filme, ele utiliza um recurso onde o ator olha para a câmera e fala diretamente com o espectador, o que nos faz pensar sobre o que estávamos desejando: nós desejávamos a morte dos protagonistas da forma mais espetacular possível e o diretor nos faz perceber esse nosso desejo de resolução violenta da situação, esse nosso próprio voyerismo.

O cinema tem investido muito em recursos que deixem a cena mais realista, como a tecnologia 3D, que faz com que o espectador se sinta “dentro do filme”. E os filmes de ação e violência são os que mais fazem sucesso nessa área. Porque o público gosta tanto de filmes violentos?

Eu sigo uma linha que pensa o cinema como uma possibilidade de nós vivenciarmos situações que não seriam possíveis de serem experimentadas na vida. Então, o cinema acaba sendo uma forma de você viver, por meio de um mecanismo de projeção e identificação, milhares de outras vidas que você jamais poderia ter vivido. Existe um mecanismo voyeurista que é extremamente prazeroso, que é o de você se identificar com o personagem e com uma ação.

E, por meio dessa identificação, é possível experimentar outras vidas e situações que você não viveria normalmente em sua vida. E uma das situações que o cinema mais explora é a da ação que contrapõe o bem e o mal, o héroi e antiheroi e geralmente isso envolve boas doses de violência. Isso tem a ver com essa carência de experiência que temos na nossa vida e com o desejo de experimentar coisas que só podemos por meio da ficção.

Quando falamos de cinema e violência, o nome mais lembrado é do diretor Quentin Tarantino. Ele se tornou cultuado pela nova geração de cinéfilos e está lotando as salas de cinema com o novo filme Django Livre, que já foi premiado no Globo de Ouro e agora concorre também ao Oscar. Porque Tarantino faz tanto sucesso?

No livro, eu pude analisar os dois primeiros filmes do Tarantino - Cães de Aluguel e Pulp Fiction. Depois eu acompanhei os demais como espectadora e sem a preocupação com a análise. Mas nos dois primeiros já tem ali os elementos que fizeram do Tarantino o sucesso que ele é, inclusive no Django Livre. Acho que o principal fator seja essa metalinguagem que é característica desde o primeiro filme. Ele sempre explorou citações diretas ou indiretas da obra de outros cineastas e brincou muito com a linguagem cinematográfica de um jeito criativo e livre.

A forma não-linear como ele conta a história, as interrupções, os flashbacks, ou seja, uma série de elementos tanto metalinguísticos como o modo como ele explora a cultura pop, seja música ou referência a alguns personagens e ícones. No Pulp Fiction ele traz de volta o John Travolta, que há dez anos não fazia sucesso, recuperando o que ele foi em um outro momento, o do filme Os Embalos de Sábado à Noite. Ele tem a capacidade de fazer referência e brincar com a própria história do cinema para contar suas próprias, que são quase sempre caracterizadas também pelo uso da violência de forma exagerada, quase pastelão mesmo.

Muitos professores costumam utilizar filmes para ilustrar determinados conteúdos e até trazer reflexões sobre a própria sociedade. Tendo como base seus estudos, como esses filmes de violência poderiam ser usados em sala de aula?

Eu acho que bons filmes, respeitada a faixa etária, que tematizam questões importantes históricas, sociológicas e culturais podem ser utilizados em sala de aula com o cuidado do professor. O educador tem que se atentar pela forma com que se constrói a questão. Por exemplo, alguns desses filmes que eu analiso foram muito criticados pelo uso exacerbado da violência, pelo seu estímulo e banalização.

Você tem que identificar esses usos, de que maneira essa violência está sendo apresentada, porquê o diretor optou por apresentar desse jeito e não de outro. É um pouco esse trabalho de desconstrução da película que eu realizei no livro, mas que o espectador e o professor podem fazer também, chamando a atenção para a maneira como os personagens são construídos e de que forma o maniqueísmo é ou não trabalhado.

No filme policial nós temos aquela estrutura de bem e mal, onde vencer o mal justifica qualquer tipo de ação do bem, inclusive, o emprego da violência. Em alguns dos filmes que eu analiso, essa separação de bem e mal é bastante problematizada. E essa guerra e oposição óbvia entre o bem e o mal sempre é um tema interessante para ser trabalhado na escola com os alunos. Eu acho que, por exemplo, o Django Livre, é um filme muito pesado, mas poderia ser trabalhado com alunos do Ensino Médio para discutir a escravidão e a violência, chamando a atenção para a forma irônica como ele aborda alguns aspectos, inclusive as polêmicas que ele tem causado.

A seleção que fiz no livro são de filmes provocativos, que geram discussão. Eu acho que essa provocação é muito importante num momento em que pessoas vão ao cinema somente para se divertir. São filmes que trazem outra perspectiva, que não negam o riso, mas estimulam uma reflexão e, por isso, são obras interessantes para serem discutidas, inclusive em sala de aula.

O que é e o que faz?

Rose Satiko é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (1992) e em Ciências Sociais pela USP (1995). Possui mestrado (1999), doutorado (2004) e pós-doutorado (2005) em Antropologia Social pela USP. Atualmente é professora do Departamento de Antropologia da USP e coordenadora de Pesquisas em Antropologia Musical da mesma universidade. É autora do livro A Música e o Riso (Edusp/Fapesp, 2006) e coorganizadora dos livros Escrituras da Imagem (Edusp, 2004) e Imagem e Conhecimento (Papirus, 2009).

Estagiária convênio Tribuna/PUCGO