Notícia

Jornal da USP

SANEAMENTO - Lugar de lixo é no lixo

Publicado em 13 junho 1999

Por IZABEL LEÃO
Pesquisar os recursos hídricos e os problemas provenientes dos resíduos sólidos tem sido uma das tarefas desempenhadas pelos especialistas do Instituto de Geociências da USP. Alberto Pacheco, José Milton Benedetti Mendes e Ricardo Hirata, professores do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental do instituto, têm em comum a proposta de contribuir para que o mundo no próximo milênio seja mais "eficiente, confortável, limpo e justo". Trabalhando com os temas "A Importância dos Solos na Implantação de Cemitérios" e "Resíduos Sólidos Urbanos", Alberto Pacheco, especialista em resíduos, conta que a situação do lixo urbano se constitui num dos mais sérios problemas de caráter ambiental e de saúde pública devido à sua disposição inadequada em área urbana. Preocupado, por exemplo, com a situação em que se encontra o lixão de Carapicuíba, implantado há 19 anos naquela cidade da região metropolitana de São Paulo, o professor e sua equipe vêm estudando as conseqüências que essa forma de disposição pode causar para a população e o meio ambiente. "Esse problema, além de consistir na descaracterização da paisagem, maus odores, contaminação do solo e das águas superficiais e subterrâneas, causa também doenças transmitidas por mosquitos, baratas e ratos, por exemplo, visto que no local dezenas de catadores sobrevivem coletando o lixo reciclável", explica Pacheco. "Entre estes catadores há crianças que buscam alimento no lixo, correndo sérios riscos de saúde." Segundo a Agenda 21 Global, roteiro de ações visando a adoção de um desenvolvimento sustentável no próximo século, cerca de 5,2 milhões de pessoas, entre elas 4 milhões de crianças menores de cinco anos, morrem a cada ano devido a enfermidades relacionadas com o lixo. Os resultados para a saúde são especialmente graves no caso da população urbana pobre. "Tratar a questão do lixo com responsabilidade preserva o meio ambiente e garante o desenvolvimento sustentável", diz Pacheco. O lixão de Carapicuíba ocupa uma área de 75 mil m2 e tem 20 metros de altura e, de acordo com informações da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb), são despejados clandestinamente todos os dias uma média de 200 toneladas de resíduos. "A sociedade brasileira exige uma política moderna para os resíduos sólidos. É urgente priorizar a coleta do lixo e o fechamento dos lixões, responsáveis pela poluição do ar, dos solos e das águas e pelo agravamento de problemas de saúde pública", afirma Pacheco. LIXÃO VERSUS ATERRO SANITÁRIO Segundo Pacheco, o problema do lixo é nacional. "Fora o lixão de Carapicuíba, o maior de todos, há 116 depósitos de lixo, entre ativos e desativados, na região metropolitana de São Paulo, ocupando uma área de 20 km2", explica Pacheco. "Só que, deste total, apenas 20 deles são aterros sanitários e controlados." Entende-se por aterro sanitário um espaço destinado à deposição do lixo feito de forma controlada, monitorada e sob certas normas de higiene. Já lixão, é todo e qualquer espaço onde os resíduos são depositados aleatoriamente. E por aterro controlado, um lixão melhorado, que continua gerando impactos ambientais e sanitários muito graves. De acordo com dados do IBGE de 1991, 76% do lixo urbano vai para o lixão, 13% para aterros controlados e 10% para aterros sanitários. Deste total, 99% do lixo é colocado diretamente no solo, 0,9% vai para compostagem e 0,1% é incinerado. "A questão do lixão de Carapicuíba insere-se na falta crônica de uma política de resíduos sólidos urbanos para a região metropolitana de São Paulo e também para todo o País", declara Pacheco. "Cerca de 70% desta região está na Bacia do Alto Tietê e nesta área está todo o aglomerado urbano, abrigando um população de aproximadamente 16 milhões de pessoas. Este contingente populacional gera cerca de 17 mil toneladas de resíduos por dia, que têm diferentes formas de disposição final no solo." Segundo o inventário concluído pela Cetesb no início de março de 1998, no qual foram pesquisados 654 municípios paulistas, apenas 27 dispõem seu lixo domiciliar de maneira adequada. Sem contar que a maioria dos municípios deposita os resíduos em lixões. Em levantamento feito pela Cetesb, em 1990, foram catalogados na região metropolitana de São Paulo 43 lixões de resíduos hospitalares, químicos, industriais e domiciliares, sendo que 87% dos resíduos coletados são descarregados em lixões públicos e aterros controlados. "Ou seja, são 14,5 mil toneladas por dia, que se não forem devidamente gerenciadas poderão estar poluindo os recursos hídricos", observa Pacheco. O caso de Carapicuíba, de acordo com Pacheco, é apenas um exemplo típico, em que se aplicam grandes somas de recursos em máquinas e caminhões para garantir apenas a frente de descarga, em detrimento dos investimentos em itens básicos como drenagem de chorume (líquido que se forma do lixo em decomposição), gases e águas pluviais; cobertura e