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Salário igual "expulsa" cientistas brasileiros do país

Publicado em 03 fevereiro 2011

A repatriação de cientistas brasileiros que atuam no exterior, proposta pelo ministro de Ciência e Tecnologia, Aloizio Mercadante, no início da sua gestão, pode não ser uma matemática simples.

De acordo com quem está fazendo ciência fora do Brasil, mesmo que exista vontade de voltar, a burocracia para se fazer pesquisa e a falta de competitividade nas universidades nacionais, diferentemente do que acontece nos EUA e na Europa, ainda são fatores de repulsa.

``No Brasil, os salários acadêmicos são iguais. Nos EUA, eu não ganho o mesmo salário que meus colegas. Há competitividade``, diz o físico José Nelson Onuchic, professor da UCSD (Universidade da Califórnia, em San Diego).

Ele está há 21 anos nos EUA, país que, estima-se, tenha 3.000 professores brasileiros.

A opinião de Onuchic é compartilhada por outros pesquisadores, como Alysson Muotri, que também é UCSD, mas é biólogo.

Em entrevista à Folha, disse que ``para algumas pessoas, o real patriotismo é abandonar as melhores condições de trabalho no exterior e voltar ao Brasil. Alguns dizem ``vem aqui sofrer com a gente, vamos juntos tentar melhorar este país```.

Quem faz pesquisa por aqui concorda com as dificuldades. ``A gente perde muito tempo por lidar com tanta atividade burocrática``, diz o biólogo Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

``Mas quem sai tem que saber que existem oportunidades para se fazer pesquisa aqui. Estou no Brasil não só porque estudei em universidade pública, mas por valores``, completa o biólogo.

Onuchic não pensa em voltar de vez ao Brasil, mas, para ele, uma alternativa possível seria passar alguns meses por aqui.

Essa solução é uma das ideias de Mercadante para a repatriação. Em entrevista exclusiva à Folha, ele disse que pretende criar, via agências de fomento, um formato de ``bolsas-sanduíche`` (bolsa de pesquisa de curto período no exterior) ao contrário.

Seriam bolsas de pesquisa oferecidas aos brasileiros no exterior para que eles passem um tempo fazendo pesquisa por aqui.

``O Brasil é um país agradável, provavelmente os cientistas acabariam retornando``, acredita o ministro.

A ideia é criar, com as bolsas de curta duração, uma espécie de rede da ``inteligência brasileira`` no exterior.

Essa política está sendo tocada na Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo). ``As redes ajudam. Mas temos trazido também cientistas com o Programa Jovem Pesquisador. Há repatriados e também estrangeiros``, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, diretor científico da fundação.

De acordo com ele, a Fapesp já apoiou mil pesquisadores com esse perfil nos últimos dez anos. ``A maior parte deles ficou aqui``, afirma Cruz. A Fapesp, no entanto, não tem os números exatos. (Fonte: Sabine Righetti/ Folha.com)