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DCI

Saliva do Barbeiro e trazer cura

Publicado em 25 maio 2002

Por Fabiana Pio
Os insetos que se alimentam de sangue (hematófagos) têm proteínas potencialmente farmacêuticas. É o caso do Triatoma infestans, conhecido como barbeiro, transmissor do Mal de Chagas, doença que altera o funcionamento do coração e pode levar à morte. Uma molécula existente na saliva do Barbeiro, com forte ação bactericida, até então desconhecida na literatura científica, foi descoberta pelo jovem pesquisador Rogério Amimo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Batizada de trialisina, a proteína mata bactérias (organismos unicelulares) e fungos (organismos multicelulares) perfurando suas membranas e também inibe a ação do protozoário Trypanosoma cruzi, causador do Mal de Chagas, que vive no interior do estômago e intestino do Barbeiro. A partir da descoberta da trialisina foi possível sintetizar uma molécula que combate o protozoário Trypanosoma brucei, causador da doença do sono. A descoberta da molécula trialisina levou Amimo a ganhar o Prêmio Jovem Talento em Ciências da Vida 2002, da Sociedade Brasileira de Bioquímica e Biologia Celular. Foram também encontradas mais seis moléculas na secreção do inseto, que apresentam ações anticoagulantes, anestésicas e que inibem a formação de plaquetas. Essas, em número elevado, podem causar hemorragia. PESQUISA Segundo Sérgio Schenkman, coordenador do projeto, a pesquisa consistiu na identificação das moléculas, clonagem dos genes e estudo das funções. "Nunca ninguém havia clonado os genes da proteína desse barbeiro para serem estudados em laboratório", diz o coordenador Schenkman. Também participaram do projeto as universidades de São Paulo (USP) e Federal de Minas Gerais (UFMG). O estudo faz parte de uma rede que estuda propriedades estruturais de proteínas encontradas em diferentes organismos, como plantas e animais. Na primeira fase, essa rede recebeu investimentos de US$ 70 mil. Com um financiamento de US$ 120 mil, a maioria proveniente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), será realizada a segunda fase da pesquisa, que irá analisar a estrutura da molécula e sua causa funcional. "Com isso, teremos informações precisas das propriedades potencialmente farmacêuticas do barbeiro, e medicamentos poderão ser desenvolvidos", diz o coordenador Schenkman. Segundo ele, já existe o remédio Hirudina, que contém substâncias anti-coagulantes extraídas de sanguessugas. CURIOSIDADE De acordo com Amimo, a idéia de estudar a saliva do Barbeiro surgiu do fato desse inseto sugar o sangue do ser vivo durante trinta minutos sem ser percebido. "Levantou-se então a hipótese de que sua saliva teria substâncias anestésicas", diz. A partir disso foram descobertas diferentes moléculas capazes de neutralizar o sistema imunológico do hospedeiro. Essas proteínas são produzidas por apenas três glândulas do inseto. Para Schenkman, é necessário que todos os insetos que se alimentam de sangue tenham proteínas que o defendam dos diferentes microorganismos. "Caso contrário, os hematófagos não sobreviveriam", diz. O Barbeiro primeiramente se alimentava de insetos e depois passou a utilizar o sangue de vertebrados, principalmente de mamíferos, como nutrientes. A ação de sucção sanguínea do Barbeiro é formada por três fases: a sondagem, quando o inseto insere as maxilas na pele do hospedeiro, salivando e também procurando o vaso sanguíneo. Na segunda fase, o inseto prova o líquido e a última etapa consiste na sucção, momento que o barbeiro bombeia o sangue para seu intestino.