compactação dos resíduos, que por sua vez auxiliariam muito na minimização dos impactos atuais. "Através de cálculo estimado e superficial, podemos chegar à cifra de R$ 8,50 por tonelada de lixo descarregado no lixão. Um valor extremamente alto se compararmos aos mesmos gastos quando se trata de um aterro sanitário devidamente operado e gerenciado." CUIDANDO DAS ÁGUAS COMO SE CUIDA DA TERRA Todo esse tipo de problema relacionado à irregularidade na manutenção dos lixões pode também acarretar sérios danos quanto às águas subterrâneas. Embora o recurso hídrico subterrâneo seja abundante no Brasil, o seu uso ainda é bastante restrito, o que já não acontece em vários países da Europa. No Estado de São Paulo, 35% da população é abastecida por esse recurso. Em compensação, 70% dos municípios dependem total ou parcialmente deste manancial. "Por existir em abundância e não necessitar de tratamento, como as águas dos rios e lagos, o preço é bem mais barato para servir ao abastecimento público e privado. Cabe apenas aos serviços de água fluoretar e clorar", observa Ricardo Hirata, um dos pesquisadores do Centro de Pesquisas de Águas Subterrâneas (Cepas), do Instituto de Geociências. Sob a coordenação do professor Hirata, três linhas de pesquisas básicas estão em desenvolvimento: "Gestão de Recursos Hídricos Subterrâneos", "Contaminação por Sistemas de Saneamento" e "Hidrogeoquímica das Águas Subterrâneas". Segundo Hirata, as águas subterrâneas compõem um dos mananciais mais importantes do mundo e, como o próprio nome diz, ocorrem abaixo da superfície do solo. "93% da água doce e líquida do Planeta são águas subterrâneas. O restante é formado por rios, lagos e similares. A maior parte dessa água subterrânea é limpa, ou seja, potável." A pesquisa "Hidrogeoquímica das Águas Subterrâneas" estuda o caso do aparecimento de cromo em alguns poços públicos. "Descobrimos que a origem desse cromo era natural. A rocha que compõe o poço contém esse metal e, devido a mecanismos naturais, ela está solubilizando. O cromo é um elemento tóxico e pouco solúvel, quando se encontra na rocha. Queremos verificar o que leva a essa solubilização." A segunda linha de pesquisa procura investigar a contaminação das águas subterrâneas por sistemas de fossas sépticas e negras — simples buracos escavados no solo sem cuidado algum. "Muitas regiões do País não possuem sistema de redes de esgoto, o que acaba contribuindo para a poluição das águas subterrâneas", diz Hirata. A partir do estudo da dinâmica do nitrogênio — que é o grande contaminador desse tipo de água —, Hirata quer criar alguns equipamentos ou instrumentos que proporcionem a diminuição da carga contaminante advinda das fossas. Já o estudo "Gestão de Recursos Hídricos Subterrâneos", procura otimizar a ocupação do sob pelo homem para que não haja comprometimento da qualidade da água subterrânea. "Para que isso ocorra estamos desenvolvendo mapas geológicos que mostrem a vulnerabilidade dos aqüíferos. Através de metodologia própria os mapas estão sendo traçados para serem publicados por órgãos do governo", conta Hirata. Segundo o professor, o Estado de São Paulo tem 60 mil atividades industriais e não tem capacidade de monitorar tudo isso. "Queremos, através desse trabalho, identificar as atividades que representam um maior risco. O critério é estar em área vulnerável e a partir daí analisar as atividades que geram potencialmente cargas contaminantes. É um instrumento de planejamento e monitoração ambiental." Hirata diz ainda que vários passos importantes foram tomados, nos últimos anos, pelo governo estadual. "Através da implantação de um plano de recursos hídricos, a partir da década de 90, o Estado determina o que pode ou não ser jogado diretamente no solo e nas águas superficiais para que não ocorra a contaminação. Isso já é um grande avanço." Outra contribuição do Departamento de Geologia Sedimentar e Ambiental e do Cepas é um acordo de parceria junto à prefeitura do município de Eldorado Paulista, no Vale do Ribeira. De acordo com José Milton Benedetti Mendes, que faz parte do grupo de estudos do professor Alberto Pacheco, o acordo consiste em atender o Ministério Público, que vem movendo uma ação contra a municipalidade para restaurar discussões sobre o meio ambiente e a saúde pública. "O acordo prevê a participação dos professores do departamento, alunos de graduação e pós-graduação, a utilização dos laboratórios e dos equipamentos do Cepas, para juntos elaborarem estudos hidrogeológicos visando à recuperação da área do lixão e sua implantação numa nova área. É um trabalho gratuito oferecido pelo instituto." O grupo tem outros objetivos, como elaborar um banco de dados sobre os depósitos de resíduos sólidos urbanos — oficiais e clandestinos — na região metropolitana de São Paulo e monitoramento ambiental dos aterros sanitários. Esses objetivos permitirão a confecção de trabalhos de iniciação científica, dissertações de mestrado, teses de doutorado e publicações em revistas nacionais e internacionais.