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Salário de doutor chega a R$ 7 mil

Publicado em 20 novembro 2006

Por Lilian Primi, "O Estado de S.Paulo

Esse é o nível ideal de formação para atuar em pesquisa privada; o valor é menor para quem é apenas mestre

A indústria brasileira começa a abrir suas portas aos cientistas, profissionais que até agora só tinham as instituições públicas como campo de atuação no Brasil.
Ainda não é possível dimensionar o novo mercado, mas especialistas garantem que a "onda" está só começando.
Um deles é o diretor científico da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), professor Carlos Henrique de Brito Cruz.
Para ele, já se pode identificar o caminho que leva à carreira científica na iniciativa privada e também o horizonte financeiro de quem opta por ela.
Cruz aponta a lista de empresas que responderam ao primeiro edital para distribuir R$ 300 milhões em subvenção de pesquisas para a indústria, que soma mil projetos, como indício de forte aumento das vagas disponíveis. "Isso significa que todas elas têm ou pretendem ter atividades de pesquisa".
Outro indício é a ampliação dos departamentos de Pesquisa e Desenvolvimento - os chamados P&D - nas grandes empresas, além da consolidação de pequenas empresas de alta tecnologia, que contratam basicamente pesquisadores e também começam a ampliar seus quadros.
A Natura, por exemplo, está desmembrando o seu P&D. "A pesquisa precisa de independência", explica Daniel Gonzaga, diretor de Pesquisa e Tecnologia da empresa.
Hoje o quadro funcional do P&D tem 230 pesquisadores. Com o desmembramento, deverá ser ampliado para 350 até 2010, sendo 250 na pesquisa e cem em desenvolvimento de novos produtos.
A empresa também está fortalecendo os laços com as instituições públicas, com o lançamento de programas de financiamento como o Natura Campus de Inovação Tecnológica, para co-financiamento de projetos da pesquisa pública que possam ter algum interesse para a empresa.
"Vamos investir até 3% do faturamento em ciência e pretendemos direcionar 50% disso para as parcerias", diz Gonzaga.
No ano passado, o valor desse investimento chegou a R$ 67,1 milhões, representando 2,9% do faturamento líquido. As inscrições começam em janeiro.

Ganhos maiores
Os salários iniciais de um especialista com doutorado, formação considerada ideal, estão em R$ 7 mil em média na iniciativa privada.
A bolsa de doutorado da Fapesp, uma das fontes de renda para quem está na carreira acadêmica, é de R$ 1.716,00 (DR-I) e R$ 2.124,00 (DR-II).
Em geral, o salário de um PhD é definido pelas empresas com base nos valores pagos ao gerente em P&D. Quem tem apenas mestrado ganha pouco menos.
Mesmo pagando bem mais que na área acadêmica, a iniciativa privada concentra apenas de 15% a 20% dos mestres e doutores formados no Brasil, segundo Luciana Villa Nova, gerente de Inovação Tecnológica e Parcerias da Natura.
Cruz diz que essa movimentação é resultado de uma convergência de forças: "A indústria percebeu que seria obrigada a investir em novas tecnologias para se manter competitiva. E o governo, com o fim da inflação, incluiu na agenda da política de ciência e tecnologia o fortalecimento da pesquisa nas empresas".
Na área federal, destaca-se a Lei de Inovação, publicada em 2004, que tem como principais alavancas da pesquisa medidas de redução de obstáculos para as empresas, como a possibilidade de subvenções.
"Antes era preciso assinar parcerias", explica Cruz.
Foram criados ainda mecanismos de redução de imposto para a indústria que publicar patentes (Lei do Bem - 11.196); de redução de IPI de máquinas e equipamentos usados em projetos de pesquisa e linhas de crédito vinculadas ao Imposto de Renda retido na fonte.
"Temos ainda o BNDES, que dá apoio à atividade de P&D como parte da política operacional; e os Fundos Setoriais, financiados pela Contribuição por Intervenção de Domínio (CID)".
A Opto Eletrônica São Carlos, que fabrica equipamentos médicos e lasers, nasceu graças ao apoio do Pipe, um programa que financia pequenas empresas de alta tecnologia.
"Começamos com oito pesquisadores. Hoje acabamos de inaugurar um novo centro de pesquisa, com o único laboratório equipado com sala limpa do Brasil", conta Mario Stefani, diretor de P&D da empresa, que atualmente tem um quadro com 35 cientistas: oito doutores (PhD), sete mestres, oito mestrandos e o restante, graduados.
"Dos graduados, 70% estão cursando programas de mestrado", diz.